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    Divã -

    Martha Medeiros

    Alfaguara
    2014
    216 páginas
    7h 12m
    ISBN-13: 9788579622229
    Português Brasileiro
    3.9
    2444 avaliações
    Leram4712Lendo77Querem1420Relendo9Abandonos74Resenhas138
    Favoritos18Desejados1420Avaliaram2444

    “Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos. Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados. O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia.” Mercedes é uma mulher com mais de 40 anos, casada, mãe de três filhos, professora e artista plástica nas horas vagas, que recorre à ajuda de um psicanalista num momento crucial de sua vida: apesar de ter cumprido muito bem o papel que a sociedade esperava que desempenhasse, ela sente um vazio inexplicável. Deitada em um divã, vai em busca de emoções e desejos até então adormecidos. Relembra passagens importantes de sua história, como a perda precoce da mãe, as paixões que não deram certo, a opção pela carreira e o nascimento dos filhos. Com boas doses de autocrítica e uma enorme vontade de viver, Mercedes questiona as escolhas que fez e tenta planejar um futuro livre das convenções que sempre a sufocaram. No entanto, seu grande desafio é aprender a lidar com a liberdade. Em Divã, Martha Medeiros cria, com extrema delicadeza e humor, uma mulher de vários matizes, que precisa se confrontar com todas as suas versões para aproveitar a liberdade que só a maturidade proporciona.

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    mpettrus15/02/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A Longa Travessia de Mercedes ao Autoconhecimento

    “É cedo demais para se despedir. A morte de Mônica está pesando sobre mim uma vida inteira. De repente ela deixa de existir e uma série de verdades desaparecem junto, dando lugar ao imponderável…” ​“Divã” conta a história de Mercedes, que narra em primeira pessoa à história de sua vida. Uma mulher de 40 anos, casada há 20 anos, mãe de três filhos que trabalha como professora de matemática e representa um modelo tradicional de família perfeita para a sociedade, e apesar disto, busca ajuda com um psicanalista, doutor Lopes. ​E é na terapia, deitada em um divã que ela vai contar sua história e através dos reflexos de seus discursos apresentando as várias mulheres que existem dentro de si, expondo seus anseios, e revelando assim a alma feminina. Digo-lhes que a primeira observação a ser feita é: o drº Lopes somos nós. ​ Que sacada genial da Medeiros em usar esse artifício narrativo, pois que, ao mesmo tempo em que Mercedes se questiona sobre as coisas que permeiam a sua existência, ela também nos provoca a fazer o mesmo sobre a nossa própria vida. Eu parei a leitura diversas vezes para indagar questões minhas porque em vários momentos me reconheci nas crises existenciais da protagonista. ​ Em meio ao seu processo de terapia, Mercedes se questiona a respeito de diversos pontos de sua vida. No decorrer do enredo, percebemos que a personagem está em um processo de autoconhecimento e torna a terapia um meio de transporte para esse fim. A terapia torna-se um mecanismo de autoconhecimento na medida em que Mercedes se vê refletindo e evoluindo por meio da análise de várias partes de sua vida. A construção de si nos é transmitida através de uma narrativa cômica, leve e sensível. ​ Há dois aspectos muito presentes durante a narrativa: um satírico e um viés sensível. A sátira aparece como um vitupério de si mesma, na medida em que se flagra em situações ridículas para gozar a vida. Ao lado da sátira aparecem momentos de intensa reflexão e reconhecimento de grandes questões da vida como: morte, velhice, amor, perda, permeadas de humor e propriedades reflexivas, revelando uma escrita descontraída e emotiva. ​ A busca tardia de Mercedes para alcançar o autoconhecimento, viver momentos que ela deixou de viver na juventude, sentir sem medidas, aprender coisas novas, sair da zona de conforto, correr riscos e adquirir liberdade para ser quem ela quiser ser, são fatores que perpassam a história contribuindo para a sua longa travessia ao autoconhecimento de si mesma. Essa travessia, esse atravessamento que ela faz não é destituída de dor ou surpresas desagradáveis, mas cheia de altos e baixos, o que para nós leitores, nos rende sessões de terapia interessantíssimas. ​ Quando Mercedes passou a optar por uma vida interessante e não pela felicidade, o questionamento que se faz é que as pessoas não escolhem quase nada na vida, porque estão muito limitadas por uma série de circunstâncias. É claro que todos querem ter vidas interessantes, se isso nos trará felicidade não sabemos. Mas eu lhes pergunto, amigos Skoobianos: o que é afinal escolher a felicidade? ​ Por fim, quero destacar outra personagem: Mônica. Que personagem memorável e bem construído. Ela tornou-se minha favorita. Para mim, a autora criou essa personagem para ser o grande contraponto em relação à Mercedes. Mônica é amiga e confidente da protagonista, vivendo a vida do jeito que sempre idealizou: casada, apaixonada e dedicada ao marido, cuidando da casa se dedicando exclusivamente à família. ​ Mônica, ao contrário de Mercedes, depende financeiramente do marido, trazendo-nos um perfil construído de uma mulher realizada e sonhadora, representando a mulher de décadas passadas. A personagem se auto define como uma mulher à moda antiga, o que nos permite afirmar que a autora que discutir na sua narrativa os processos de transformação do papel da mulher ao longo das décadas do século XX. ​A figura de Mercedes por sua vez é o contraste: é casada, tem três filhos, cuida da casa, do marido, mas também trabalha como professora de matemática e ama pintar nas horas vagas, odeia chás ou reuniões de mulheres, e tem plena consciência de que a vida não é só sonhar, e por isso vive com os pés no chão. E por ser tão racional, abre mão do casamento e vai viver novos relacionamentos com outros homens, vivendo outras histórias procurando se encontrar, defende a ideia de que não se pode ser tão dependente do marido e representando assim as tantas mulheres modernas dos dias atuais. ​“Divã” é um livro que, a meu ver, está envelhecendo bem com o passar dos anos com relação às pautas aqui discutidas. Mas, sobretudo, principalmente, pelo carisma de Mercedes e de sua eterna melhor amiga, Mônica. E, também, de Martha Medeiros.

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