À Beira do Corpo -

    Walmir Ayala

    Casarão do Verbo
    2018
    200 páginas
    6h 40m
    ISBN-13: 9788561878498
    Português Brasileiro

    Um leitor sensível dificilmente deixará de se perguntar como terá sido possível conceber história tão espantosamente verdadeira a partir de um tema — o triângulo amoroso — tantas vezes banalizado. Para se compreender como ele se tornou possível, e de onde vem a força de sua linguagem, é útil esclarecer que o seu autor, quando criança, viu a mãe e o seu amante serem assassinados a tiros pelo pai. Não significa que o romance seja um retrato exato do seu drama. Aqui Ayala recria poeticamente a experiência traumática da infância com uma coragem e autenticidade raras, numa espécie de catarse ou purgação. Romance de dimensão universal, À beira do corpo já alcançou a condição de obra clássica da literatura brasileira, garantindo-lhe a permanência dos livros raros que serão lidos sempre.

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    Matheus Petris04/02/2026Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Eu, o verme, no equilíbrio do mistério

    A atitude anafórica deste narrador, um verme falante, reitera o absurdo e adia o mistério: como morreu esta mulher em decomposição, este corpo no qual o narrador, "eu, o verme", passeia? A irrelevância do "spoiler" pode ser um ponto de partida para refletir sobre este romance de 1964. Não importa o que acontece, mas como acontece. Essa estratégia narrativa de iniciar uma história pelo seu final, pela resolução, não dissipa o mistério, apenas o adia. Sim, uma mulher morreu, mas como? Quais serão os eventos que levarão a esta tragédia? Em outras palavras, importa menos como uma obra termina e mais como ela se articula para chegar ao seu final. Se o instrumento da crítica é a leitura cerrada, como sugere Fábio Durão, uma atenção ao nível dos detalhes das obras, se ela "em vez de se preocupar somente com o “o quê?”, ela leva em consideração o “como”" (Durão, 2020, p. 25), por que um leitor não pode buscar a mesma profundidade? Vamos, então, a pequenos detalhes, estou apenas ensaiando um rascunho crítico. Há, o todo tempo, um equilíbrio do mistério, seu narrador conta, mas também sugere. O verme opina, é intruso, tem uma onisciência seletiva múltipla, embora esteja a maior parte do tempo sob a perspectiva de Bianca, a protagonista. O narrador de Ayala joga com isso e a estrutura do seu romance também: a primeira parte é inteira dedicada ao relato deste verme que, conforme rói esse belo cadáver, de seios suntosos - imagem importante para o romance, simboliza não apenas a beleza de sua protagonista, da gestação, mas da inveja -, sabemos de sua história. Quando o verme se encontra em seus lábios, escutamos suas palavras, em seus ouvidos, aquilo que ela escuta, no seu pé, o calçado que irá calçar; em sínte-se, ele encapsula simbolicamente o que será narrado adiante. Já, na segunda parte, o foco narrativo é outro, assim como o narrador; explica-se a origem deste narrador-verme e também as consequências dessa tragédia. Esta parte é, também, um comentário social, o escracho de uma cidade sistematicamente hipócrita, moralista, regida por regras sufocantes, aprisionantes. O estilo de Ayala também se modifica entre às partes, a primeira com períodos mais estreitos, menos coordenação, a segunda de períodos mais longos, parágrafos mais extensos, mais coordenação sintática, ainda que nas duas partes um campo semântica negativo, obscuro se mantenha, se concentre. Parte evocado pelo estilo, é a atenção dada ao tema do erótico, afinal, estamos em um romance de adultério. O erotismo não é apenas um tema, este narrador não está interessado unicamente na decomposição e na história por trás do adultério, está, sim, ciente do magnetismo entre os corpos, na fricção deles. O símbolo do erótico está, talvez, nos seios. Contemplados pela irmã, pela criada Flora (a vilã sardônica, de vida sofrida), pelo amante, pelo marido. Símbolo da teórica castidade de uma futura mãe que se casou conforme as regras da sociedade, as regras de um pai obsessivo por controle. Bianca era invejada pelo seu entorno, mas trocou uma prisão (a casa paterna) por outra (o casamento convencional, a vida de dona de casa). Em suma, do título, à organicidade da vida (corpos se atraindo, se decompondo), aos detalhes descritos, aos porquês do envolvimento sexual, se trata, sempre, do corpo. Do abismo nos quais os corpos se investem, do abismo no qual o corpo os atrai. Vida vivida, bruta: "Não vos enojeis de estar aqui comigo sob a tampa deste caixão rústico. Enojai-vos, isto sim, da mentira e da hipocrisia, da intransigência e da implacabilidade, isto tudo que eu desconheço em meu percurso que agora inicia. Nasci com esta morte, sou seu verme" (p. 10). Contemplem, então, a decomposição de um corpo, de um casamento, da história de algumas vidas.

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