Resultado de uma série de conferências ministradas pelo autor em janeiro e fevereiro de 1944, na Universidade da Califórnia, em Berkeley, Breve história da literatura brasileira pode desapontar alguns desavisados; e com razão. Não se encontram aqui grandes análises do autor sobre obras consagradas da nossa literatura. O título do livro (bem como o corpo do texto) na verdade é uma tradução, já que Erico escreveu este volume em inglês (o único que produziu em língua estrangeira).
Erico não faz o trabalho de um crítico, isto é, não faz análises de livros, não escreve prolongadamente sobre nenhuma obra literária. O fato é que o autor conta mais a história do Brasil do que sua literatura. Com essa abordagem, a intenção de Erico parece ser relacionar cada contexto histórico com o fazer literário no respectivo período. Ou seja, mostrar como a produção de literatura é perpassada e influenciada pelo momento histórico no qual se situa. É a partir de determinadas realidades socioculturais de cada período que Erico encontra razões para certas tendências de produção e movimentos literários nacionais.
Assim, Erico sobrevoa nomes de autores e títulos de livros, sem aprofundamentos. Só quando chega em Machado de Assis ele se prolonga um tantinho mais. Chama o Bruxo do Cosme velho de <i>"dissecador de almas"</i>; diz também que Mário Quintana é <i>"metade homem e metade elfo"</i>. Elogia bastante Os sertões e a relevância deste trabalho de Euclides da Cunha. Aborda, claro, a Semana de Arte Moderna de 22.
Durante o livro Erico expõe opiniões pessoais. Nelas é possível perceber uma preocupação que subjaz toda obra, e até pode justificar tanta ênfase na história do Brasil presente nela: sua preocupação de que a literatura não esteja afastada da realidade; sua ideia de que a literatura pode ser um veículo para a discussão de problemas sociais; sua defesa quanto a uma produção literária participativa, de autores(as) que não sejam somente espectadores de seu tempo, mas agentes dele.
É de se lamentar que, uma vez que este livro foi escrito em 1943, não podemos ver Erico falar sobre nomes da nossa literatura que são posteriores. E por vezes, cita apenas superficialmente alguns escritores e escritoras que, recém saindo das fraldas quanto suas produções literárias, ainda naquele momento não se consolidaram como nomes importantes.
ERICO POR ELE MESMO
<i>"Devo confessar para pôr fim a essa dissertação informal sobre poesia que meus poetas favoritos são Cecília Meireles e Mário Quintana."</i>
Sobre Jorge Amado, diz que ele é <i>"[...] um dos romancistas brasileiros mais talentosos. Esse moço é um contador de histórias nato. [...] Sua prosa é fluente, pitoresca e expressiva. No fundo um poeta, às vezes suas páginas são pura poesia. Suas histórias se tingem de uma espécie varonil de lirismo."</i>
Em certa passagem, mais para o final do texto, Erico menciona que <i>"Amigos agora me mandam recados do Brasil de que uma nova e destacada romancista, Clarice Lispector, recentemente fez uma estreia impressionante, com Perto do coração selvagem."</i>
Logo mais adiante fala que <i>"[...] na área do conto, a vivaz Lygia Fagundes Telles é a recém-chegada mais digna de nota, com seu interessante livro, Praia Viva."</i>
<b>Curiosidade (ou Uma lenda):</b>
<i>"Diz-se que certo dia Pedro II visitou Victor Hugo, em Paris, e quando ambos os grandes homens conversavam fervorosos sobre poesia, o netinho do poeta francês entrou na sala ruidosamente. 'Cumprimente Sua Majestade, meu menino', disse Victor Hugo ao neto. Mas o Imperador sacudiu a bela cabeça e replicou: 'Não, minha criança, há só uma majestade nesta sala. É seu avô'."</i>