Huxley, Huxley, Huxley.
Seu nome tornou-se sinônimo de uma literatura exigente, inteligente e inquieta. Seus livros nem sempre são fáceis, mas raramente passam incólumes pelo leitor. Sempre deixam alguma marca.
“Sem olhos em Gaza” é um romance desconfortável por diversas razões. Publicado em meados da década de 1930, em plena ascensão dos regimes totalitários, acompanha personagens da aristocracia inglesa mergulhados em vazio moral, cinismo e decadência. De certo modo, também retrata uma geração perdida — como em O Grande Gatsby — que busca divertir-se freneticamente para escapar do desespero e da falta de sentido.
Demorei a me envolver com a narrativa, em parte porque a história não é contada em ordem cronológica. No entanto, essa aparente dificuldade revela-se uma de suas maiores qualidades. Em um capítulo encontramos Anthony maduro, cínico e arrogante; no seguinte, vemos o jovem idealista que ele foi. Entre um momento e outro, abre-se a pergunta central do romance: o que aconteceu? Acompanhamos sua caminhada em direção ao desastre com a impotente vontade de adverti-lo.
Huxley constrói seus personagens com precisão quase impiedosa. O declínio dessas vidas — e de toda uma época às vésperas da guerra — torna-se ponto de partida para reflexões sobre liberdade, bondade, espiritualidade e pacifismo. Mais do que narrar uma ruína pessoal, o romance interroga os limites morais de uma civilização.
É um livro para ser lido e relido. Na primeira leitura, seguimos os acontecimentos; na segunda, compreendemos melhor suas causas e consequências. Poucos romances expõem com tanta lucidez a falência de uma época e a difícil busca de redenção individual.