Encontrei esse livro em um sebo e não precisei de três folheadas para querer levá-lo. Não é todo dia que você encontra um livro sobre a história da arte com imagens. Uma pena que, apesar de Kenneth Clark ser um historiador da arte, historicamente os conceitos apresentados neste livro são antigos.
O autor propõe descrever a história da arte de maneira cronológica e seus impactos na sociedade. Ele sustenta que a arte é um instrumento civilizador, no qual são expressos os pensamentos, costumes, críticas e filosofias de vida de seu próprio tempo.
Pois é exatamente nessa premissa que o problema se encontra, pois Clark demonstra ser eurocêntrico em diversos aspectos — alguns até injustificáveis e insustentáveis academicamente falando.
Pensei na proposta de marcar cada ponderação complicada (para não dizer errada) que ele faz no livro, mas talvez isso seria insustentável, pois demandaria muito esforço para não só criticá-lo, mas também defender o que é certo.
Exemplo disso é quando, ainda nos primeiros capítulos, ele compara as obras renascentistas às africanas e comenta que as renascentistas são superiores pelo nível de capricho. Outra vez, ainda nos capítulos iniciais, ele se refere aos povos que estavam fora dos domínios romanos como “bárbaros”. Academicamente falando, essa expressão só é usada para explicar que esses outros povos eram chamados assim pelos romanos de forma pejorativa e depreciativa, porque, de fato, eles não eram bárbaros. Pois Kenneth Clark não contextualiza o termo, como o repete inúmeras vezes, e ainda sinaliza que os povos não romanos não tinham capacidade de desenvolver tais habilidades, sendo que, historicamente falando, os romanos mais aprenderam com esses povos “bárbaros” por meio de sua política de anexação geográfica e trocas culturais.
Mais à frente, quando vai tratar das artes barrocas e do rococó, Kenneth Clark fala dos impulsos da época e de como o europeu, ao colonizar a América, levou sua arte até esses países, fazendo com que enxergassem arte de boa qualidade, seja em quadros, seja na construção de igrejas. Nesse trecho, ele literalmente diz que “é de se entender os benefícios da colonização”. Acho que não precisamos nos aprofundar tanto sobre isso.
A arte pode, sim, ser um instrumento educacional, mas quando se defende que ela é um instrumento civilizatório, principalmente quando se traz a comparação da arte europeia com as demais, ressalta-se um pensamento do século XVI de que fora da Europa não existe nada de bom e que todos devem se subjugar. Um olhar preconceituoso para tudo aquilo que não é europeu. O livro não se sustenta em sua proposta, pois não consegue dialogar com qualquer outro tipo de civilização além da europeia e, ainda assim, refere-se a outras expressões artísticas não europeias apenas para desprezá-las.
No geral, é um livro absurdamente prepotente e errado em seus termos historiográficos e conceituais. Não se pode dizer que é um livro inútil, pois “até no lixão nasce flor” (Racionais MC); porém, eu diria que ele é um livro muito perigoso de se ler. Para quem não entende de história, não é um livro que eu recomendaria.