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    Bom Senso e Bom Gosto -

    Antero de Quental

    Céu Azul
    2010
    30 páginas
    1h 0m
    ISBN-8: 33554424
    Português Brasileiro
    4
    11 avaliações
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    Amanda Medeiros picture
    Amanda Medeiros29/10/2015Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    O texto presente é uma carta de Antero de Quental a Antônio Feliciano de Castilho, onde o primeiro responde às críticas realizadas pelo segundo. Na carta, Antero de Quental retruca as criticas recebidas com outras críticas ao modo com que os poetas Românticos escreviam. Por não ser vinculado a escolas literárias, pode falar livremente acerca das ambições, vaidades e misérias tanto da vertente literária naquele momento presente(Romantismo), quanto da posição a ele atribuída do qual este não o almejava. Ele escreve a Antônio que o ataque feito por este, não foi apenas o ataque de escolas literárias, mas sim aos escritores que fazem o seu trabalho sem consultar os grandes “mestres”. A guerra foi travada a quem pensa por si só e se revolta contra as autoridades. Quem trava esta guerra é a vaidade desses “mestres” e autoridades que incomodados pela inconveniência por sofrerem um “puxão de orelhas”, querem combater esses hereges por seu atrevimento, imprudência de serem independentes e, por quererem inovar. Essa guerra, segundo o autor, foi travada de forma mesquinha por considerar as novas ideias muito piores do que uma má escrita. Ao discordar deste pensamento, Antero afirma que “o escritor quer o espírito livre de jugos, o pensamento livre de preconceitos e respeitos inúteis, o coração livre de vaidades incorruptível e intemerato”, assim,ele será um bom escritor. Mas, se um escritor depender de opiniões alheias este não é um bom escritor. O escritor que fica “de capela em capela” com o intuito de adular todos os ídolos para conseguir fama, estes estão apenas atrás de ambição e vaidade, critérios considerados pelo autor da carta, como miseráveis já que quando a fama acabar eles serão esquecidos. Já os autores que são independentes, pensam e escrevem o que lhes vêm à mentes, não precisam elogiar ninguém para escreverem. Não conhecem ambições ou orgulho e “morrem nobres e puros” “porque têm a cabeça do gênio e o coração da inocência”, sendo assim chamados de poetas. De nada adianta utilizar palavras que iludem, mas desprezar as novas ideias. Esses autores fazem da poesia um instrumento das suas vaidades e dos seus interesses, sendo lindas aos ouvidos, cheias de técnica mas vazias de sentido. Mas a sociedade está em constante transformação e basear a literatura nas cresças e valores antigos, não leva à evolução. Propaga-se a melancolia e a tristeza, lugar este que deveria ser de uma sociedade viva, sã e formosa. Não é baseando-se em clássicos e indo pela maioria que se produzirá novas ideias e crenças que a “humanidade contemporânea precisa para se reformar como uma fogueira a que a lenha vai faltando”. Porém, os grandes pensadores não se encontram em Portugal. Eles se encontram na França, Inglaterra, Alemanha. E, Antero afirma que mesmo estes “grandes gênios modernos são grotescos e desprezíveis aos olhos baços do banal metrificador português”, ou seja, os grandes pensadores das revoluções francesa, positivismo, naturalismo, não influenciam até então a literatura portuguesa que está presa ao passado. Mas, quem seguir esses pensadores, terá o pensamento moderno em suas obras, criticas e uma nova filosofia embasando o seu trabalho.

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    Antero Tarquínio de Quental profile picture

