Finalizei essa leitura no dia 12 de abril, mas resolvi pensar nela por mais alguns dias. Escrevo essa resenha no dia 17 de abril.
Depois que finalizei essa leitura quis entender um pouco mais da visão de escrita da Paulina Chiziane. A escritora moçambicana não se considera romancista, e sim, contadora de estórias. A escrita dela reflete isso. A forma como cada acontecimento se apresenta e as digressões presentes, lembra muito a forma como uma boa contadora de histórias faria isso. Além dos personagens humanos principais, a escritora traz no seu contar a própria Zambézia, um território importante de Moçambique. A vegetação, as montanhas e rios, tudo isso interage nessa narrativa.
A história começa nos mostrando a personagem Maria das Dores andando do jeitinho que veio ao mundo por aí. Embora já fosse uma mulher adulta, parecia ter sido parida há pouco por essa terra que a acolheu quando sua vida perdeu o sentido. A história vai contar sobre uma família que se desgarrou, mas especialmente sobre como a colonização chegou em Moçambique (embora o objetivo do livro não seja apresentar um dossiê histórico de tudo o que aconteceu em decorrência da colonização, não se pode ignorar esse fato). Ainda no início desse livro, antes que a gente entendesse de onde veio Maria das Dores, tem uma cena marcante em que chega um padre e um médico na cidade. As mulheres começam a rodear esse padre e deixam claro que ele é bonito demais para viver de forma celibatária. Que quando ele mudar de ideia, pode procurá-las. A ideia não é desrespeitar o catolicismo e os preceitos, mas demonstrar como a ideia de um líder religioso e celibatário ali, trazendo uma forma de ver o mundo cristã e ocidental, não faz sentido naquele contexto.
Depois de conhecermos Maria das Dores, que é um considerada como “louca”, regressamos na história dessa família. Conhecemos Serafina e seu marido, que são pais de Delfina. Delfina ainda cedo começou a enxergar seu corpo como uma moeda de troca para conseguir recursos para si e sua família. Seus irmãos foram arrancados da própria família para serem escravizados em outros lugares. Delfina conhece José dos Montes, um forçado que trabalha no mar. Mesmo que não fizesse sentido, eles resolveram se casar. A fim de conseguir elevar o status da família, ele resolve se assimilar ao regime e vira sipaio. Sua força e dedicação são usados pelo regime, ele passa a matar seus próprios conterrâneos e obviamente é muito odiado por isso. O casamento vai de mal a pior. Enquanto ele tenta se elevar e trazer honra, gera ali a sua primeira filha, Maria das Dores. Mais tarde, sua esposa estando mais interessada em “elevar a raça”, se junta à um branco e tem com esses outros filhos, se destacando nesse momento a Maria Jacinta, que é considerada mulata.
Em algum momento José dos Montes some no mundo e Delfina faz um pacto com um feiticeiro para conseguir se manter em um relacionamento com um branco chamado Soares. Passa anos vivendo bem financeiramente, mas faz dentro da sua própria casa um apartheid. Maria das Dores é responsável por todo o trabalho doméstico e inclusive serve a sua própria irmã Maria Jacinta. Um dia o feitiço se quebra e o branco percebe que a mentalidade da Delfina não vai mudar e também vai embora. Para conseguir continuar a ter regalias na vida, Delfina chega ao ponto de oferecer a própria virgindade da Maria das Dores para o feiticeiro. Esse rapta Maria das Dores, que ainda adolescente se torna esposa e mãe. Delfina se sente mal e se arrepende, mas já é tarde. Maria Jacinta se revolta e vai viver longe dali com os seus outros irmãos.
Nesse ponto da história Delfina passa a refletir sobre muitas coisas da sua realidade. Acompanhamos o desenrolar da história de Maria das Dores e de como mais a frente ela tem seus filhos tirados dela e passa 25 anos vagando por aí, procurando sua prole. Em muitos momentos ler essa história é se deparar com situações odiosas, com personagens odiáveis e profundamente humanos. Eles não apenas vítimas nesse processo de colonização, em muitos momentos também foram algozes. Mas assim como essa família levou um tempo para se separar, ela também leva um tempo para se reencontrar. A impressão que tive é que havia um mundo real e palpável e um mundo imaginário. Nesse mundo imaginário esses personagens se desenvolveram além do bem e do mal, sinto que eles estão mais afastados não pela distância geográfica, e sim, pelas distâncias das feridas causadas por todo esse processo de desentendimento e colonização.
Essa é uma leitura que vai te fazer encarar a maternidade, a colonização, a culpa femina, as construções de masculinidade e os relacionamentos familiares e amorosos. No meio dos seus capítulos, vez por outra encontraremos mitos de criação, mostrando como no início de tudo o poder de criação pertencia às mulheres e acabou sendo tomado pelos homens. Sem dúvidas é uma leitura que vai te pedir paciência para ler e refletir sobre cada pormenor. Uma leitura que me deixou com vontade de conhecer mais a escrita da Paulina Chiziane. Recomendo muito!