É o Sofrimento a Marca do Gênio?
Nesse primeiro volume de Jean-Christophe, romance sobre um músico de gênio, acompanhamos sua vida desde o nascimento até a adolescência. Neste tempo, vemos toda a miséria - física, material, emocional, intelectual - a cercar Jean-Christophe, e todas as dores dessa alma apaixonada pela música desde a infância. As humilhações, as injustiças, desilusões, perdas... todo o sofrimento enfim. E aí me parece estar o problema: Rolland parece advogar que o sofrimento de seu herói é que o enobrece; que sua grandeza se deve a ao acúmulo de dores enfrentadas por ele desde criança. Há as menções à sua música, mas são poucas - pelo menos neste volume - comparadas à ênfase ao sofrimento. Além disso, a escrita de Rolland por vezes - especialmente à medida que o enredo caminha - vai ficando um tanto fácil, leve e até descuidada; enquanto continuei admirando e mesmo me afeiçoando ao protagonista, não pude deixar de pensar que, nas mãos de outro escritor, um Dostoievski quem sabe, Christophe não seria melhor aproveitado e valorizado; sua simpatia visível por vezes se apequena nas repetições e grandiloquências de seu criador, o que prejudica o desenvolver da narrativa - frouxa, com um herói que, mais cativante nos começos, ameaça ir se tornando como todos os outros "gênios" de livrinhos menores.






