A complexidade da existência humana é cheia de percalços em uma infinidade de possibilidades. O universo de probabilidades nos é imposta a cada segundo, e somos obrigados a decidir em qual realidade queremos viver a partir de determinada escolha. Ainda que possamos, de certa forma, interferir no nosso destino, ao nascermos, já estamos pré-determinados à escolhas que foram construídas ao longo da história.
Do nascer à maturidade, apenas existimos. Somente após um estalar de dedos, num evento qualquer, em um dia qualquer, conseguimos visualizar as cortas que nos controlam, e passamos de fato a viver, conscientes de nossa existência. E foi em um destes eventos, que o herói-sem-nome de Homem invisível, livro de Ralph Ellison, publicado em 1952, se dá conta de sua invisibilidade social.
Até então, todos os eventos de sua vida haviam lhe encaminhado ao Harlem, bairro de Nova York, e há imersão em uma Irmandade de luta pelos direitos civis entre brancos e negros. Eximiu orador, e vindo das camadas mais baixas da sociedade, seus discursos tocavam os anseios da Irmandade de mobilidade das massas da periferia.
Sua nova função social, e seu aparente reconhecimento, lhe deram um auto-verniz de importância. No entanto, por trás das cortinas, e à espreita, os verdadeiros motivos da organização ainda lhe pareciam obscuros. E, quanto mais ele descobria, mais se chocava contra eles.
O estopim da sua revolta se deu após seu afastamento do Harlem para o centro da cidade, aparentemente sem motivos, e, após um período, ter que voltar às pressas em meio a um turbilhão que acontecimentos, que o levaram a auto-avalição existencial ele agora sabia era invisível, assim tantos outros.
Livro pertencente ao cânone afro-americano, escrito a 70 anos atrás, permanece atual. Tanto é que Homem invisível é, para muitos, o livro de formação intelectual de Barack Obama. Será que ele se percebeu invisível, será que sou invisível? Eis a questão.