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    À Beira do Corpo -

    Walmir Ayala

    Leitura
    2007
    160 páginas
    5h 20m
    ISBN-13: 9788573587517
    Português Brasileiro
    3.8
    183 avaliações
    Leram316Lendo28Querem89Relendo1Abandonos3Resenhas15
    Favoritos26Desejados89Avaliaram183

    À Beira do Corpo conta a história de Bianca, jovem mulher que trai o marido Vicente com o também casado Tenente Sebastião, contando com a cumplicidade e o auxílio da empregada Flora. Flagrada em circunstância de adultério, depois de ter sido delatada por Flora, Bianca, junto do seu amante, é assassinada por Vicente, que vai sofrer internamente as conseqüências do seu ato. Esses fatos têm como cenário a pequena cidade de Vila Nova, no interior do Rio Grande do Sul.

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    Matheus Petris04/02/2026Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Eu, o verme, no equilíbrio do mistério

    A atitude anafórica deste narrador, um verme falante, reitera o absurdo e adia o mistério: como morreu esta mulher em decomposição, este corpo no qual o narrador, "eu, o verme", passeia? A irrelevância do "spoiler" pode ser um ponto de partida para refletir sobre este romance de 1964. Não importa o que acontece, mas como acontece. Essa estratégia narrativa de iniciar uma história pelo seu final, pela resolução, não dissipa o mistério, apenas o adia. Sim, uma mulher morreu, mas como? Quais serão os eventos que levarão a esta tragédia? Em outras palavras, importa menos como uma obra termina e mais como ela se articula para chegar ao seu final. Se o instrumento da crítica é a leitura cerrada, como sugere Fábio Durão, uma atenção ao nível dos detalhes das obras, se ela "em vez de se preocupar somente com o “o quê?”, ela leva em consideração o “como”" (Durão, 2020, p. 25), por que um leitor não pode buscar a mesma profundidade? Vamos, então, a pequenos detalhes, estou apenas ensaiando um rascunho crítico. Há, o todo tempo, um equilíbrio do mistério, seu narrador conta, mas também sugere. O verme opina, é intruso, tem uma onisciência seletiva múltipla, embora esteja a maior parte do tempo sob a perspectiva de Bianca, a protagonista. O narrador de Ayala joga com isso e a estrutura do seu romance também: a primeira parte é inteira dedicada ao relato deste verme que, conforme rói esse belo cadáver, de seios suntosos - imagem importante para o romance, simboliza não apenas a beleza de sua protagonista, da gestação, mas da inveja -, sabemos de sua história. Quando o verme se encontra em seus lábios, escutamos suas palavras, em seus ouvidos, aquilo que ela escuta, no seu pé, o calçado que irá calçar; em sínte-se, ele encapsula simbolicamente o que será narrado adiante. Já, na segunda parte, o foco narrativo é outro, assim como o narrador; explica-se a origem deste narrador-verme e também as consequências dessa tragédia. Esta parte é, também, um comentário social, o escracho de uma cidade sistematicamente hipócrita, moralista, regida por regras sufocantes, aprisionantes. O estilo de Ayala também se modifica entre às partes, a primeira com períodos mais estreitos, menos coordenação, a segunda de períodos mais longos, parágrafos mais extensos, mais coordenação sintática, ainda que nas duas partes um campo semântica negativo, obscuro se mantenha, se concentre. Parte evocado pelo estilo, é a atenção dada ao tema do erótico, afinal, estamos em um romance de adultério. O erotismo não é apenas um tema, este narrador não está interessado unicamente na decomposição e na história por trás do adultério, está, sim, ciente do magnetismo entre os corpos, na fricção deles. O símbolo do erótico está, talvez, nos seios. Contemplados pela irmã, pela criada Flora (a vilã sardônica, de vida sofrida), pelo amante, pelo marido. Símbolo da teórica castidade de uma futura mãe que se casou conforme as regras da sociedade, as regras de um pai obsessivo por controle. Bianca era invejada pelo seu entorno, mas trocou uma prisão (a casa paterna) por outra (o casamento convencional, a vida de dona de casa). Em suma, do título, à organicidade da vida (corpos se atraindo, se decompondo), aos detalhes descritos, aos porquês do envolvimento sexual, se trata, sempre, do corpo. Do abismo nos quais os corpos se investem, do abismo no qual o corpo os atrai. Vida vivida, bruta: "Não vos enojeis de estar aqui comigo sob a tampa deste caixão rústico. Enojai-vos, isto sim, da mentira e da hipocrisia, da intransigência e da implacabilidade, isto tudo que eu desconheço em meu percurso que agora inicia. Nasci com esta morte, sou seu verme" (p. 10). Contemplem, então, a decomposição de um corpo, de um casamento, da história de algumas vidas.

    10 curtidas

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    3.8 / 183
    • 5 estrelas29%
    • 4 estrelas30%
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    • 2 estrelas7%
    • 1 estrelas4%
    Walmir Ayala profile picture

    Walmir Ayala

    Walmir Ayala nasceu em Porto Alegre, RS, em 1933. Transferiu-se em 1956 para o Rio de Janeiro, onde atuou em diversos jornais e revistas, destacando-se como poeta (um dos maiores de sua geração) e crítico de artes plásticas. Foi redator e produtor da Rádio MEC e assessor cultural do Instituto Nacional do Livro. Dedicou-se a vários gêneros literários: poesia, conto, romance, teatro, literatura infantil, diário íntimo, crônica e ensaio. Escreveu mais de uma centena de livros, e conquistou vários prêmios nacionais de poesia, ficção, ensaio e literatura infantil. Tem livros, poemas, contos e ensaios traduzidos para o inglês, espanhol, francês, italiano e alemão. Faleceu no Rio de Janeiro em 1991.

    29 Livros
    9 Seguidores
    Rio Grande do Sul, Brasil

    Walmir Ayala