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    Mario Quintana - Poesia Completa

    Mario Quintana

    Nova Aguilar
    2005
    1019 páginas
    1d 9h 58m
    ISBN-10: 8521000871
    Português Brasileiro
    4.5
    251 avaliações
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    Favoritos70Desejados337Avaliaram251

    Esta publicação reúne pela primeira vez, os quinze livros de poesia publicados em vida por Mario Quintana, o livro póstumo "Água" e os cinco livros de poema para a infância. Destes, somente "O Batalhão das Letras" e "Pé de Pilão" são compostos exclusivamente de poemas inéditos, os demais resultam do agrupamento de poemas anteriormente publicados em outros livros, com alguns poucos que ali se editaram pela primeira vez. Na seção "Poemas Para a Infância" consta a indicação dos textos inéditos de cada livro. Decidiu-se pela publicação integral dos livros infantis por julgar-se que os poemas, mesmo tendo sido publicados antes, ganham em cada conjunto outro sentido e nova configuração.

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    Leandro Bonizi picture
    Leandro Bonizi19/12/2022Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Primeiramente, desculpem-me pelo tamanho da resenha, pois o livro tem mais de mil páginas. Há nessa obra certo apego ao quotidiano e ao coloquial, postura simbolista inicial para a modernidade decisiva, a propensão ao animismo é fartamente explorada, poesia intimista, opressão do tempo. Achei que muitos textos dessa edição não são da modalidade poesia, nem prosa-poética. Apenas simplesmente pensamentos, divagações etc. Alguns parecem mini crônicas. Alguns poemas se repetem em outras obras diferentes. Os primeiros poemas são sonetos, quando eles estavam em desuso, depois muda a forma. A mais comum são as as quadras. Faz também poemas em formas de soneto sem seguir a métrica. Escreve muito poema "Poema-piada". Faz muitas especulações filosóficas sob o disfarce do humor. Usa muito de animais e prosopopeias com eles. Os títulos do poema ocasionalmente seguem uma ordem de tema, às vezes um continuação ou contraponto do próximo. Emn alguns demonstra religiosidade, mas às vezes comete o "pecado" de falar o nome de Deus em vão. Refere-se frequentemente ao seu Anjo da Guarda. O País de Trebizonda foi uma invenção sua, e Lili, sua filha, definida como "meu fantasminha predileto", também inventada. Afirma não ter engajamento. Afirma ser sempre criança. São poemas bem "coloridos". Reflete muito do ato de escrever e de ser escritor. Segue-se alguns que agrupei: Esse me dá uma lição, ainda mais no que concerne em expor minha depressão: "LIMITES DA CONVERSAÇÃO Há certas coisas que não haveria mesmo ocasião de as colocarmos sensatamente numa conversa — e que só num poema estão no seu lugar. Deve ser por esse motivo que alguns de nós começaram, um dia, a fazer versos. Um modo muito curioso de falar sozinho, como se vê, mas o único modo de certas coisas caírem no ouvido certo." Sobre saber ler e saber escrever: "O TRÁGICO DILEMA Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer é porque um dos dois é burro." Outro poema piada sobre o ato de escrever: "DA LIBERDADE CRIADORA Nunca me releio... Tenho um medo enorme de me influenciar. É verdadeiramente catastrófico quando um autor se transforma no seu discípulo." Gostamos dos poemas que expressam os sentimentos com os quais nos identificamos: "Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles." Esse segue a mesma ideia do anterior: "A REVELAÇÃO Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente... e não a gente a ele!" Tanto a poesia quanto o suicídio são efeitos da tristeza: "Não tenho vergonha de dizer que estou triste, Não dessa tristeza criminosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas:" Poesia