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    Syngué Sabour: Pedra-de-paciência -

    Atiq Rahimi

    Estação Liberdade
    2009
    152 páginas
    5h 4m
    ISBN-13: 9788574481531
    Português Brasileiro
    4.1
    206 avaliações
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    Depois de Terra e cinzas (2002) e As mil casas do sonho e do terror (2003), a Estação Liberdade lança Syngué Sabour, novo livro do aclamado escritor afegão, que levou de surpresa com esta obra o Prêmio Goncourt 2008. Em persa, syngué significa "pedra" e, sabour, "paciente". Pedra paciente, a pedra- de-paciência. A personagem central desta obra, uma mulher afegã, vela o marido - que vegeta em uma cama com uma bala alojada na cabeça. Os tempos são difíceis, na rua os tanques e as Kalashnikov atiram sem cessar, a guerra civil impera às portas da casa onde a mulher espera por um milagre. Enquanto isso, lentamente a mulher faz jorrarem de dentro de si as recordações há muito escondidas. Passa a narrar ao marido fatos que ele sempre ignorara. Como a syngué sabour da mitologia persa, a pedra negra que recebe dos peregrinos suas dores e lamentos, o homem prostrado ouve sua esposa. Ouve a extraordinária confissão da mulher, que segreda-lhe, de maneira inimaginável num país islâmico, tudo o que mantivera para si, soterrado sob uma espessa camada de tradição. A ideia para a obra surgiu a partir de um episódio em que foi convidado para um evento literário em Cabul por uma amiga, a poeta Nadia Anjuman. Chegando lá, descobriu que a poeta estava morta, por "causas familiares". Investigando, soube que Nadia havia sido espancada até a morte pelo próprio marido, com a conivência da mãe, pois eles discordavam de seu modo de vida. A frase que abre o livro - "Em algum lugar do Afeganistão ou alhures" - já revela a proposta do autor de não particularizar sua obra no âmbito topográfico: é sobre cultura afegã, ou, mais precisamente, sobre a ortodoxia islâmica que o autor se debruça em Syngué sabour. Não por acaso anônimos, seus personagens fazem irromper as tensões de todo um povo, as mazelas de uma região ressentida de conflitos perenes, sem, no entanto, que se abdique da sutileza e do refinamento do detalhe. Estilista da linguagem, cuja economia maneja com precisão, Rahimi conduz o leitor entre o lirismo e a contundência, entre o que é velado e o que se escancara, através dos conflitos políticos, religiosos e morais de um país em escombros. Esta obra, a primeira que ele escreveu diretamente em francês, conquistou o Prêmio Goncourt de 2008 e consolida o autor afegão como um dos grandes nomes da literatura trans-étnica deste início de século XXI. O júri que atribui o Goncourt para Syngué sabour era composto por: Tahar Ben Jelloun, Françoise Chandernargor, Edmonde Charles-Roux, Didier Decoin, Françoise Mallet-Joris, Bernard Pivot, Patrick Rambaud, Robert Sabatier, Jorge Semprun e Michel Tournier. No dia seguinte a seu comunicado de agradecimento pelo prêmio, Rahimi emitiu outro contra a deportação de 50 compatriotas afegãos que seriam embarcados à força de Calais (França), no que teve sucesso, imbuído de nova autoridade como laureado do Goncourt.

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    Larissa Leal03/08/2012Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Até que a pedra estoure

    O preço da liberdade para um indivíduo oprimido pela sua própria cultura em seus gestos, seus desejos e até em seus pensamentos pode ser muito alto. Mas, embora essa seja uma conclusão possível, não é nisso que nos detemos ao deparamo-nos com a opressão em que se debate a escrita de Atiq Rahimi em direção a libertação da voz feminina de sua Syngué Sabour. A verdadeira voz, não mais limitada, simbólica, profunda porque não-nominada de uma mulher que se encontra, pela primeira vez, diante de si mesma e com o poder das próprias escolhas: ela cuida do marido, em coma com uma bala alojada na nuca, absolutamente só, no meio de violentos conflitos religiosos cotidianos. A sua libertação se dá pela fala, não pelo pensamento, porque este só aparece quando externalizado e aos poucos deixando de limitar-se pelos medos e tabus, inclusive impostos na própria língua processo pelo qual Rahimi também diz ter passado: ao perceber que seu ouvinte, que noutro momento seria seu maior opressor, transformou-se na sua pedra-de-paciência particular. Nesse processo, somos nós mesmos transformados em syngué sabour. Dessa mulher só vemos os gestos dentro de um quarto limitado especialmente por uma cortina estampada de pássaros migratórios, ouvimos seus segredos nos intervalos dos tiros e na cadência da respiração do SEU homem, na qual ela aprendeu a contar o tempo e nós tentamos nos situar. Tudo isso porque o narrador, numa escrita cinematográfica, também está preso no quarto, não nos permitindo conhecer nada além do que se mostra/ouve naquele espaço físico. Nos exercita, assim, a paciência que estamos resignados a ser, até a explosão. O mundo árabe aparece em sua contemporaneidade cruel de violência, de vida sufocada por uma opressão cada vez mais consciente, porém, também renasce em sua magia de Mil e uma Noites pelos ecos das histórias que a mulher conta ao marido, ouvidas das mulheres de sua família, raízes de sua busca pela dolorosa libertação. E, como na reflexão ouvida do sogro de uma dessas histórias, para que seja possível um final feliz alguém precisa ser sacrificado, resta-nos apenas escolher quem o será.

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    Atiq Rahimi

    Atiq Rahimi é um escritor e cineasta afegão nascido em Cabul, Afeganistão, no ano de 1962. Tem dupla nacionalidade francesa e afegã. Durante a guerra nos anos 80 saiu de seu país, já que estudou em uma escola franco-afegã, refugiou-se na França, onde vive até hoje. Apesar de falar francês fluentemente, escreve em dari, língua falada no norte, noroeste do Afeganistão. Não só é formado em Letras, mas também em cinema, está produzindo um filme de seu primeiro romance publicado, Terra e Cinzas. Existem quatro livros publicados no Brasil, Terra e Cinzas, As Mil Casas do Sonho e do Terror, Syngué sabour - Pedra de paciência e Maldito Seja Dostoiévski, todos pela Editora Estação Liberdade. Foi vencedor do Prêmio Goncourt em 2008 pelo seu livro «Syngué sabour. Pierre de patience» o primeiro escrito em francês.

    15 Livros
    11 Seguidores

    Atiq Rahimi