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    Ter e não ter -

    Ernest Hemingway

    Bertrand Brasil
    2014
    280 páginas
    9h 20m
    ISBN-13: 9788528618709
    Português Brasileiro
    3.7
    340 avaliações
    Leram523Lendo20Querem481Relendo1Abandonos7Resenhas36
    Favoritos13Desejados481Avaliaram340

    O capitão Harry Morgan — um dos muitos alter egos do autor — não é um homem que se deixa envolver por questões ideológicas. Sempre às voltas com problemas financeiros, ele vive da própria competência profissional, da audácia, da ânsia de liberdade. Um solitário, um durão, um realista que enfrentava bons e maus momentos com a mesma tranquilidade, mas também com a certeza de que um homem solitário está sempre fadado a ter um fim trágico. Um homem severo, decidido a enfrentar qualquer perigo para cuidar da família, só confia em si mesmo e percebe, no momento decisivo, que o poder individual é sempre relativo. Em seu único romance ambientado em cenário americano e uma das poucas obras a indicar alguma preocupação com assuntos políticos, o mestre do diálogo e do realismo contundente, Ernest Hemingway nos envolve numa história vigorosa e dramática que jamais sairá de nossa memória.

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    Flávia picture
    Flávia12/06/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Quando o sonho americano se revela um pesadelo coletivo, resta apenas sobreviver — e tentar, apesar de tudo, continuar humano.

    Li Ter e Não Ter depois de descobrir, numa biografia do Faulkner, que ele havia participado da adaptação cinematográfica do livro. A curiosidade pela colaboração entre esses dois gigantes da literatura me levou à obra, mas o que encontrei foi muito mais do que eu esperava: um romance denso, moralmente inquietante e surpreendentemente sensível. Publicado em 1937, em meio à crise econômica e às tensões políticas que antecederam a Segunda Guerra, o livro é ambientado entre Key West (EUA) e Havana (Cuba), territórios tão próximos geograficamente quanto contrastantes em suas violências sociais. Hemingway começa nos colocando na pele de Harry Morgan, um homem comum e endurecido pela necessidade. Ex-pescador, empurrado para o contrabando pela miséria e por um país que o ignora, Harry se repete dizendo que “não tem escolha”. E essa frase é a chave para sua trajetória — uma tentativa constante de justificar sua degradação moral, ao mesmo tempo em que ele tenta se manter fiel a alguma dignidade interna. Aos poucos, a narrativa se fragmenta e se expande: conhecemos outros personagens, de diversas camadas sociais, todos marcados pela precariedade — moral ou econômica. Há os ricos decadentes que vivem de aparências e remédios; os revolucionários cubanos que, mesmo dizendo lutar pelos trabalhadores, matam trabalhadores no processo; os pobres americanos que, descartados em tempos de paz, são chamados quando o país precisa dos “desesperados”. Há aqui uma crítica política poderosa, mas feita de modo literário, por meio das experiências e falas dos personagens, sem jamais cair no panfleto. Um dos momentos mais impressionantes do livro é quando Hemingway introduz, pela primeira vez, uma voz feminina na narrativa. Dorothy, uma mulher da alta sociedade em queda livre emocional, nos leva para dentro de seus pensamentos. É um trecho belíssimo e ousado, que toca em temas como culpa, vício, desejo, envelhecimento e a solidão da mulher que já foi desejada e agora tenta se manter “adorável” a qualquer custo. O autor consegue expressar de forma surpreendentemente honesta e íntima como é se sentir mulher em um mundo que cobra juventude, entrega e silêncio. Parece até que ele consultou uma mulher para escrever — é tão sensível e verdadeiro que impressiona. O romance culmina com uma espécie de redenção silenciosa. Depois de tanta violência, desencanto e morte, Hemingway encerra com a fala da esposa de Harry — uma mulher simples, que não foi à cerimônia do marido, mas que compreende, mais do que qualquer um, tudo sobre a essência desse homem. Seu depoimento é contido, mas carregado de amor e compreensão. Um gesto de humanidade diante de tudo que se perdeu. Ter e Não Ter começa como um romance sobre sobrevivência, mas termina como um retrato de dignidade. Ao longo do caminho, os personagens vão despindo suas defesas, suas crenças e suas ilusões. E no fim, resta a dor e a lucidez — e, surpreendentemente, também a ternura.

    116 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    3.7 / 340
    • 5 estrelas15%
    • 4 estrelas40%
    • 3 estrelas36%
    • 2 estrelas7%
    • 1 estrelas1%