Ter e Não Ter -

    Ernest Hemingway

    Livros do Brasil
    2007
    208 páginas
    6h 56m
    ISBN-13: 9789723828726
    Português

    Edições (3)

    Ver mais
    • book cover
    • book cover
    • book cover

    Similares (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (36)Ver mais
    Flávia picture
    Flávia12/06/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Quando o sonho americano se revela um pesadelo coletivo, resta apenas sobreviver — e tentar, apesar de tudo, continuar humano.

    Li Ter e Não Ter depois de descobrir, numa biografia do Faulkner, que ele havia participado da adaptação cinematográfica do livro. A curiosidade pela colaboração entre esses dois gigantes da literatura me levou à obra, mas o que encontrei foi muito mais do que eu esperava: um romance denso, moralmente inquietante e surpreendentemente sensível. Publicado em 1937, em meio à crise econômica e às tensões políticas que antecederam a Segunda Guerra, o livro é ambientado entre Key West (EUA) e Havana (Cuba), territórios tão próximos geograficamente quanto contrastantes em suas violências sociais. Hemingway começa nos colocando na pele de Harry Morgan, um homem comum e endurecido pela necessidade. Ex-pescador, empurrado para o contrabando pela miséria e por um país que o ignora, Harry se repete dizendo que “não tem escolha”. E essa frase é a chave para sua trajetória — uma tentativa constante de justificar sua degradação moral, ao mesmo tempo em que ele tenta se manter fiel a alguma dignidade interna. Aos poucos, a narrativa se fragmenta e se expande: conhecemos outros personagens, de diversas camadas sociais, todos marcados pela precariedade — moral ou econômica. Há os ricos decadentes que vivem de aparências e remédios; os revolucionários cubanos que, mesmo dizendo lutar pelos trabalhadores, matam trabalhadores no processo; os pobres americanos que, descartados em tempos de paz, são chamados quando o país precisa dos “desesperados”. Há aqui uma crítica política poderosa, mas feita de modo literário, por meio das experiências e falas dos personagens, sem jamais cair no panfleto. Um dos momentos mais impressionantes do livro é quando Hemingway introduz, pela primeira vez, uma voz feminina na narrativa. Dorothy, uma mulher da alta sociedade em queda livre emocional, nos leva para dentro de seus pensamentos. É um trecho belíssimo e ousado, que toca em temas como culpa, vício, desejo, envelhecimento e a solidão da mulher que já foi desejada e agora tenta se manter “adorável” a qualquer custo. O autor consegue expressar de forma surpreendentemente honesta e íntima como é se sentir mulher em um mundo que cobra juventude, entrega e silêncio. Parece até que ele consultou uma mulher para escrever — é tão sensível e verdadeiro que impressiona. O romance culmina com uma espécie de redenção silenciosa. Depois de tanta violência, desencanto e morte, Hemingway encerra com a fala da esposa de Harry — uma mulher simples, que não foi à cerimônia do marido, mas que compreende, mais do que qualquer um, tudo sobre a essência desse homem. Seu depoimento é contido, mas carregado de amor e compreensão. Um gesto de humanidade diante de tudo que se perdeu. Ter e Não Ter começa como um romance sobre sobrevivência, mas termina como um retrato de dignidade. Ao longo do caminho, os personagens vão despindo suas defesas, suas crenças e suas ilusões. E no fim, resta a dor e a lucidez — e, surpreendentemente, também a ternura.

    116 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    3.7 / 340
    • 5 estrelas15%
    • 4 estrelas40%
    • 3 estrelas36%
    • 2 estrelas7%
    • 1 estrelas1%