Elogiado por Ezra Pound e T. S. Eliot, Henry James é um dos maiores ficcionistas americanos, embora tenha vivido boa parte da vida na Inglaterra. Um penegrino apaixonado reúne os primeiros três contos traduzidos de Henry James, publicados pela Revue des Deux Mondes - a mesma revista que veiculou pela primeira vez alguns poemas de As flores do mal, de Baudelaire. Curioso é saber que os textos foram editados em francês sem o conhecimento do autor. Ele descobriu o "ultraje" somente quando se mudou para a Europa, aos 32 anos, e abriu a revista. Nesta coletânea estão Um peregrino apaixonado, Eugene Pickering e O último dos Valérios, histórias publicadas na revista entre 1875 e 1876 e que evidenciam o confronto entre a cultura dita civilizada do Velho Mundo e os novos padrões ianques de gosto e de comportamento.
Um Peregrino Apaixonado e outras histórias -
Henry James
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São três contos bem do início da carreira do Henry James, escritos aos 30, 31 anos de idade. Em que pese algumas (poucas) passagens enfadonhas ou excessivamente declamatórias (decorrentes certamente da grande influência de Shakespeare sobre o autor), o que se vê como saldo positivo é um grande frescor narrativo e um grande prazer de se contar uma história. Percebe-se igualmente o seguinte (o que é uma evidente constatação para os leitores de James): como sempre, na falta de elementos mais sensacionalistas ou espetaculares - pois se trata antes de mais nada de uma literatura realista - o autor se esmera em criar legítimos e inusitados conflitos humanos como forma de sustentar a trama e o interesse do leitor; além, é claro, de emitir sutilmente sua visão de mundo e da sociedade. Senão vejamos: No primeiro conto, "O último dos valérios", um jovem conde italiano um tanto arruinado se casa com uma bela herdeira americana. Só que, entre inumeras peripécias, acaba se apaixonando perdidamente por uma escultura desenterrada das dependências do próprio castelo, em detrimento da repudiada esposa. No segundo conto, que dá título ao volume, um arruinado cidadão Americano, de aspecto enfermiço, às portas da morte, viaja à Inglaterra pela primeira vez, para realizar seu último desejo: não somente sentir-se um nobre, um europeu - coisa que sempre acreditou ser no íntimo - mas, sobretudo, na intenção de se apropriar, por legitimidade hereditária, de um belo e portentoso castelo que pertenceu aos seus antepassados. Por fim, no último e mais bem solucionado dos três, outro americano se encontra girando pelo mundo - agora na Alemanha. Motivo? Sempre foi atrelado à cruel educação e vigilância do pai, que sempre o mantivera cativo aos livros e a uma rígida educação moral, alheio ao mundo real e dos sentimentos; o pai morre e ele então, perto dos trinta anos, pretende mergulhar de cabeça na Realidade e recuperar o tempo perdido. São entrechos promissores, sem dúvida. E James, como sempre, dá conta do recado. Cria um irresistível suspense com tão pouca matéria. Baseando-se somente nos arroubos sentimentais e nos conflitos morais dos seus personagens e da relação deles entre si. Somente isso. Praticamente não há descrições de exteriores em "Eugene Pickering", por exemplo. E mesmo quando há, pela pena de James é como se tivéssemos vendo um filme, tão perfeita é a comunhão entre o descrito e o sentido pelo personagem. Isso fica tão evidente tanto em "O último dos valérios", quanto no ágil e surpreendente "Um peregrino apaixonado". O leitor é arrastado (intrigado) por uma sucessão de teias ora estranhas, ora grotescas, ora imprevisíveis. Muito bom! Para os conhecedores da obra jamesiana, há ainda a gratificação extra de constatar a gênese da abordagem narrativa consagrada pelo autor nas suas obras-primas posteriores. Está, sobretudo, no ponto de vista adotado pelos narradores de todos os contos reunidos aqui: são meros coadjuvantes, mas sem eles não existiriam as narrativas. Eles conjecturam, arriscam palpites, julgam, condenam, tentam penetrar na mente dos protagonistas da história. O artíficio é tão bem empregado que não há como duvidar deles. Nascia aqui o que chamo de "Fluxo de consciência em terceira pessoa". Coisa de gênio. TRECHO DE "O ÚLTIMO DOS VALÉRIOS": "A vala estava tão apinhada de trabalhadores que nada vi até que o homenzinho os afastou. Então, banhada pelo sol, quase a ponto de refleti-lo, a despeito das incrustações escuras, observei, escorada por pedras contra um monte de terra, uma majestosa imagem de mármore. Pareceu-me quase colossal, embora depois tenha percebido que tinhas proporções perfeitamente humanas. Meus pulsos começaram a latejar, pois senti que se tratava de algo formidável; e era formidável estar dentre os primeiros a vê-la renascer. Sua beleza maravilhosa lhe dava uma aparência quase humana e seu olhar ausente parecia fitar-nos em assombro. Vestia uma túnica drapejada, de modo que notei que não era uma Vênus."
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