Uma maneira de ver a vida é acreditar que ela é feita de fragmentos, assim como a nossa memória. As lembranças são momentos inexatos de algo que vivemos e o ato de recordar é, de certa forma, tentar preencher as lacunas com um pouco de ficção, já que nada do que vivemos é exato no tempo presente. E é partindo um pouco dessa premissa que "O inventário das coisas ausentes" existe, numa tentativa de mostrar a nebulosa barreira que separa a ficção da memória.
O romance de Carola Saavedra é dividido em duas partes. A primeira, intitulada Caderno de anotações, apresenta aos leitores as duas personagens principais: o narrador e Nina. O texto, todo fragmentado, vai contar o envolvimento de Nina com o narrador, o passado familiar dela, histórias paralelas como se fossem pequenas anedotas ou microcontos e o repentino desaparecimento de Nina, que deixa ao desiludido rapaz apenas dezessete diários como um rastro de sua presença na vida dele, que voltará a ser real em um reencontro futuro e desgostoso.
Os leitores mais atentos devem fazer a correta associação entre o número de cadernos pessoais deixados por Nina com a duração da ditadura chilena, que não é um ato inconsciente, por mais que se diga o contrário, pois Carola Saavedra nasceu no Chile em 1973, ano em que Augusto Pinochet toma o poder no vizinho sul-americano. E isso faz diferença, pois todos os pormenores do romance têm algo a dizer. O próprio título da primeira parte é bem sugestivo quanto à metalinguagem proposta pelo livro, visto que nosso narrador também está escrevendo um romance.
A segunda parte, intitulada Ficção, é um exercício intelectual interessante. É como se acompanhássemos o produto final dos rascunhos do narrador-personagem, que mistura sua experiência de vida com as memórias de Nina. O livro percorre por temas como identidade, intimidade, as ausências do título - principalmente masculinas -, solidão, violência, política e literatura.
Com uma sintaxe baseada em repetições, escolha que pode incomodar alguns leitores, Carola questiona como um inventário - ou um diário - sobre o outro pode falar muito mais de nós do que daquele que se pretende descobrir ou conhecer. Afinal, talvez sejam as memórias perdidas que cada um de nós carrega que permitem à ficção essa criação de intimidade na leitura, pois é uma necessidade humana inerente, essa de conhecer o outro e tentar entender a si mesmo.