O Coração das Trevas -

    Joseph Conrad

    Colecção Mil Folhas
    2009
    203 páginas
    6h 46m
    ISBN-10: 8481305200
    Português Brasileiro

    São tantas as referências que gravitam em torno da novela "O Coração das Trevas" (1899), de Joseph Conrad (n. 1857-m. 1924), que esta página seria manifestamente insuficiente para enumerar todas elas. Algumas, porém, apresentam-se como incontornáveis (podendo ainda servir como convite à leitura da obra). Registe-se, então, que "O Coração das Trevas" inspirou a escrita do argumento de "Apocalipse Now", de Francis Ford Coppola, e que Orson Welles tentou uma adaptação cinematográfica, chegando mesmo a escrever o guião. Infelizmente (sobretudo para nós), nenhum estúdio se mostrou interessado em financiar o projecto. Apontem-se, ainda, mais algumas referências, desta vez literárias: sobre esta novela, de apenas 131 páginas, escreveram André Gide (que foi tradutor de Conrad para a Gallimard), Graham Greene, Jorge Luís Borges, Virginia Woolf e Joyce Carol Oates, entre outros literatos. Há tempos atrás, em entrevista ao "Mil Folhas", Agustina Bessa Luís elegeu "O Coração das Trevas" como o livro da sua vida. "O Coração das "Trevas" é narrado pela personagem preferida do escritor - Charlie Marlow, um marinheiro que "correu todos os mares", bem conhecido dos leitores de Conrad - e ilustra, de forma transparente, as virtudes das narrativas conradianas, nomeadamente a elegância formal e a construção robusta das personagens. Sob as águas do Tamisa, a bordo da chalupa "Nellie", Marlow revisita o passado, contando a um grupo de marinheiros a aventura da subida do rio Congo, em África. A narração da viagem é a história de muitas descobertas - o confronto com a repressão colonialista num território desconhecido e hostil (a selva), e sobretudo o encontro com Kurtz, chefe de um importante posto comercial nas margens do rio. Os rumores em torno deste enigmático homem, que "manda mais marfim do que os outros todos juntos" e que consta ter-se transformado num "selvagem", começam a intrigar Marlow, que, rendido a uma curiosidade indizível, transforma a sua subida do Congo numa espécie de perseguição a Kurtz. A viagem ao "coração das trevas" é a procura deste homem, que o narrador descobre já moribundo, protegido por um grupo de "discípulos" armados. Neste encontro de Marlow e Kurtz, Joseph Conrad foi muito generoso com os leitores, mas é preciso ler "O Coração das Trevas" para compreender esta dádiva. Resta apenas acrescentar que nesta obra, tal como por exemplo em "Linha de Sombra", Conrad defende a resistência dos homens. Contra o desespero, o caos, a decadência.

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    Régis Maz25/07/2023Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A criminosa empreitada "civilizatória" na África

    O autor Joseph Conrad era de origem polonesa, após tentar suicídio em Marcelha, na França com um tiro no peito, foi convencido por seu tio a mudar de ares e trabalhar na marinha mercante britânica. Após isso, foi contratado por uma companhia belga como capitão do barco a vapor Roi des Belges; onde presenciou atrocidades extremas e criou uma profunda aversão aos mercadores europeus e ao degradante regime de trabalho imposto aos africanos. Apesar de acreditar (assim como a grande maioria dos europeus em sua época) que era obrigação do homem branco levar a civilização e a religião para os povos nativos do continente africano, Conrad não concordava com os métodos de colonização empregados pelos belgas no Congo, todo o horror que presenciou por esse curto período de 1890 o fez escrever em 1899, Coração das Trevas: que narra “a criminosa ineficiência e o puro egoísmo da empreitada civilizatória na África”, conseguindo com sua obra explorar a profundezas do horror e do desespero humano com uma clareza aterrorizante. Marlow, o personagem principal e também um dos narradores do livro, acredita, assim como o autor, que a missão civilizatória na "África selvagem" é o "fardo" do homem branco. Entretanto, o impacto da visão do que a missão dos agentes do rei Leopoldo II se transformou o deixou estarrecido e aterrorizado... enquanto seguia para o barco que comandaria; viu pelo caminho como os nativos eram acorrentados e obrigados a trabalhar na estrada de ferro, carregar nas costas cargas imensas de marfim do centro do Congo Belga por milhares de quilômetros até o litoral, alguns trabalhavam até a exaustão e jaziam encostados em árvores, haviam corpos de nativos mortos a tiros largados na estrada se decompondo... e a compreensão do que Marlow presenciava, mostrava a brutalidade arbitrária do tratamento dado aos nativos da África Equatorial escravizados para a extração do marfim. E enquanto subia o rio indo cada vez mais fundo no coração das trevas para resgatar kurtz, Marlow não tinha a menor noção de que estava dirigindo-se ao encontro do maior horror de todos. O autor traz uma narrativa simbólica, com uma história dentro da outra, sintetizando todo o mal, devastação e morte em um único personagem: o agente Kurtz... e com isso consegue demonstrar o retorno ao primitivismo, a crueldade e a ganância que o ser humano pode atingir, a ponto de dizimar significativamente uma população em nome da cobiça desmedida de um colonizador inescrupuloso que supostamente promovia expedições humanitárias e científicas para "civilizar os selvagens". A partir do momento que Marlow encontra o "Arlequim", o jovem russo com suas vestes completamente preenchidas por remendos perfeitos e coloridos, a narrativa segue descortinando a história hedionda da passagem de Kurtz por aquele território. E então conseguimos visualizar todo "O horror! O horror!" em suas mais variadas facetas. Coração das Trevas é um livro que revela parte do impacto que o autor sentiu em sua estadia na África e também é um retrato dos desmandos do imperialismo europeu que usava de métodos bárbaros enquanto afirmava estar levando a "civilização" para o continente africano. Esse é um clássico que foi e continua sendo muito discutido, possui uma leitura que demanda um pouco de esforço para uma completa compreensão; principalmente para quem não tem nenhum conhecimento dos acontecimentos vivenciados pelo autor e de tudo que se passava no continente africano quando Joseph Conrad decidiu escrever o livro. Existem dois filmes que são adaptações da história do livro de Conrad: A Maldição da Selva de 1993, do diretor Nicolas Roeg e Apocalipse Now de 1979 do diretor Francis Ford Coppola. Eu assisti aos dois e são maravilhosos. Esse é um livro marcante que recomendo para todos que apreciam os grandes clássicos.

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