como fuga, pois na minha opinião acho que as ciências que cuidam da saúde mental avançam muito pouco: "Fora da poesia não há salvação." A explicação deve ser deixada pelos leitores, cada um com sua interpretação: "Porque um poeta que se explica parece que está desculpando-se... Vocês não acham?" Como no meu caso e no da maioria dos poetas, a tristeza é o que leva a escrever. Lembramos da metáfora da ostra que produz dor com sofrimento: "para os poetas não existe parto sem dor." Outra reflexão sobre ser escritor: "Mais triste do que um escritor virar seu próprio discípulo é quando ele vira um dos seus próprios personagens." Fala do impulso para escrever poemas: "Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz." Toda arte é expressão: "A FUNÇÃO A função do poeta não é explicar-se. A função do poeta é expressar-se." Ser poeta não é uma escolha: "Ele não tem culpa de ser poeta; portanto, não tem de que se desculpar ou explicar." Concordo que é muito difícil escrever poemas originais sobre amor: "Isto de escrever versos de amor é das coisas mais dificeis que há — impossível não descambar para o lugar-comum." Parece dizer que a poesia é sua única companhia: "Eu sou um homem fechado. O mundo me tornou egoísta e mau. E a minha poesia é um vício triste, Desesperado e solitário Que eu faço tudo por abafar." Esse pode ser um aspecto singular da literatura e da arte em si, pois todo o resto é para atingir uma demanda: "NÃO OLHE PARA A OBJETIVA Pensar nos leitores — ou num determinado leitor — prejudica a naturalidade, de sorte que a única maneira de um autor não fazer pose é escrever para ninguém. E muito menos para si mesmo." Outro agrupamento meu por temáticas que se relacionam: Neste lembrei-me da música ♫ Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante ♪ de Raul Seixas. "LVIII. Do DIREITO DE CONTRADIZER-ME Que eu tenha um juízo ah-eterno E sempre a mesma opinião? Mas por que devo suar no inverno Só porque o fiz no verão?" Ainda mais se sermos a "metamorfose ambulante" citada acima: "A OPINIÃO Quando dês opinião, nunca deixes de escrever a data..." Concordo, pelos mesmos motivos acima: "É que a gente nunca lê o mesmo livro. Nem é cada leitor, em suas diferentes idades, que nunca lê o mesmo livro..." Seguem agora os trechos aleatórios: Apatia: "Eu nada mais desejo, nem a morte..." Verso que condiz com sua boemia: "E no meu romantismo vagabundo" Remete ao ditado Chinês "Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida": "Uma palavra só Pode tudo perder para sempre..." E é tão puro o silêncio agora!" É ocasionalmente romântico: "Um coração não cabe num só peito: Amor... Amor..." E faz metáforas com o amor: "Amar é mudar a alma de casa." Sobre dizer "eu te amo", acredito, com assonância: "DO ESTILO Fere de leve a frase... E esquece... Nada Convém que se repita... Só em linguagem amorosa agrada A mesma coisa cem mil vezes dita." Sedução do pecado: "DOS PESCADORES DE ALMAS Se Deus, tal como Satanás, procura As almas aliciar.., por que deixa ao Pecado Esse caminho suave, essa fatal doçura E faz do Bem um fruto amargo e indesejado?" Faz piada com uma frase famosa de Sócrates: "XLIII. DA INÚTIL SABEDORIA 'Conhece-te a ti mesmo.' Dessa, agora, O alcance não adivinho. Muito mais útil nos fora Conhecer nosso vizinho..." Sua visão antirromântica é bem mais comum: "LXXI. DAS PENAS DE AMOR É só por teu egoísmo impenitente Que o sentimento se transforma em dor. O que julgas, assim, penas de amor, São penas de amor-próprio, simplesmente..." Mesma ideia do anterior: "LXXIII. DA REALIDADE O sumo bem só no ideal perdura... Ah! quanta vez a vida nos revela Que "a saudade da amada criatura" É bem melhor do que a presença dela..." Novamente antirromântico: "CVII. DA CONDIÇÃO