CHOREI CHOREI CHOREI
O livro começa apresentando a Christine, uma jovem que vive na Áustria logo depois da Primeira Guerra Mundial. Ela trabalha num posto de correios numa vila super pacata e pobre. A vida dela é uma monotonia sem fim, vivendo com o básico do básico, cuidando da mãe doente e sem perspectiva nenhuma de que algo vá mudar. Dá até uma angústia ler essa parte, porque a gente sente o peso da pobreza e da falta de esperança dela.
Mas aí, do nada, o jogo vira. Uma tia rica que mora nos Estados Unidos convida a Christine para passar uns dias num hotel de luxo nos Alpes Suíços. E gente, é aí que a "metamorfose" acontece. Ela sai daquela realidade cinza e é jogada num mundo de vestidos caros, jantares chiques e festas. Ela descobre que é bonita, que as pessoas olham para ela e, pela primeira vez, ela se sente viva, sabe? É como se ela estivesse finalmente respirando.
Só que a queda é alta. Por causa de uma fofoca e de um mal-entendido, ela é "expulsa" desse paraíso e tem que voltar para a vidinha miserável dela no correio. E é nessa segunda parte que o livro fica pesado de verdade. Imagina você ver como a vida poderia ser maravilhosa e depois ter que voltar para a lama? A Christine volta revoltada, amarga, e não consegue mais aceitar a pobreza de antes
O Stefan Zweig é mestre em descrever o que passa na cabeça dos personagens. Ele foca muito no psicológico, naquela sensação de injustiça social e no ressentimento que vai crescendo dentro dela. Ela acaba conhecendo o Ferdinand, um veterano de guerra que também está cheio de ódio pelo sistema, e os dois começam a planejar algo bem drástico.
O Zweig dá um soco na cara da sociedade da época. No hotel de luxo, a Christine só é tratada como um ser humano porque está usando roupas caras. No momento em que descobrem que ela é "só" uma funcionária dos correios, ela vira um nada.
A escrita dele é quase obsessiva. Ele descreve cada mudança de batimento cardíaco da Christine. Você sente a euforia dela nas festas e sente o frio e a humidade da vila dela quando ela volta. É uma leitura claustrofóbica porque você percebe que, para esses personagens, não existe uma "saída fácil".
O que é mais doido no relacionamento da Christine com o Ferdinand é que não é uma história de amor, pelo menos não daquelas que a gente vê em filmes. É uma aliança de náufragos.
Quando eles se conhecem, os dois já estão "quebrados". A Christine está vivendo o luto da vida de luxo que perdeu, e o Ferdinand é um homem que a guerra destruiu fisicamente e psicologicamente. Ele é o retrato do ressentimento.
Tem uma cena deles num banco de praça que é muito forte. Eles começam a destrinchar como o sistema funciona como uns têm tudo sem fazer nada e eles, que trabalham ou lutaram, não têm nada.
A dinâmica deles evolui para algo muito sombrio. Eles param de tentar se encaixar no mundo e decidem que, já que o mundo os rejeitou, eles não precisam seguir as regras do mundo.
O mais triste é perceber que, mesmo estando juntos, eles continuam terrivelmente sozinhos. O relacionamento deles é baseado numa falta, num vazio. Eles se agarram um ao outro como duas pessoas que estão se afogando, mas essa proximidade não traz necessariamente felicidade, traz apenas uma justificativa para o desespero.
É uma das partes mais densas do livro porque o Zweig mostra como a miséria pode deformar até o afeto. Eles não se amam pela beleza um do outro, eles se "amam" porque são as únicas duas pessoas que entendem o tamanho do buraco onde foram jogados.
O que mais me quebrou foi o luto. O Zweig escreve de um jeito que você sente a dignidade da Christine morrendo aos poucos. Eu chorei porque a gente se identifica: quem nunca sentiu que a vida é injusta? Quem nunca quis fugir de uma realidade cinza?
Eu fechei o livro e fiquei um tempo olhando para o nada, com o rosto inchado, pensando em como o mundo pode ser pequeno para quem tem sonhos grandes demais. É um livro que não te deixa sair ilesa; ele te atropela e te deixa ali, chorando por uma personagem que, no fundo, representa um pouquinho de todas as nossas frustrações.
O livro termina exatamente quando eles estão prestes a executar o plano, partindo para o tudo ou nada. E por que isso dói tanto?
O Zweig não conta se eles conseguiram, se foram presos ou se fugiram.
Vale lembrar que o Stefan Zweig deixou esse livro inacabado (foi publicado depois que ele morreu), o que dá um tom ainda mais melancólico. Parece que nem o autor sabia se existia saída para tanta tristeza.
Eu terminei a leitura sentindo que, independentemente do que aconteceu depois da última página, a Christine "morreu" de qualquer jeito. Se ela roubou e fugiu, ela nunca mais será a moça inocente; se ela foi presa, a vida acabou ali.