Puxa vida, não tenho como descrever a ansiedade que me consumia pelo desejo de ler este livro. Sou um claro defensor das "brasileiridades" e, mais ainda, "baianidades" por ser filho da terra do Nosso Senhor do Bonfim, contudo, assumo ser totalmente leigo e desinformado sobre as questões religiosas do candomblé, umbanda e similares.
A possibilidade de ter acesso a este mundo através de um romance me parecia formidável! Apostei todas as fichas nessa que poderia ser uma maneira saborosa de ser apresentado a esse novo mundo que me fascinava. E que ideia brilhante! Criar um mundo de fantasia mais próximo de todos nós, fugindo dos padrões europeus! Li em alguns lugares na internet inclusive elogios a esse que seria o "Harry Potter com orixás", ledo engano.
Temos que admitir que o marketing que envolveu a produção do livro foi impecável, trailer com narração de Gilberto Gil, contato direto dos leitores com o autor através das redes sociais (afinal, como eu acho que todos deviam ser)... Não era de se esperar menos de PJ Pereira, um expoente na área. Há que se falar ainda da diagramação do livro. Bonito. Uma arte invejável, ainda mais por que tive a oportunidade de obtê-lo com a capa dura, o que o torna ainda mais prazeroso de ler, me incomodando somente a letra excessivamente grande (talvez para aumentar a quantidade de páginas para assemelhar-se aos grandes épicos).
Vencida a análise da produção do livro, vamos à história. Temos uma organização que pessoalmente me incomoda, mas que não há qualquer problema, na organização dos capítulos, variando entre as personagens. Eis então que nos deparamos com o primeiro problema: a narrativa. Nitidamente fica clara que essa é a primeira experiência como escritor de PJ Pereira, que narra de maneira muito simplória todos os fatos, com dificuldades na caracterização dos mesmos e principalmente das personagens, que são tão profundas quanto uma colher de sopa. A abordagem rasteira destes acabam por eliminar qualquer possibilidade de empatia que possa ocorrer com estes. Vemos também uma necessidade de aprofundamento excessiva somente na personagem principal, que nos joga informações continuamente sobre si própria, num exercício narcisista sobre questões que são realmente irrelevantes no contexto e que certamente não seria algo a se compartilhar da forma como é compartilhada com um interlocutor no próprio livro. Posso estar enganado, mas em determinados momentos, a personagem principal parece ser um reflexo do que é ou gostaria de ser o próprio autor, este que parece ter dificuldades de se separar da própria obra.
Sobre os orixás e a mitologia envolvida pelo livro, possui uma abordagem superficial e de difícil entendimento para o primeiro episódio de uma trilogia, fato que, cumpre salientar, se tornou mais claro após ler o Posfácio da própria obra, demonstrando a falta de prática do autor. Destaco também um glossário nas últimas páginas com pouco mais de dez palavras da língua iorubá, que poderiam tranquilamente deixar de estar lá para fazer parte da narrativa, tornando a história muito mais interessante, rica e compreensível.
À obra dou duas estrelas, pela inovação e valorização da cultura afro-brasileira e, ainda, pelo sensacional trabalho de marketing. Espero sinceramente que os próximos capítulos consigam melhorar verticalmente, pois esse tipo de temática e abordagem deve ser incentivada, valorizada e, se de qualidade, servir de exemplo.
Axé.