Primeiramente, desculpem-me pelo tamanho da resenha, pois o livro tem mais de mil páginas.
Há nessa obra certo apego ao quotidiano e ao coloquial, postura simbolista inicial para a modernidade decisiva, a propensão ao animismo é fartamente explorada, poesia intimista, opressão do tempo.
Achei que muitos textos dessa edição não são da modalidade poesia, nem prosa-poética. Apenas simplesmente pensamentos, divagações etc. Alguns parecem mini crônicas. Alguns poemas se repetem em outras obras diferentes.
Os primeiros poemas são sonetos, quando eles estavam em desuso, depois muda a forma. A mais comum são as as quadras. Faz também poemas em formas de soneto sem seguir a métrica.
Escreve muito poema "Poema-piada". Faz muitas especulações filosóficas sob o disfarce do humor. Usa muito de animais e prosopopeias com eles.
Os títulos do poema ocasionalmente seguem uma ordem de tema, às vezes um continuação ou contraponto do próximo.
Emn alguns demonstra religiosidade, mas às vezes comete o "pecado" de falar o nome de Deus em vão.
Refere-se frequentemente ao seu Anjo da Guarda. O País de Trebizonda foi uma invenção sua, e Lili, sua filha, definida como "meu fantasminha predileto", também inventada. Afirma não ter engajamento. Afirma ser sempre criança. São poemas bem "coloridos".
Reflete muito do ato de escrever e de ser escritor. Segue-se alguns que agrupei:
Esse me dá uma lição, ainda mais no que concerne em expor minha depressão:
"LIMITES DA CONVERSAÇÃO
Há certas coisas que não haveria mesmo ocasião de as colocarmos sensatamente numa conversa e que só num poema estão no seu lugar. Deve ser por esse motivo que alguns de nós começaram, um dia, a fazer versos. Um modo muito curioso de falar sozinho, como se vê, mas o único modo de certas coisas caírem no ouvido certo."
Sobre saber ler e saber escrever:
"O TRÁGICO DILEMA
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer é porque um dos dois é burro."
Outro poema piada sobre o ato de escrever:
"DA LIBERDADE CRIADORA
Nunca me releio... Tenho um medo enorme de me influenciar. É verdadeiramente catastrófico quando um autor se transforma no seu discípulo."
Gostamos dos poemas que expressam os sentimentos com os quais nos identificamos:
"Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles."
Esse segue a mesma ideia do anterior:
"A REVELAÇÃO
Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente... e não a gente a ele!"
Tanto a poesia quanto o suicídio são efeitos da tristeza:
"Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
Não dessa tristeza criminosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas:"
Poesia como fuga, pois na minha opinião acho que as ciências que cuidam da saúde mental avançam muito pouco:
"Fora da poesia não há salvação."
A explicação deve ser deixada pelos leitores, cada um com sua interpretação:
"Porque um poeta que se explica parece
que está desculpando-se... Vocês não acham?"
Como no meu caso e no da maioria dos poetas, a tristeza é o que leva a escrever. Lembramos da metáfora da ostra que produz dor com sofrimento:
"para os poetas não existe parto sem dor."
Outra reflexão sobre ser escritor:
"Mais triste do que um escritor virar seu próprio discípulo é quando ele vira um dos seus próprios personagens."
Fala do impulso para escrever poemas:
"Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz."
Toda arte é expressão:
"A FUNÇÃO
A função do poeta não é explicar-se. A função do poeta é expressar-se."
Ser poeta não é uma escolha:
"Ele não tem culpa de ser poeta; portanto, não tem de que se desculpar ou explicar."
Concordo que é muito difícil escrever poemas originais sobre amor:
"Isto de escrever versos de amor é das coisas mais dificeis que há impossível não descambar para o lugar-comum."
Parece dizer que a poesia é sua única companhia:
"Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar."
Esse pode ser um aspecto singular da literatura e da arte em si, pois todo o resto é para atingir uma demanda:
"NÃO OLHE PARA A OBJETIVA
Pensar nos leitores ou num determinado leitor prejudica a naturalidade, de sorte que a única maneira de um autor não fazer pose é escrever para ninguém. E muito menos para si mesmo."
Outro agrupamento meu por temáticas que se relacionam:
Neste lembrei-me da música â« Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante ⪠de Raul Seixas.
"LVIII. Do DIREITO DE CONTRADIZER-ME
Que eu tenha um juízo ah-eterno
E sempre a mesma opinião?
Mas por que devo suar no inverno
Só porque o fiz no verão?"
Ainda mais se sermos a "metamorfose ambulante" citada acima:
"A OPINIÃO
Quando dês opinião, nunca deixes de escrever a data..."
