Mulher à beira de um ataque de nervos “Quero dar férias para aquela Mercedes cerebral, que nunca deixou de calcular os riscos de tudo o que faz.” Que atitude tomar quando se chega àquela altura da vida em que tudo vai (ou parece ir) bem – trabalho, família, amigos – e, no entanto, um mal-estar toma conta da gente e evolui para uma crise existencial? Mercedes, quarenta e poucos anos, professora de matemática, pintora por hobby, bem casada com Gustavo e mãe de três meninos se vê nessa encruzilhada, e deita-se no divã. Ou melhor: joga-se. Quem é ela? O que ela quer? Qual o valor da vida que construiu até aqui? Divã, romance de estreia de Martha Medeiros, publicado originalmente em 2002, com todo bom humor característico da autora, lança luz sobre essa espécie que não se deixa compreender facilmente: a mulher madura, bem-sucedida, inquieta e sedenta por mais. Prepare-se para uma leitura ao mesmo tempo trágica, cômica, perturbadora e enternecedora. Pois “nada é simples quando a gente sai à caça da própria alma”.
Divã -
Martha Medeiros
A Longa Travessia de Mercedes ao Autoconhecimento
“É cedo demais para se despedir. A morte de Mônica está pesando sobre mim uma vida inteira. De repente ela deixa de existir e uma série de verdades desaparecem junto, dando lugar ao imponderável…” “Divã” conta a história de Mercedes, que narra em primeira pessoa à história de sua vida. Uma mulher de 40 anos, casada há 20 anos, mãe de três filhos que trabalha como professora de matemática e representa um modelo tradicional de família perfeita para a sociedade, e apesar disto, busca ajuda com um psicanalista, doutor Lopes. E é na terapia, deitada em um divã que ela vai contar sua história e através dos reflexos de seus discursos apresentando as várias mulheres que existem dentro de si, expondo seus anseios, e revelando assim a alma feminina. Digo-lhes que a primeira observação a ser feita é: o drº Lopes somos nós. Que sacada genial da Medeiros em usar esse artifício narrativo, pois que, ao mesmo tempo em que Mercedes se questiona sobre as coisas que permeiam a sua existência, ela também nos provoca a fazer o mesmo sobre a nossa própria vida. Eu parei a leitura diversas vezes para indagar questões minhas porque em vários momentos me reconheci nas crises existenciais da protagonista. Em meio ao seu processo de terapia, Mercedes se questiona a respeito de diversos pontos de sua vida. No decorrer do enredo, percebemos que a personagem está em um processo de autoconhecimento e torna a terapia um meio de transporte para esse fim. A terapia torna-se um mecanismo de autoconhecimento na medida em que Mercedes se vê refletindo e evoluindo por meio da análise de várias partes de sua vida. A construção de si nos é transmitida através de uma narrativa cômica, leve e sensível. Há dois aspectos muito presentes durante a narrativa: um satírico e um viés sensível. A sátira aparece como um vitupério de si mesma, na medida em que se flagra em situações ridículas para gozar a vida. Ao lado da sátira aparecem momentos de intensa reflexão e reconhecimento de grandes questões da vida como: morte, velhice, amor, perda, permeadas de humor e propriedades reflexivas, revelando uma escrita descontraída e emotiva. A busca tardia de Mercedes para alcançar o autoconhecimento, viver momentos que ela deixou de viver na juventude, sentir sem medidas, aprender coisas novas, sair da zona de conforto, correr riscos e adquirir liberdade para ser quem ela quiser ser, são fatores que perpassam a história contribuindo para a sua longa travessia ao autoconhecimento de si mesma. Essa travessia, esse atravessamento que ela faz não é destituída de dor ou surpresas desagradáveis, mas cheia de altos e baixos, o que para nós leitores, nos rende sessões de terapia interessantíssimas. Quando Mercedes passou a optar por uma vida interessante e não pela felicidade, o questionamento que se faz é que as pessoas não escolhem quase nada na vida, porque estão muito limitadas por uma série de circunstâncias. É claro que todos querem ter vidas interessantes, se isso nos trará felicidade não sabemos. Mas eu lhes pergunto, amigos Skoobianos: o que é afinal escolher a felicidade? Por fim, quero destacar outra personagem: Mônica. Que personagem memorável e bem construído. Ela tornou-se minha favorita. Para mim, a autora criou essa personagem para ser o grande contraponto em relação à Mercedes. Mônica é amiga e confidente da protagonista, vivendo a vida do jeito que sempre idealizou: casada, apaixonada e dedicada ao marido, cuidando da casa se dedicando exclusivamente à família. Mônica, ao contrário de Mercedes, depende financeiramente do marido, trazendo-nos um perfil construído de uma mulher realizada e sonhadora, representando a mulher de décadas passadas. A personagem se auto define como uma mulher à moda antiga, o que nos permite afirmar que a autora que discutir na sua narrativa os processos de transformação do papel da mulher ao longo das décadas do século XX. A figura de Mercedes por sua vez é o contraste: é casada, tem três filhos, cuida da casa, do marido, mas também trabalha como professora de matemática e ama pintar nas horas vagas, odeia chás ou reuniões de mulheres, e tem plena consciência de que a vida não é só sonhar, e por isso vive com os pés no chão. E por ser tão racional, abre mão do casamento e vai viver novos relacionamentos com outros homens, vivendo outras histórias procurando se encontrar, defende a ideia de que não se pode ser tão dependente do marido e representando assim as tantas mulheres modernas dos dias atuais. “Divã” é um livro que, a meu ver, está envelhecendo bem com o passar dos anos com relação às pautas aqui discutidas. Mas, sobretudo, principalmente, pelo carisma de Mercedes e de sua eterna melhor amiga, Mônica. E, também, de Martha Medeiros.
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