Este livro sobre a ativista e intelectual Beatriz Nascimento traz à superfície aquilo que estava soterrado sob camadas de uma história que aceita/recusa as narrativas que lhe convém. Eu sou Atlântica reveste-se, assim, de um duplo papel. Um é simbólico, porque evoca o reconhecimento, propõe-se a colocar nos autos, como dizem os juristas, a trajetória de uma mulher negra que contribuiu significativamente para a luta antirracista no Brasil. O outro é prático, posto que oferece um conjunto de textos sobre racismo, sexismo, quilombos, dominação e identidade, que serve de orientação teórico-prática e metodológica para organizações sociais envolvidas com relações raciais e de gênero no Brasil. Nesta publicação, a história se refaz e nos permite renovar a nossa ação política.
Eu sou atlântica - Sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento
Alex Ratts
Intelectual Negra
Intelectual, pesquisadora e ativista, Beatriz Nascimento nasceu em Aracaju, em 12 de julho de 1942, filha da dona de casa Rubina Pereira do Nascimento e do pedreiro Francisco Xavier do Nascimento. Ela e seus dez irmãos migraram com a família para o Rio de Janeiro na década de 1950. Com 28 anos iniciou o curso de graduação em História, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), formando-se em 1971. Durante a graduação fez estágio no Arquivo Nacional com o historiador José Honório Rodrigues. (fonte: http://antigo.acordacultura.org.br/herois/heroi/mariabeatriz). Morreu pelas mãos de um homem branco ao defender a amiga que vivia um relacionamento abusivo, 5 tiros atingiu seu corpo em 28 de janeiro de 1995, mas sua trajetoria não se interrompe ai. Seus escritos, suas indignações se assemelha as de muitos e o legado continua. Descobri o livro Eu sou Atlanta por acaso no facebook, e há quem diga que ativismo de facebook não funciona. Confesso que com a fila de livros que tenho fui deixando esse pra traz mas o momento chegou. O livro escrito pelo Professor doutor Alex Ratts e tem o prefácio da Professora Sueli Carneiro conta a história de Beatriz Nascimento. Mulher negra cansada de ver a trajetória do negro brasileiro sendo narrada por homens brancos que se limitavam a narrar a escravidão do ponto de vista deles, e assim escrevem, citam uns aos outros, premiam uns aos ouros e pronto. E o negro pequisador, ele não tem nada a dizer? É somente objeto de estudo? A invisibilidade negra existe em todos os campos mas nesse caso, o acadêmico, foi uma das pautas fortes de Beatriz. Para que a história do Homem negro fossetambém escrita por Homens negros, havia necessidade da inserção do negro no meio acadêmico, algo que nos é estruturalmente negado. Como exemplo temos a faculdade de medicina da USP pela primeira vez em 100 anos vai oferecer cotas raciais, eu imagino a gerra interna na universidade para isso acontecer. A maior dor de Beatriz foi ter ouvido de um intelectual branco que ele era mais negro do que ela. Para o branco basta participar de algumasmanifestações culturais, usar turbante e pronto, já e preto. Beatriz em seus escritos deixa bem claro, ser negro não é um estado de espírito , não é um comportameto , não é uma estética. Temos uma história de quinhentos anos de resistência, dor, sofrimento fisico e moral. Eu sei exatamente o que ela quer dizer com isso, é coisa de preto, é coisa de pele. Me dói muito quando alguém diz que minha pele é linda e que queria ser negro, me rasga o coração. Ser negro não e sambar, usar turbante, rodar no candomblé, desfilar em escola de samba, ser negro e ter que assistir a vida pelo buraco da fechadura, e assistir um mundo ineiro e não fazer parte dele, e driblar, resistir e sobreviver. O Brasil é um dos países mais racista do mundo, mas o racismo e tratado de forma velada ou inexistente, no máximo o racista tem problemas de ordem psicológica, o indivíduo comete um ato racista quando notificado de imediato aparece um laudo médico , racismo no Brasil é loucura e vida que segue. E nós a vitima de racismo, somos anulados, humilhados, animalizados, infantilizados, experimentarmos o isolamento social muito cedo, na igreja, na escola, na familia, e temos que viver uma constante vida dupla pq no dia seguinte temos que ir trabalhar e sorrir, temos que deglutir e digerir esse veneno sem fazer cara feia. Vida dupla! O nome Quilombo vem de Angola, acampamento de guerreiros na floresta projeto de nação protagonizado por negros na vertente ideologica território de liberdade e não apenas um local de fuga. O livro fala do corpo negro como instrumento de identidade . A construção da mulher negra que experiementa o racismo, sexismo, vitima da moral cristã que tem a mulher branca que é para ser solteirona ou esposa e a mulher negra de raça primitiva, desreprimida sexualmente serve para que o homem exerca sua dominação livre de qualquer censura, esses esteriótipos nos adoece e mata até os dias de hoje. Ela fala da personagem Xica da Silva que reforça o estereótipo do negro passivo, dócil e incapaz intelectualmente e que depende do branco pra pensar, na segunda edição do filme muito se foi repensado mas ainda assim não mostra os horrores da senzala, romantização da escravidão negra segue o curso. A pesquisadora fala da solidão da mulher negra e que fingimos não acreditar que o amor não ve cor e raça. Questiona o mito de Zumbi, precisamos mesmo de mito? Aponta muito bem quando questionamos aausência de negro em posição de relevo social e logo mencionam o Pelé , alguns atristas e pronto. No dia 11 de dezembro de 2017, o apresentador branco do programa roda vida ao ser questionado pelo antropólogo e pesquisador do Núcleo de Estudos dos Marcadores Sociais de Diferenças da USP Helio Menezes o porque não havia negros entre os entrevistados do programa, o apresentador de imediato disse que já havia convidado Pelé, isso mesmo gente 35 anos apos a observação de Beatriz de usarem o Pelé como referência de negro em ascensão, se quer conseguem pensar em uma pessoa nova e o Antropologo Helio Meneses rebate, se você quiser conseguimos 120 pessoas negras de destaque para as 120 proximas segundas feiras. O filme Ori de 1989 que tem a narração de Beatriz de Nascimento também deve ser visto antes ou depois de ler o livro, eu consegui achar no youtube ele documenta os movimentos negros brasileiros entre 1977 e 1988 tendo o Quilombo como ideia central. ***A minha maior dor foi ter ouvido de um homem Branco que eu deveria ser AGRADECIDA a escravidão negra pois nasci no Brasil e o governo me deu caderno então tive a chance de trabalhar. Enfim, leiam, descolonizem. Roseane Correa
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