Concordo, pelos mesmos motivos acima:
"É que a gente nunca lê o mesmo livro. Nem é cada leitor, em suas diferentes idades, que nunca lê o mesmo livro..."
Seguem agora os trechos aleatórios:
Apatia:
"Eu nada mais desejo, nem a morte..."
Verso que condiz com sua boemia:
"E no meu romantismo vagabundo"
Remete ao ditado Chinês "Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida":
"Uma palavra só
Pode tudo perder para sempre..."
E é tão puro o silêncio agora!"
É ocasionalmente romântico:
"Um coração não cabe num só peito:
Amor... Amor..."
E faz metáforas com o amor:
"Amar é mudar a alma de casa."
Sobre dizer "eu te amo", acredito, com assonância:
"DO ESTILO
Fere de leve a frase... E esquece... Nada
Convém que se repita...
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita."
Sedução do pecado:
"DOS PESCADORES DE ALMAS
Se Deus, tal como Satanás, procura
As almas aliciar.., por que deixa ao Pecado
Esse caminho suave, essa fatal doçura
E faz do Bem um fruto amargo e indesejado?"
Faz piada com uma frase famosa de Sócrates:
"XLIII. DA INÚTIL SABEDORIA
'Conhece-te a ti mesmo.' Dessa, agora,
O alcance não adivinho.
Muito mais útil nos fora
Conhecer nosso vizinho..."
Sua visão antirromântica é bem mais comum:
"LXXI. DAS PENAS DE AMOR
É só por teu egoísmo impenitente
Que o sentimento se transforma em dor.
O que julgas, assim, penas de amor,
São penas de amor-próprio, simplesmente..."
Mesma ideia do anterior:
"LXXIII. DA REALIDADE
O sumo bem só no ideal perdura...
Ah! quanta vez a vida nos revela
Que "a saudade da amada criatura"
É bem melhor do que a presença dela..."
Novamente antirromântico:
"CVII. DA CONDIÇÃO HUMANA
Se variam na casca, idêntico é o miolo,
Julguem-se embora de diversa trama:
Ninguém mais se parece a um verdadeiro tolo
Que o mais sutil dos sábios quando ama."
Lição para guardar segredos:
"LXXVI. DA DISCRIÇÃO
Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo de teu amigo
Possui amigos também..."
Rima rara:
"LXXXIX. DA ALEGRIA NAS ATRIBULAÇÕES
"Olha! o melhor é sorrires!"
Mas já se viu que lembrança!
Dá-me primeiro a bonança,
Que eu te darei o arco íris..."
Trata da realidade:
"CI. DA HUMANA CONDIÇÃO
Custa o rico a entrar no Céu
(Afirma o povo e não erra).
Porém muito mais difícil
É um pobre ficar na terra..."
Lição de moral:
"Quem pretende apenas a glória não a merece."
Invalida a esperança:
"A esperança é um urubu pintado de verde."
Faz piada, pois no contrato com a editora da maioria dos escritores eles só recebem 10% do valor das vendas de cada livro:
"PEQUENA TRAGÉDIA BRASILEIRA
A Bem-Amada queria devorar o coração do Poeta.
Não, disse ele só terás um pedacinho...
Porque noventa por cento pertence aos Editores."
Diz ser singular:
"EXAME DE CONSCIÊNCIA
Se eu amo a meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu semelhante?"
Identifiquei-me:
"o acontecido e o imaginado tendo ambos o mesmo poder traumático e o mesmo pé de realidade."
Acredito que este seja o poema mais famoso dele:
"POEMINHO DO CONTRA
Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!"
Fala da tristeza dos poetas como "tristeza profissional".
Faz um gracejo com os avanços da ciência:
"DA PREGUIÇA
A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda."
Escárnio aos eremitas:
"DA VIDA SOLITÁRIA
Os eremitas deixavam apenas as más companhias pela má companhia."
Este remete a uma frase de Nietzsche "Até o texto ter desaparecido sob a interpretação":
"A COISA
A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita."
Isso vale para as perguntas que fazemos a nós mesmos:
"DAS INDAGAÇÕES
A resposta certa não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas."
O que sofre os grandes artistas:
"IMAGINAÇÃO...
A imaginação é a memória que enlouqueceu."
Brinca com o duplo sentido:
"SEMÂNTICA
Dizeis que tudo é amor e eu VOS direi que a fome é tudo; tanto assim que o verbo comer, na insondável sabedoria do povo, também significa possuir carnalmente."
Infelizmente...
"INTRUSÃO
O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente..."
Sobre um recurso muito utilizado por poetas:
"RETICÊNCIAS
As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho..."
Sobre a impossibilidade de separar observador do objeto:
"DA CRITICA
Uma definição apenas define os definidores."
