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    Extinção - Uma derrocada

    Thomas Bernhard

    Companhia das Letras
    2000
    480 páginas
    16h 0m
    ISBN-13: 9788571649842
    Português Brasileiro
    4.4
    99 avaliações
    Leram147Lendo10Querem333Relendo1Abandonos5Resenhas15
    Favoritos25Desejados333Avaliaram99

    A ideia, a necessidade ou o desejo de autodestruição estão no centro da obra de Bernhard. Em Extinção, este centro parece avançar até a borda e restar como verdade última da existência e da linguagem. Franz-Josef Murau é a ovelha negra de uma família de latifundiários austríacos: sua repulsa pela Áustria o levou a auto-exilar-se em Roma. Quando um telegrama lhe comunica a morte dos pais e do irmão, é obrigado a regressar imediatamente à terra natal, Wolfsegg. Estivera ali dias antes, para o casamento da irmã. Reduto católico e nacional-socialista, Wolfsegg espelha a infâmia austríaca: é a fonte do sustento e da ruína moral de Franz-Josef, seu novo proprietário. Neste livro em que tudo se repete, a viagem desencadeia a ação, isto é, desencadeia um fluxo de pensamentos e reminiscências que se torna mais cerrado a cada página, mais obstinado, mais compulsivo. Murau tem de repetir a viagem recém-concluída, participar de rituais fúnebres que se repetem há séculos, repetir em palavras, extensivamente, a torrente de suas memórias. Esta será a forma de apagar qualquer vestígio que o prenda à origem execrada: "Estou de fato retalhando e dissecando Wolfsegg e os meus, aniquilando-os, extinguindo-os, e retalho e disseco dessa forma a mim mesmo, disseco-me, aniquilo-me, extingo-me". Poucos escapam da virulência de Murau, cuja desmedida chega a torná-lo burlesco, a dar à sua voz um tom caricato. A catilinária a que ele se entrega equivale a renunciar incondicionalmente a si mesmo e ao mundo - e nesse processo ideia e forma linguística confluem com virtuosismo. Casando com maestria fábula e concepção linguística, Thomas Bernhard empresta a Murau um falso coloquialismo que se apoia numa sintaxe circular altamente elaborada, num amálgama de discurso direto e indireto que faz a voz de Murau ecoar todas as vozes que abomina. A ideia, a necessidade ou o desejo de autodestruição estão no centro da obra de Bernhard. Em Extinção, romance repleto de alusões a livros anteriores do autor e que é também o título do testemunho escrito de Murau, este centro parece avançar até a borda e restar como verdade última da existência e da linguagem.

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    João Guilherme Gurgel picture
    João Guilherme Gurgel04/09/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Quem desdenha quer comprar

    Sou contra qualquer tipo de inicialização prévia a um autor, - em outras palavras, gosto de conhecer um autor, simplesmente, o lendo, crendo ser assim o melhor meio de se afeiçoar (ou desgostar) da escrita de alguém. Com Bernhard, o caso é um pouco diferente. Nesta resenha, eis os porquês. O primeiro pressuposto é saber que ele não marca parágrafos (duma maneira que lembra Saramago e László Krasznahorkai). O segundo é que ele não marca capítulos. Terceiro, que seus diálogos são demarcados somente, e friso o somente, por, ao final da frase, ter a palavra *disse*. E quarto é que ele não poupa de repetição de vocabulário. E nada dito no parágrafo anterior torna-o um autor ruim. Do contrário, Bernhard foi um dos mais geniais narradores da segunda metade do século passado. Este livro, por sua vez, como todo bom livro, é inclassificável, quase indescritível; é sempre um desafio falar de bons livros, uma vez que a obra fala por si só e, assim, é impossível descrevê-la ou tentar explica-la, quiçá falar a respeito sobre ela; é única. É uma leitura obrigatória a todos os fãs de submundos, de histórias que vão engordando, engordando, até subitamente explodirem. Não que seja uma leitura fácil; é fundamental nos afeiçoarmos pelo narrador (por mais pedante que o seja), e, agora que terminei o livro, parece que um ente querido se foi, o exato pressuposto que faz toda a história começar, Murnau, o narrador, perdendo um ente…, que não seria tão querido assim. Favoritado.

    10 curtidas

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    Avaliações

    4.4 / 99
    • 5 estrelas59%
    • 4 estrelas26%
    • 3 estrelas11%
    • 2 estrelas2%
    • 1 estrelas2%
    Niclaas Thomas Bernhard profile picture

    Niclaas Thomas Bernhard

    O austríaco Thomas Bernhard, autor de mais de 30 obras entre romances, contos, peças de teatro, poesia, roteiros, memórias e crítica, é considerado um dos maiores escritores contemporâneos de língua alemã. Ao explorar de maneira implacável os fantasmas e as culpas da Áustria do pós-guerra, Bernhard conquistou a fama – merecida – de um intelectual polêmico, ora admirado, ora execrado por seus compatriotas. Seu ressentimento pela Áustria é refletido em seu testamento, onde proíbe a encenação das suas peças teatrais em território austríaco. Mesmo após sua morte, suas obras foram objeto de controvérsia, especialmente o trabalho Heldenplatz (1988), no qual Bernhard denuncia o ressentimento anti-semita ainda latente no país.

    96 Livros
    70 Seguidores
    Limburgo, Países Baixos

    Niclaas Thomas Bernhard