Este não é um livro comum ou fácil de ser compreendido, na verdade, acho que só pode ser inteiramente compreendido quando se procura entender a autora e a fase em que ela se encontrava ao escrevê-lo.
“As Belas Imagens” é um dos últimos romances de Simone, onde ela buscou compreender através do existencialismo a condição da mulher e da moral burguesa numa França pós 2ª Guerra, marcada pelo consumismo e o individualismo. É neste cenário que temos Laurence, uma publicitária ainda jovem que sente-se completamente deslocada em seu meio social.
Após um colapso nervoso ocorrido cinco anos antes, Laurence tenta se manter num regime de auto controle, no qual o seu trabalho como publicitária é parte fundamental, um lugar onde ela encontra um jeito de mascarar sua realidade e frustração com sua vida em geral através de suas belas imagens.
Casamento, amante, filhos, os problemas de sua mãe, seus amigos sofisticados e burgueses, seu pai e sua vida de aparente de liberdade dos conceitos da sociedade, são todas essas coisas que pertencem ao universo de Laurence e a tornam uma personagem que não sabe lidar com a perspectiva de magoar os outros ou de decepcioná-los, sendo influenciada pelas circunstâncias, sem conseguir se opor a nada.
Ela foi criada assim, criada para ser uma bela imagem, assim como as imagens dos produtos com o qual trabalha, porém, em suas reflexões é possível perceber que mesmo sendo condicionada a toda uma perspectiva burguesa e alienada, ainda resta dentro de si um pouco de rebeldia juvenil, que ela acaba por reencontrar em sua filha mais velha.
A narrativa não segue a estrutura de um romance, é mais como um recorte de um pedaço crucial da vida de Laurence, não tendo verdadeiramente um inicio ou fim, mas procurando mostrar o momento exato em que ela caiu em si.
A sensação que tive ao ler a narrativa foi a de me espelhar na personagem e de chegar realmente a compreendê-la em toda sua angustia e confusão. Simone conseguiu com uma narrativa baseada em dois tipos de narrador passar com tranquilidade os sentimentos de uma personagem que vai se tornando mais vivida conforme passa o tempo.
As Belas Imagens não é um livro comum, podendo até mesmo ser frustrante, mas afirmo com toda certeza que é uma obra clássica, capaz de despertar a sensibilidade do leitor. Recomendo como uma leitura de introdução a obra de Simone De Beauvoir por demonstrar em pouco mais de 140 páginas o estilo literário e reflexivo da autora.