Identifiquei-me:
"DA SAUDADE
A saudade que dói mais fundo e irremediavelmente é a saudade que temos de nós."
A tendência é isso ficar cada vez maior:
"A MODA ETERNA
Somente nunca sai da moda quem está nu."
Eu sinto isso ao olhar para o relógio:
"O TEMPO E A VIDA
Não se deviam permitir nos relógios de parede esses ponteiros que marcam os segundos: eles nos envelhecem muito mais que o ponteiro das horas."
Por não ser sorriso para se exibir:
"Os sorrisos mais sinceros são os sorrisos desdentados."
Bela metáfora:
"DO SONHO
Sonhar é acordar-se para dentro."
Faz piadas algumas com mulheres:
"MISTÉRIO
Por que será que "com certeza" tem o sentido de "talvez"? E por que chamam de duvidosas as mulheres de que todo mundo tem certeza?"
Uso da figura de linguagem conhecida como paranomásia:
"soluça a solução!"
Esse remete aos ideais platônicos:
"Porque a Beleza é a forma angélica da Verdade."
Concordo, eu que associo a dor ao pensar:
"A Matemática é o pensamento sem dor."
Essa é escrachada:
"CAUTELA
Os fantasmas não fumam porque poderiam acabar fumando-se a SI mesmos."
Afirma que com as guerras as pessoas serão mais feias na geração seguinte:
"SELEÇÃO ARTIFICIAL
As guerras não ajudam muito a remediar o que se denomina (bombasticamente) de explosão demográfica: os que ficam em casa aproveitam a deixa para multiplicar-se. E como os que partem são agora escolhidos entre os mais aptos de físico e de espírito, imagine o pobre leitor o que não será isso para a evolução do Homo Sapiens..."
Penso nisso, só a arte vai me redimir (sou um pecador):
"CONFISSÕES
Toda confissão não depurada pela arte é uma indecência."
Concordo:
"À LA MANIÈRE DE LA ROCHEFOUCAULD
Os moralistas condenam o que eles não têm coragem de praticar."
Bem pensado:
"O CAFÉ E O CHÁ
O café é mais intelectual o chá, mais espiritual."
Neste seguere ser ateu.
"CONFISSÃO
Sou um herege de todas as religiões."
Essa é para quem (inclusive eu) não consegue aplicar a lição do livro dos doze passos de viver um dia de cada vez:
"Confusão
Essas duas tresloucadas, a Saudade e a Esperança, vivem na casa do Presente, quando deviam estar como seria lógico uma na casa do Passado e a outra na casa do Futuro.
Mas e o Presente, seu moço?
Ah, esse nunca está em casa."
Por isso não existe tradução perfeita, e o termo mais adequado é "adaptação":
"P. No seu entender, o que é uma boa tradução?
R. Aquela que segue o estilo do autor, e não o do tradutor."
Poema-piada com a Física:
"O POVO E A RELATIVIDADE
Todas as línguas ocidentais sempre usaram a expressão "um espaço de tempo". Que diria a isso o velho Einstein?"
Herege com um interessante jogo de rimas:
"E O DIABO SE DIVERTE
A gente não se converte. A gente se reverte. E o Diabo se diverte."
Das contradições da religião:
"DO TEMOR DE DEUS
...mas não é ao Diabo que deveríamos temer?"
Fazendo alusão a um ditado muito comum:
"A DIFERENÇA
A diferença entre um poeta e um louco é que o poeta sabe que é louco...
Porque a poesia é uma loucura lúcida."
Lembrei de Frejat: ⪠Todo mundo é parecido quando sente dor â«
"TROVA
Quem as suas mágoas canta,
Quando acaso as canta bem
Não canta só suas mágoas,
Canta a de todos também."
Para variar um pouco, uma quadra cheia de lirismo:
"A TROVA
Trova: soneto do povo,
Flor de nostálgico encanto...
Todo o infinito do amor
Numa só gota de pranto."
Agora um mais tenebroso:
"Só os meus passos... Mas tão leves são
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração..."
Mario Quintana foi gaúcho, viveu 88 anos e sempre foi solteiro (cujo verso seguinte pode dar a luz: "ser xifópago deve ser tão incômodo como ser casado"), e o seguinte também:
"Bem que eu gostaria que o tal detetive lesse estas linhas, para atentar nas vantagens hedonísticas de continuar solteiro."
Era boêmio. Viveu só a maior parte da sua vida em pensões modestas. O prédio do Hotel Majestic, residência do poeta entre 1968 e 1980, é tombado como patrimônio histórico do Estado do Rio Grande do Sul em 1982, tornando-se Casa de Cultura Mario Quintana.