HUMANA Se variam na casca, idêntico é o miolo, Julguem-se embora de diversa trama: Ninguém mais se parece a um verdadeiro tolo Que o mais sutil dos sábios quando ama." Lição para guardar segredos: "LXXVI. DA DISCRIÇÃO Não te abras com teu amigo Que ele um outro amigo tem. E o amigo de teu amigo Possui amigos também..." Rima rara: "LXXXIX. DA ALEGRIA NAS ATRIBULAÇÕES "Olha! o melhor é sorrires!" Mas já se viu que lembrança! Dá-me primeiro a bonança, Que eu te darei o arco íris..." Trata da realidade: "CI. DA HUMANA CONDIÇÃO Custa o rico a entrar no Céu (Afirma o povo e não erra). Porém muito mais difícil É um pobre ficar na terra..." Lição de moral: "Quem pretende apenas a glória não a merece." Invalida a esperança: "A esperança é um urubu pintado de verde." Faz piada, pois no contrato com a editora da maioria dos escritores eles só recebem 10% do valor das vendas de cada livro: "PEQUENA TRAGÉDIA BRASILEIRA A Bem-Amada queria devorar o coração do Poeta. — Não, — disse ele — só terás um pedacinho... Porque noventa por cento pertence aos Editores." Diz ser singular: "EXAME DE CONSCIÊNCIA Se eu amo a meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu semelhante?" Identifiquei-me: "o acontecido e o imaginado tendo ambos o mesmo poder traumático e o mesmo pé de realidade." Acredito que este seja o poema mais famoso dele: "POEMINHO DO CONTRA Todos esses que aí estão Atravancando o meu caminho, Eles passarão... Eu passarinho!" Fala da tristeza dos poetas como "tristeza profissional". Faz um gracejo com os avanços da ciência: "DA PREGUIÇA A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda." Escárnio aos eremitas: "DA VIDA SOLITÁRIA Os eremitas deixavam apenas as más companhias pela má companhia." Este remete a uma frase de Nietzsche "Até o texto ter desaparecido sob a interpretação": "A COISA A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita." Isso vale para as perguntas que fazemos a nós mesmos: "DAS INDAGAÇÕES A resposta certa não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas." O que sofre os grandes artistas: "IMAGINAÇÃO... A imaginação é a memória que enlouqueceu." Brinca com o duplo sentido: "SEMÂNTICA Dizeis que tudo é amor e eu VOS direi que a fome é tudo; tanto assim que o verbo comer, na insondável sabedoria do povo, também significa possuir carnalmente." Infelizmente... "INTRUSÃO O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente..." Sobre um recurso muito utilizado por poetas: "RETICÊNCIAS As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho..." Sobre a impossibilidade de separar observador do objeto: "DA CRITICA Uma definição apenas define os definidores." Identifiquei-me: "DA SAUDADE A saudade que dói mais fundo — e irremediavelmente — é a saudade que temos de nós." A tendência é isso ficar cada vez maior: "A MODA ETERNA Somente nunca sai da moda quem está nu." Eu sinto isso ao olhar para o relógio: "O TEMPO E A VIDA Não se deviam permitir nos relógios de parede esses ponteiros que marcam os segundos: eles nos envelhecem muito mais que o ponteiro das horas." Por não ser sorriso para se exibir: "Os sorrisos mais sinceros são os sorrisos desdentados." Bela metáfora: "DO SONHO Sonhar é acordar-se para dentro." Faz piadas algumas com mulheres: "MISTÉRIO Por que será que "com certeza" tem o sentido de "talvez"? E por que chamam de duvidosas as mulheres de que todo mundo tem certeza?" Uso da figura de linguagem conhecida como paranomásia: "soluça a solução!" Esse remete aos ideais platônicos: "Porque a Beleza é a forma angélica da Verdade." Concordo, eu que associo a dor ao pensar: "A Matemática é o pensamento sem dor." Essa é escrachada: "CAUTELA Os fantasmas não fumam porque poderiam acabar fumando-se a SI mesmos." Afirma que com as guerras as pessoas serão