A Confissão da Leoa -

    Mia Couto

    Caminho
    2012
    272 páginas
    9h 4m
    ISBN-13: 9789722125673
    Português Brasileiro

    [...] Os nossos jovens colegas trabalhavam no mato, dormindo em tendas de campanha e circulando a pé entre as aldeias. Eles constituíam um alvo fácil para os felinos. Era urgente enviar caçadores que os protegessem. Os caçadores passaram por dois meses de frustração e terror, acudindo a diários pedidos de socorro até conseguirem matar os leões assassinos. Mas não foram apenas essas dificuldades que enfrentaram. De forma permanente lhes era sugerido que os verdadeiros culpados eram habitantes do mundo invisível, onde a espingarda e a bala perdem toda a eficácia. Aos poucos, os caçadores entenderam que os mistérios que enfrentavam eram apenas os sintomas de conflitos sociais que superavam largamente a sua capacidade de resposta. Vivi esta situação muito de perto. Frequentes visitas que fiz ao local onde decorria este drama sugeriram-me a história que aqui relato, inspirada em factos e personagens reais.

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    Edmar Lima23/04/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A confissão da leoa

    A história se passa em uma aldeia de Moçambique atacada severamente por leões. Apenas mulheres são vítimas. A narrativa fica divida entre dois personagens: Mariamar, uma habitante da aldeia, que desde pequena é cercada por mistérios e é irmã da vítima mais recente; e Arcanjo Baleiro, um experiente caçador que veio da capital para por fim a ameaça fatal. Alternadamente, sempre em primeira pessoa, os dois personagens contam sobre o conservador sistema patriarcal da aldeia e como as lendas envolvendo a região são extremamente sagradas para os moradores. Aos poucos percebemos que os leões não representam o maior perigo daquela comunidade, e sim, os costumes tradicionais e machistas que minam as oportunidades das mulheres e cercam suas vidas. Nunca havia lido uma obra de Couto, mas "A confissão da leoa" foi recomendado por uma conhecida que o adora e resolvi dar uma chance. Sendo honesto, nem vi as páginas passarem e a história o envolve de tal maneira que você quer que ela não termine. Impossível não se apegar à figura de Mariamar. Uma mulher forte e decidida, que desde pequena sabia que era diferente e que seu destino era para além da aldeia em que morava. A escrita de Mia Couto me lembrou a de Conceição Evaristo em seu livro "Ponciá Vicêncio". As duas obras abordam a relação próxima de mãe e filha e o lugar da mulher na sociedade. Mariamar e Ponciá se assemelham pela infância mística: a primeira perdeu os movimentos da perna, mas depois os recuperou e a segunda chorou dentro da barriga da mãe. Ambas conviveram com homens que não as respeitaram e as consideraram loucas por não serem submissas. E por fim, as duas não perderam sua essência, apesar de tudo. Enfim, esse é um livro muito significativo para mim e com certeza um dos meus preferidos. Que venham outros de Mia Couto! A literatura moçambicana resiste!

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