Histórias Extraordinárias - Poe -

    Edgar Allan Poe

    Editora Globo
    1987
    254 páginas
    8h 28m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    Poe, reza o clichê, inventou o gênero terror e as histórias de detetive. E Poe impressionou Baudelaire e, no Brasil, foi traduzido por ninguém menos que Machado de Assis. Mas Poe é muito mais que isso. Poe, em matéria de terror, inventou as múmias que ressuscitam (muito antes do cinema inventar-se a si próprio); os pets que são mortos e revivem (acabando com a graça de todo e qualquer Stephen King); e os loucos que tomam conta do hospício, bem como o “defunto autor” (contemporâneos ou antecessores do nosso Machado?). As histórias de detetive Poe inventou sem querer e, se fosse vivo, teria se arrependido da proliferação do gênero numa subliteratura que ele nunca praticou. Poe impressionou Baudelaire porque viveu como o mesmo – como um poeta –, com direito a doses de loucura no final e deixando sérias dúvidas sobre sua causa mortis. (A última história de terror de Poe?) Embora o entretenimento tenha se apossado de suas criações, o que nos faz pensar que ele possa ter alguma coisa a ver com isso, Poe era um literato e como tal escreveu, felizmente.

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    Fabio Shiva28/08/2010Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Já perdi a conta de quantas vezes li as histórias desse livro

    Curiosamente, só agora fui perceber a real importância dessa obra para a cultura ocidental!!! Edgar Allan Poe é um nome único na literatura mundial. Foi o inventor da história policial (inaugurada com “Os Crimes da Rua Morgue”), precursor da ficção científica e fantástica, e alçou as histórias sobrenaturais a um novo patamar, dando-lhes a estrutura básica que passaram a ter desde então. Influenciou grandes nomes como Júlio Verne, H. G. Wells, Hermann Melville, Oscar Wilde, Kafka e muitos outros. Charles Baudelaire o considerava uma “alma irmã” e foi um dos grandes responsáveis por sua divulgação. Arthur Conan Doyle imitou-o desbragadamente ao elaborar seu imortal Sherlock Holmes. Resumindo: Poe é o cara!!! “Histórias Extraordinárias” foi originalmente publicado como uma coletânea de contos chamada “Tales of the Grotesque and Arabesque”. Foi Baudelaire, ao traduzir para o francês, que adotou o título “Histoires Extraordinaires”. A cada vez que li esse livro, foi com uma edição diferente, e a cada vez o número de histórias incluídas variou. Creio que essa “folga” dos editores decorre do fato das obras de Poe já serem de domínio público... A leitura que fiz dessa vez foi especialmente rica, pois creio que pude mergulhar um pouco mais no homem por detrás da obra, na mente tão única que concebeu essas “histórias extraordinárias”! Conhecer a vida de um autor sempre contribui para uma maior compreensão de sua obra, e Poe não é exceção. Sua vida foi marcada por azares e sofrimentos, dentre os quais o principal foi o alcoolismo que acabou por levá-lo precocemente para a sepultura. O alcoolismo de Poe (e possivelmente também o consumo de ópio) são essenciais para a gestação de suas histórias de sonho e pesadelo. Creio que muitas de suas tramas surgiram em intensos estados de intoxicação. O que não tira em nada o seu brilho... (mas não deixa de ser curioso que o próprio Poe alegasse seguir um rigoroso método de composição, e inclusive publicou um manual de escrita que foi considerado totalmente impraticável por um escritor do porte de Scott Fitzgerald). A viagem que fiz nessa leitura foi a seguinte: Poe olhou nos olhos do Abismo, do grande Irracional. Esse encontro marcou sua profundamente sua obra, dividindo-a em duas vertentes principais: a história policial e a história de horror. A história policial é a tentativa de impor a razão sobre o caos, de fazer a luz vencer as trevas. À desordem e violência do crime de morte, opõem-se o racionalismo e o método do detetive, o herói incumbido de elucidar o mistério e fazer voltar a ordem que reinava antes da abrupta intervenção do caos (o assassinato). O detetive das histórias de ficção surge como o guerreiro da razão em um universo que se apresenta como irracional. A história de horror, por outro lado, nasce da desistência de enfrentar o irracional: é a rendição ao caos, ao inexplicável, ao icognoscível. Que Poe tenha surgido quando surgiu não pode ter sido mero acaso: em meados do século XIX, a reboque do cientificismo e das transformações promovidas pela Revolução Industrial. Por um lado as histórias de Poe refletem a crença de que a razão humana será instrumento suficiente para elucidar todos os mistérios do Universo (e daí a figura do detetive). Por outro, refletem o vazio e o nihilismo que foram a herança maior do século XX, numa época em que as máquinas e a ciência prometiam tornar a existência de Deus algo supérfluo (tiraram Deus do trono, mas colocaram o quê no lugar?). A história de horror só faz sentido em uma sociedade tecnológica e irreligiosa. Caramba, viajei muuuuito nessa leitura!!! Agradeço à querida Bruna por esse inestimável presente!!! (21.01.10)

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