    Antero Tarquínio de Quental

    Procede de uma família ilustre ligada, desde longa data, à colonização de S. Miguel, Açores. Entre os seus antepassados contam-se o padre Bartolomeu de Quental (1626-1698), introdutor em Portugal da Congregação do Oratório. Tanto o avô como o pai militaram com bravura a favor da causa liberal. Aprendeu as primeiras letras em Ponta Delgada onde teve A. F. de Castilho como mestre. Em 1858, com dezasseis anos, matriculou-se em Direito na Universidade de Coimbra e aí obteve, em 1864, o diploma de bacharel, após frequência com aproveitamento bastante modesto. Depressa se notabilizou entre a juventude estudantil pela irreverência e espírito generoso, pelo fôlego poético e talento literário, pelas causas cívicas e políticas em que participava. De espírito inconformista, avesso à estagnação e ao conservadorismo, moviam-no convicções firmes quanto ao advento de um mundo novo governado por ideais de Justiça, Liberdade e Amor que era urgente preparar. Se foi em Coimbra, no convívio com amigos, que se revelou a enorme riqueza e complexidade do coração e inteligência do jovem Antero, foi aí igualmente que se evidenciaram sinais de indecisão quanto ao projeto de vida. Começava assim uma via-sacra de propósitos generosos mas pouco consequentes: projeta combater em Itália integrado nas fileiras do exército de Garibaldi; aprende na Imprensa Nacional o ofício de tipógrafo e vai exercê-lo em Paris; frequenta o Colégio de França e visita Michelet, a quem oferece as Odes Modernas; pondera inscrever-se como voluntário no exército papal; viaja depois pelos Estados Unidos da América; fixa-se em Lisboa e passa a viver em casa de Jaime Batalha Reis, o local onde se reúne o grupo do Cenáculo. Para trás ficavam as pugnas da Questão Coimbrã (1865), os assomos iberistas proclamados no opúsculo Portugal perante a Revolução de Espanha (1868), e a criação em parceria com Eça de Queirós do «satânico» Carlos Fradique Mendes, o poeta da escola de Baudelaire, autor dos «Poemas de Macadam». O apelo da intervenção social mobiliza-lhe as energias para se envolver, a partir de 1870, em iniciativas como a fundação de associações operárias, a organização dos trabalhadores portugueses e a sua filiação na Associação Internacional dos Trabalhadores, a direção e colaboração em jornais, como sucede com a República – Jornal da Democracia Portuguesa e O Pensamento Social. É ainda no decurso destes anos frenéticos que se ocupa do Programa para os Trabalhos da Geração Nova, chamando a si o estatuto de guia espiritual da geração a que pertence. Participa também nos trabalhos que levaram à fundação do Partido Socialista. Pertence a este bem preenchido ciclo de intervenções públicas a dinamização das Conferências Democráticas inauguradas no dia 22 de Maio de 1871, no Casino Lisbonense, e compulsivamente encerradas por uma portaria do Ministério do Reino, no mês seguinte, quando Salomão Sáragga ia pronunciar a sexta conferência subordinada ao tema «Os Historiadores Críticos de Jesus». As conferências tinham um programa ambicioso cujos objetivos eram «ligar Portugal com o movimento moderno», «agitar na opinião pública as grandes questões da filosofia e da ciência moderna», «estudar as condições da transformação política, económica e religiosa da sociedade portuguesa». Mesmo que no imediato este programa tenha ficado por cumprir, continua a ecoar até hoje como toque de alvorada de um Portugal novo. O mesmo se pode afirmar da segunda conferência intitulada «Causas da decadência dos povos peninsulares», um dos textos anterianos mais lidos e discutidos. Aí se escalpeliza, em âmbito peninsular, o trabalho inexorável da decadência, efeito de vícios históricos que urge corrigir. Propõe, por isso, que à rigidez monolítica do catolicismo inquisitorial e tridentino se contraponha a consciência livre esclarecida pela ciência e pela filosofia, à monarquia centralizada a federação republicana, à inércia industrial o trabalho e a livre iniciativa solidária e em prol da coletividade. Apesar de leitura esquemática e ideológica da história peninsular, são páginas que dão que pensar. Com o ano de 1874 chegava a gravíssima doença nervosa para a qual procurou assistência nos cuidados médicos de Sousa Martins, Curry Cabral e Charcot. Por causa dela, foram abandonados vários projetos, ao mesmo tempo que se intensificavam as interrogações filosóficas sobre a existência, adensadas pelas sombras do pessimismo. Intermitentemente, o poeta, o prosador e o cidadão continuam ativos. A residir em Vila do Conde desde 1881, aí encontrou a calma propícia à meditação filosófica sobre questões morais e intelectuais que o ocupam insistentemente. O seu derradeiro acto de intervenção cívica foi aceitar a presidência da Liga Patriótica do Norte, função para a qual o propusera o amigo Luís de Magalhães. Participava assim na comoção patriótica que abalou o país após o Ultimatum inglês de 11 de Janeiro de 1890. E, igual a si mesmo, manifesta de modo lapidar a sua posição: «o nosso maior inimigo não é o inglês, somos nós mesmos». Pensava, havia muito, regressar aos Açores e aí fixar residência. Embarca, efetivamente, em 5 de Junho de 1891, com destino a Ponta Delgada. Nesta cidade, junto ao muro do Convento da Esperança, suicidou-se com dois tiros, no dia 11 de Setembro. O suicídio de Antero coroa uma existência densa onde a luz e a sombra, a razão e o sentimento esculpiram uma esfinge de muitos e perturbadores enigmas. O suicídio tem o valor de resposta exorbitante a dois excessos mortais do seu intenso viver: a cândida entrega à vitória final do Bem e a radical angústia quanto ao seu ansiado advento. Sagrou-se assim como o menos retórico de quantos poetas e prosadores povoam a literatura portuguesa. A consagração de Antero como poeta passa pela publicação de duas obras desiguais e únicas quanto à forma e quanto à temática. As Odes Modernas (1865) introduziram no panorama da poética nacional uma voz de inconformismo e revolta que encontra inspiração nos acontecimentos dramáticos da cena social e política. Ao desligar-se de tópicos rotineiramente glosados pelos versejadores dos salões literários, o livro não podia passar despercebido e acabou por se transformar num dos rastilhos da polémica Bom Senso e Bom Gosto. Não obstante a reposição da obra em segunda edição, em 1875, o autor assume em relação às Odes Modernas distanciamento crítico e reconhece que «além de declamatória e abstrata, por vezes aquela poesia é indistinta e não define bem e tipicamente o espírito que a produziu». Sem nunca enjeitar o vigor revolucionário da juventude, Antero tinha entretanto crescido em ponderação filosófica e agitação interior. Data de 1886 o volume de Sonetos Completos, com prefácio de Oliveira Martins. A organização estrófica de catorze versos oferecia o molde perfeito onde podia condensar os ímpetos metafísicos e místicos de uma sensibilidade dilacerada por tensões jamais resolvidas. A consciência inquieta e sofrida que se confessa nesses versos não cabe na experiência lírica do eu individual, porque nela pulsa a universalidade transcendente da própria condição humana. Se, nos Sonetos, Antero sente o que pensa, nos ensaios filosóficos em que trabalhou durante os últimos anos, ele pensa o que sente. Homem de debate interior, peregrino do Absoluto, pensador do social e do histórico, militante do Portugal moderno, a aventura pessoal de Antero, prisioneira de insuperadas contradições existenciais, perfila-se, pelos tempos fora, como um dos mais inquietantes desafios da consciência humana.

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