mais feias na geração seguinte: "SELEÇÃO ARTIFICIAL As guerras não ajudam muito a remediar o que se denomina (bombasticamente) de explosão demográfica: os que ficam em casa aproveitam a deixa para multiplicar-se. E como os que partem são agora escolhidos entre os mais aptos de físico e de espírito, imagine o pobre leitor o que não será isso para a evolução do Homo Sapiens..." Penso nisso, só a arte vai me redimir (sou um pecador): "CONFISSÕES Toda confissão não depurada pela arte é uma indecência." Concordo: "À LA MANIÈRE DE LA ROCHEFOUCAULD Os moralistas condenam o que eles não têm coragem de praticar." Bem pensado: "O CAFÉ E O CHÁ O café é mais intelectual — o chá, mais espiritual." Neste seguere ser ateu. "CONFISSÃO Sou um herege de todas as religiões." Essa é para quem (inclusive eu) não consegue aplicar a lição do livro dos doze passos de viver um dia de cada vez: "Confusão Essas duas tresloucadas, a Saudade e a Esperança, vivem na casa do Presente, quando deviam estar — como seria lógico — uma na casa do Passado e a outra na casa do Futuro. — Mas e o Presente, seu moço? — Ah, esse nunca está em casa." Por isso não existe tradução perfeita, e o termo mais adequado é "adaptação": "P. — No seu entender, o que é uma boa tradução? R. — Aquela que segue o estilo do autor, e não o do tradutor." Poema-piada com a Física: "O POVO E A RELATIVIDADE Todas as línguas ocidentais sempre usaram a expressão "um espaço de tempo". Que diria a isso o velho Einstein?" Herege com um interessante jogo de rimas: "E O DIABO SE DIVERTE A gente não se converte. A gente se reverte. E o Diabo se diverte." Das contradições da religião: "DO TEMOR DE DEUS ...mas não é ao Diabo que deveríamos temer?" Fazendo alusão a um ditado muito comum: "A DIFERENÇA A diferença entre um poeta e um louco é que o poeta sabe que é louco... Porque a poesia é uma loucura lúcida." Lembrei de Frejat: ♪ Todo mundo é parecido quando sente dor ♫ "TROVA Quem as suas mágoas canta, Quando acaso as canta bem Não canta só suas mágoas, Canta a de todos também." Para variar um pouco, uma quadra cheia de lirismo: "A TROVA Trova: soneto do povo, Flor de nostálgico encanto... Todo o infinito do amor Numa só gota de pranto." Agora um mais tenebroso: "Só os meus passos... Mas tão leves são Que até parecem, pela madrugada, Os da minha futura assombração..." Mario Quintana foi gaúcho, viveu 88 anos e sempre foi solteiro (cujo verso seguinte pode dar a luz: "ser xifópago deve ser tão incômodo como ser casado"), e o seguinte também: "Bem que eu gostaria que o tal detetive lesse estas linhas, para atentar nas vantagens hedonísticas de continuar solteiro." Era boêmio. Viveu só a maior parte da sua vida em pensões modestas. O prédio do Hotel Majestic, residência do poeta entre 1968 e 1980, é tombado como patrimônio histórico do Estado do Rio Grande do Sul em 1982, tornando-se Casa de Cultura Mario Quintana.

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    Mario de Miranda Quintana

    Mario Quintana fez as primeiras letras em sua cidade natal, mudando-se em 1919 para Porto Alegre, onde estudou no Colégio Militar, publicando ali suas primeiras produções literárias. Trabalhou para a Editora Globo, quando esta ainda era uma instituição eminentemente gaúcha, e depois na farmácia paterna. Considerado o "poeta das coisas simples", com um estilo marcado pela ironia, pela profundidade e pela perfeição técnica, ele trabalhou como jornalista quase toda a sua vida. Traduziu mais de cento e trinta obras da literatura universal, entre elas Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, Mrs Dalloway de Virginia Woolf, e Palavras e Sangue, de Giovanni Papini.

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    Porto Alegre, Brasil

    Mario de Miranda Quintana