A obra é interessante, com a história popular na linguagem do cordel. Vemos informações de cunho histórico e baseadas em relatos de moradores, fruto da pesquisa do autor (Francisco Rodrigues Pinto).
O Cabralzinho figura como um herói celebrado em versos até engraçados. Imagina o cidadão chamando o capitão Lunier de "cara de coatá" (e designações da estirpe); escapando com bravura de uma saraivada de balas por mais de uma vez, e evocando uma justiça em Deus como é comum no cordel e no heroísmo popular. Isso e outras coisas são mostradas. O Trajano, por exemplo, ao ser recolhido pelos franceses está todo defecado de medo, e os soldados aparecem apavorados diante da bravura dos amapaenses. Evidentemente, são exageros e gracejos pertinentes à Literatura de Cordel, cheia de liberdades poéticas, ousadas e sagazes.
Mas não pense que o cordel é só sarcasmo. Observamos fatos relatados na história usual e a parte da chacina é apresentada até com os supostos nomes das vítimas, em uma visão aterradora de como aconteceu.
O autor é um apaixonado pela terra e a exalta também em sua beleza natural e locais históricos.
As pretensões franco-brasileiras aparecem pontualmente, como a República Cunani (estabelecida em Calçoene para atender os interesses franceses) e o Triunvirato (onde Cabralzinho era um dos líderes e autoridade favorável à soberania brasileira). Datas e motivações históricas aparecem com alguma precisão.
Gostei da obra, que tem visão popular sem deixar de lado a valorização histórica e da terra.
Vale uma conferida.
A parte que Cabralzinho correu para o mato, deixando a população sujeita aos invasores, sempre questiona seu heroísmo (pois sobreviveu, também, a custo da morte e empenho de muitos).