Cranford nos transporta para a vida interiorana em uma cidadezinha fictícia da Inglaterra do Século XIX dominada pelas mulheres: solteironas ou viúvas que se esforçam para viver com dignidade, apesar dos parcos recursos financeiros. As aventuras e desventuras de personagens marcantes como a doce Miss Matty e a autoritária Mrs. Jekins são narradas de uma maneira dinâmica, ligeiramente cômica e muito envolvente: personagens como o Capitão Brown, um viúvo com duas filhas moças, que se mudam para o vilarejo gerando muita curiosidade e falatório. Lady Glenmire, o médico, Mr. Hoggins, e Mrs. Jamieson darão ao leitor uma boa dose de reflexão. Será que se pode amar mais de uma vez? E Mr. Holbrook, o que o destino reserva para ele? Cranford, portanto, é uma pequena sociedade cujo amor, o riso e a dor permeiam o dia a dia das pessoas. Amores antigos que batem à porta, mas o destino é quem dita seus finais. Em meio a tudo isso, o retorno do irmão desaparecido de Miss matty, Mr. Peter, simbolizando o ideal da própria autora, cujo único irmão foi para a índia e nunca mais voltou. . .
Cranford -
Elizabeth Gaskell
Peguei esse livro emprestado com a Lu Campelo (por sinal, obrigada, Lu!) com, sei lá porque cargas d’água, a firme convicção de que o leria em inglês. Já até tinha visto que a Raquel de Queiroz traduzira muitos anos atrás a Gaskell, mas essa lembrança não me veio à mente nem de longe a princípio. Foi assim que quase caí da cadeira ao abrir a capa e descobrir que estava em português. E um português delicioso, cheio de palavras de expressões de ‘antanho’, conferindo ao texto muita personalidade. Claro que isso não adiantaria de nada se o texto da Gaskell, em si, não fosse também tão gostoso. E ele é, embora a princípio eu tenha estranhado um pouco... Meu problema foi que meus primeiros contatos com a obra dessa autora se deram através das adaptações para a TV feitas pela BBC, séries essas que receberam um tratamento análogo às inspiradas em Austen, de tal forma que fiquei com a impressão de que Elizabeth Gaskell fazia o mesmo estilo que Jane Austen. Eu estava, claro, completamente errada, e foi por isso que no início do livro fiquei sem saber se estava ou não gostando – tendo esperado o estilo mais seco, menos descritivo e bem mais sutil de Austen, a riqueza de detalhes e o tom por vezes terno por vezes rasgadamente cômico da Gaskell me confundiram. Aí respirei fundo, esvaziei a cabeça do que eu acreditara antes saber e recomecei a ler. Não sei ainda se a autora mantém o mesmo estilo em todos os seus livros (Norte e Sul me olha ali da estante e ele será o próximo a ser devorado), mas ao menos em Cranford, fiquei perdidamente apaixonada pela rica tapeçaria de personagens que ela borda num romance quase que absolutamente sem nenhum romance. Cranford é um pequeno vilarejo completamente dominado por mulheres – e são essas mulheres e suas vidas prosaicas e tranqüilas que são o centro da história. Não existem heróis nem mocinhas, mas senhoras simples, divertidas em suas visões por vezes ultrapassadas da sociedade e que nos cativam intensamente com seus pequenos problemas, suas pequenas manias, seus pequenos gestos de bondade. É, enfim, um romance de miudezas, auto-centrado e auto-suficiente, quase anedótico em muitas partes – como o episódio da renda que o gato comeu ( e as peripécias para faze-lo ‘descomer’ de tal forma que a renda pudesse ser posteriormente usada e ‘você nem diz que ela já passou pelo estômago de um gato!’) ou da vaca usando pijamas – e em outras melancolicamente delicado – como o triste caso de amor do Mr. Holbrook e Miss Matty ou a história do ‘pobre Peter’. O livro é composto de capítulos curtos, que em geral parecem episódios soltos dessas senhoras de Cranford, podendo ser lidos até fora de ordem, como contos independentes. Todo narrado em primeira pessoa (e é apenas uma vez, já quase no final do livro, que descobrimos o nome dessa narradora), ele cria um senso de intimidade, de cumplicidade com o leitor que é também, por si, bastante interessante. A série que citei no início mistura ao texto original desse livro outros contos da autora que continuam a visitar o querido vilarejo – e creio que essa amálgama tenha feito a série ganhar bastante em termos de ritmo e drama. Judi Dench está absolutamente sensacional como Miss Matty e – nunca pensei que diria isso dela, uma vez que estou acostumada em vê-la em papéis bem fortes – te dá uma vontade enorme de abraçá-la e pedir para sentar no colo. (resenha originalmente publicada em www.owlsroof.blogspot.com)
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