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    Conhecimento do inferno - Trilogia António Lobo Antunes #3

    António Lobo Antunes

    Alfaguara
    2006
    248 páginas
    8h 16m
    ISBN-10: 8560281002
    Português Brasileiro
    4.1
    42 avaliações
    Leram68Lendo6Querem104Relendo0Abandonos3Resenhas2
    Favoritos1Desejados104Avaliaram42

    Terceira parte de uma trilogia que inclui Memória de elefante e Os cus de Judas, Conhecimento do inferno tem como fio condutor uma viagem solitária de carro pelo sul de Portugal. A história é narrada como monólogo interior de um psiquiatra, alter ego do autor. O percurso desdobra-se em vários níveis: no deslocamento do carro, assim como nas recordações da infância do personagem, na marcante trajetória profissional, nas lembranças dos horrores da guerra em Angola nos anos 1970. Cada um dos 12 capítulos do romance centra-se num determinado ponto geográfico da viagem e, a partir dele, faz um desvio pelos atalhos da memória e das reflexões existenciais do narrador. Paradas breves – em Albufeira, Messines, Santana, Aljustrel, Lisboa – marcam etapas do trajeto e pontuam os caminhos do pensamento do personagem. São momentos em que ele faz seu libelo contra as condições miseráveis dos doentes mentais e a prática psiquiátrica, obsoleta e desumana. Momentos em que compartilha com o leitor sua descida ao inferno da doença e da guerra colonial.

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    Alexandre Kovacs23/06/2011Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    António Lobo Antunes - Conhecimento do Inferno

    Editora Objetiva, Selo Alfaguara - Lançamento 2006. Para aqueles que buscam uma leitura leve e agradável, sem maiores desafios literários, não recomendo absolutamente nenhum dos romances do português António Lobo Antunes, tanto em relação à escolha dos temas quanto à técnica narrativa, já que é um autor que exige atenção redobrada do leitor. Este Conhecimento do Inferno, terceiro de uma trilogia iniciada com Memória de elefante e Os cus de Judas é especialmente difícil por tratar de dois temas espinhosos: a experiência do próprio Lobo Antunes durante a guerra colonial em Angola e o período em que trabalhou como psiquiatra no hospital Miguel Bombarda em Lisboa nos anos setenta. Toda a ação do romance ocorre durante uma viagem de carro com duração de um dia, do sul de Portugal, região do Algarve, até Lisboa, mas o truque de António Lobo Antunes é justamente multiplicar este tempo passando por várias fases da vida do narrador. Os eventos são lembrados pelo solitário protagonista (o próprio Lobo Antunes) misturando épocas e alternando entre a primeira e terceira pessoa. Nesta passagem, ao final do primeiro capítulo, ele deixa claro, em tom de autobiografia, o que podemos esperar do romance: "Em 1973, eu regressara da guerra e sabia de feridos, do latir de gemidos na picada, de explosões, de tiros, de minas, de ventres esquartejados pela explosão das armadilhas, sabia de prisioneiros e de bebês assassinados, sabia do sangue derramado e da saudade, mas fora-me poupado o conhecimento do inferno". Em outro trecho, desta vez utilizando a terceira pessoa, fica clara a posição contrária aos métodos de psiquiatria utilizados: "O inferno, pensou, são os tratados de Psiquiatria, o inferno é a invenção da loucura pelos médicos, o inferno é esta estupidez de comprimidos, esta incapacidade de amar, esta ausência de esperança (...)" ou nesta outa passagem: "Nas reuniões do hospital, de dia, assaltava-o a impressão esquisita de que eram os doentes quem tratavam os psiquiatras com a delicadeza que a aprendizagem da dor lhes traz, que os doentes fingiam ser doentes para ajudar os psiquiatras (...)". Lendo algumas partes do romance de Lobo Antunes, só encontro paralelos na literatura sobre a descrição e ambientação da loucura em autores como Lima Barreto ou Dostoiévski. Uma experiência perturbadora que não consegue ser facilmente explicada ou resenhada: "Eis-me no reino das flores de plástico, verificou acariciando com o polegar as orgulhosas pétalas postiças, no meio dos sentimentos de plástico, das emoções de plástico, da piedade de plástico, do afeto de plástico dos médicos, porque nos médicos quase só o horror é genuíno, o horror e o pânico do sofrimento, da amargura, da morte. Quase só o horror sangra nos que se debruçam para a angústia alheia com os seus instrumentos complicados, os seus livros, os seus diagnósticos cabalísticos, como em pequeno eu me inclinava para os moluscos na praia, virando-os com um pauzinho para espiar, curioso, o outro lado".

    5 curtidas

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    Avaliações

    4.1 / 42
    • 5 estrelas45%
    • 4 estrelas24%
    • 3 estrelas17%
    • 2 estrelas14%
    • 1 estrelas0%
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    António Lobo Antunes

    António Lobo Antunes nasceu em 1942, em Lisboa, na zona de Benfica, onde cresceu. É o mais velho de seis irmãos. Licenciou-se na Faculdade de Medicina, em Lisboa, carreira que afirmou ter seguido por acaso. Já aos 13 anos queria ser escritor. Especializou-se em psiquiatria por nela achar semelhanças com a literatura. Parte de sua experiência clínica foi praticada em Angola, durante a Guerra Colonial, depois do que retornou a Portugal. No que concerne à política, apenas uma vez foi militante da APU (1980). No entanto, em relação à questão do poder, manteve-se um pouco distanciado, talvez por formação, herança do pai, anarquista. Foi sensivelmente a partir de 1985 que Lobo Antunes passou a se dedicar quase exclusivamente ao ofício da escrita. Os temas abordados em suas primeiras obras são a Guerra Colonial, a morte, a solidão, a frustração de viver/não amar. Tem três filhas: uma de 27, outra de 25 e outra de 15. Embora dedique a vida à escrita, costuma ir muitas vezes ao hospital. Sobre a escrita, Lobo Antunes diz: "Eu escrevo livros para corrigir os anteriores. E ainda tenho muito para corrigir". A sociedade urbana da média burguesia é a mais retratada em seus livros, uma vez que esta sociedade caracterizou o seu ambiente familiar. Deste modo, o autor tem necessidade de partir de uma base real para a criação de suas obras. Segundo o autor, suas principais influências foram os cinemas norte-americano e italiano, os andamentos da música e também alguns escritores que o encantaram na adolescência, como Céline, Hemingway, Sartre, Camus, Malraux, Júlio Verne e Emilio Salgari, acrescidos mais tarde com a descoberta primeiro de Simenon e, depois, dos russos Tolstoi e Tchekov.

    47 Livros
    78 Seguidores

    António Lobo Antunes