Assunção de Salviano -

    Antonio Callado

    Nova Fronteira
    2013
    146 páginas
    4h 52m
    ISBN-13: 9788520926772
    Português Brasileiro

    Publicado inicialmente em 1954, Assunção de Salviano é feito de matéria-prima puramente nacional: aí se repudia o sectarismo de toda e qualquer natureza, clama-se pela tolerância e pela sadia irreverência com o poder e as convenções. Salviano diz “não” e assume as consequências de seus atos como poucos; místico e mártir, ele é um revolucionário com todas as contradições filosóficas e políticas pertinentes a um grande herói. Segundo Tristão de Athayde, Salviano “começara por negar a Deus. Depois aceitara o convite para fingir que acreditava a fim de melhor realizar a sua catequese revolucionária. E pouco a pouco o que fora uma impostura acabou sendo uma revelação da verdade última das coisas”. Por fixar-se “nos grandes problemas da vida e da morte, da pureza e da corrupção, da incredulidade e da fé”, Assunção de Salviano mostra a que ponto um texto de 1954 continua atual, atingindo, ainda segundo Tristão de Athayde, “um plano muito alto de humanismo e de expressão estética”.

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    Luiz Pereira Júnior21/03/2021Resenhou um livro
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    A surpreendente assunção de Salviano

    No sertão nordestino (melhor dizendo, “nas cidades interioranas do Nordeste”), dois comunistas se disfarçam de engenheiros para iniciar uma revolução a partir de um plano mal delineado. Fracassam. Decidem, então, fazer com que um ateu comunista (o protagonista) se passe por fanático religioso (no melhor estilo Antônio Conselheiro) para arrebanhar uma multidão de crentes. Tudo isso para que, em seguida, ele revele que tudo não passa de uma farsa e satirize publicamente a fé cristã do povo, desmoralizando os líderes religiosos e políticos da região. Até aí tudo bem: a trama bem desenvolvida prende a atenção do leitor, mas a súbita iluminação de Salviano, transformando-se em um arquétipo do fanático sertanejo é, por vezes, difícil de aceitar. Apesar dos longos monólogos, essa iluminação se torna menos plausível quando temos em mente o pragmatismo anterior do protagonista. Tudo bem, é possível, sim, alguém ser convertido. Mas, de um dia para outro transformar completamente suas crenças mais arraigadas e sua personalidade mais profunda? Talvez, talvez, mas tudo bem. Não me convenceu, mas é uma ficção e é preciso entrar no famoso trato ficcional entre o autor e o leitor. E o final? Isso sim me agradou em cheio, pois dá uma explicação surpreendente para o título do livro (extremamente bem escolhido). Acredito que seja praticamente impossível algum leitor adivinhar o final e isso acaba nos deixando com aquele gosto de “caramba, fiz bem em ler esse livro!”. Vale a pena, sim, ler “Assunção de Salviano” para tentar entender um pouco mais de nossa literatura, do nosso meio, do nosso povo, dos nossos costumes. É uma leitura que exige concentração do leitor, mas não a ponto de fazê-lo abandonar a leitura por ser incapaz de percorrer as trilhas intrincadas da narrativa ou por não conseguir se alçar a altos voos hermético-linguístico-psicológicos do autor (sim, alguns autores se acham melhores, quase semideuses literários, pelo fato de escreverem tão “difícil” que nem mesmo seus leitores os compreendem). “Assunção de Salviano”: um texto curto, com vários diálogos, com poucos personagens, com um assassinato que acaba dando mais ritmo e mais sentido à narrativa, com uma situação (digamos assim) de homossexualidade que, sem dúvida, foi de grande ousadia à época em que o livro foi publicado. Enfim, dizer que é uma obra que não desmerece a inteligência do leitor talvez seja um dos melhores elogios que se possa fazer a um livro. E, na verdade, isso parece estar se tornando cada vez mais difícil de ser encontrado...

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