Sem Olhos em Gaza : Romance (Colecção Dois Mundos #29) - Eyeless in Gaza

    Aldous Huxley

    [Lisboa] Ed. Livros do Brasil
    1983
    365 páginas
    12h 10m
    ISBN-10: 8525056324
    Português

    Essa obra apresenta o desenvolvimento emocional e intelectual de Anthony Beavis, cujos privilégios, os quais ele mesmo reconhece, permitiram-lhe que dedicasse a vida ao pensamento e aos prazeres mundanos. Mas esse egoísmo hedonista de que gozava transforma-se em pacifismo e empatia depois do contato com Miller, médico e antropólogo que Anthony conheceu no México, da mesma forma como foram impactantes em sua transformação as tragédias e os remorsos com que teve de lidar durante a vida. Construído de maneira não cronológica, o romance intercala cenas de diversas fases da vida de Beavis a trechos de seu diário, em que ficam registradas as mudanças de suas concepções filosóficas e políticas. A forma fragmentada, descontínua, escolhida pelo autor deixa ainda mais claro o peso que o passado tem sobre o presente. Essa estrutura também evidencia as discrepâncias entre o idealizado e o vivido, entre o escrito e o experimentado. (http://www.livrariacultura.com.br/p/sem-olhos-em-gaza-42231823)

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    Karin de Guise picture
    Karin de Guise18/04/2026Resenhou um livro
    4.5 (Muito bom)

    Lucidez em tempos de ruína

    Huxley, Huxley, Huxley. Seu nome tornou-se sinônimo de uma literatura exigente, inteligente e inquieta. Seus livros nem sempre são fáceis, mas raramente passam incólumes pelo leitor. Sempre deixam alguma marca. “Sem olhos em Gaza” é um romance desconfortável por diversas razões. Publicado em meados da década de 1930, em plena ascensão dos regimes totalitários, acompanha personagens da aristocracia inglesa mergulhados em vazio moral, cinismo e decadência. De certo modo, também retrata uma geração perdida — como em O Grande Gatsby — que busca divertir-se freneticamente para escapar do desespero e da falta de sentido. Demorei a me envolver com a narrativa, em parte porque a história não é contada em ordem cronológica. No entanto, essa aparente dificuldade revela-se uma de suas maiores qualidades. Em um capítulo encontramos Anthony maduro, cínico e arrogante; no seguinte, vemos o jovem idealista que ele foi. Entre um momento e outro, abre-se a pergunta central do romance: o que aconteceu? Acompanhamos sua caminhada em direção ao desastre com a impotente vontade de adverti-lo. Huxley constrói seus personagens com precisão quase impiedosa. O declínio dessas vidas — e de toda uma época às vésperas da guerra — torna-se ponto de partida para reflexões sobre liberdade, bondade, espiritualidade e pacifismo. Mais do que narrar uma ruína pessoal, o romance interroga os limites morais de uma civilização. É um livro para ser lido e relido. Na primeira leitura, seguimos os acontecimentos; na segunda, compreendemos melhor suas causas e consequências. Poucos romances expõem com tanta lucidez a falência de uma época e a difícil busca de redenção individual.

    11 curtidas

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