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    As Duas Faces da Glória - A FEB Vista Pelos Seus Aliados e Inimigos

    William Waack

    Editora Planeta
    2015
    344 páginas
    11h 28m
    ISBN-13: 9788542204773
    Português Brasileiro
    3.8
    133 avaliações
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    Só agora, 70 anos depois, começamos a superar a ordem estabelecida ao final da 2ª Guerra, um conflito de imenso peso na memória coletiva de muitos povos e países não só pelo seu papel central na construção do mundo que vivemos mas, também – ou sobretudo – pelos episódios aterradores de extermínio em massa, o horror dos totalitarismos, a inigualada destruição de populações civis e a arma do fim da humanidade, a bomba atômica. Se para alguns a participação brasileira foi simbólica ou de menor peso nos eventos puramente militares, isso em nada muda a importância, a coragem e o sacrifício pessoais dos soldados brasileiros, enviados à morte muitas vezes sem preparo, treinamento, equipamento e comandantes competentes num país distante e numa situação de difícil compreensão. A contrário, essas circunstâncias reforçam o brio que demonstraram. São duas perspectivas completamente distintas, a da participação do indivíduo e a da projeção histórica do acontecimento. É profundamente triste constatar quantos analistas no Brasil não sabem, ou não quiseram, separar uma coisa da outra. Se para alguns a participação brasileira foi simbólica ou de menor peso nos eventos puramente militares, isso em nada muda a importância, a coragem e o sacrifício pessoais dos soldados brasileiros, enviados à morte muitas vezes sem preparo, treinamento, equipamento e comandantes competentes num país distante e numa situação de difícil compreensão. A contrário, essas circunstâncias reforçam o brio que demonstraram. São duas perspectivas completamente distintas, a da participação do indivíduo e a da projeção histórica do acontecimento. É profundamente triste constatar quantos analistas no Brasil não sabem, ou não quiseram, separar uma coisa da outra.

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    Marco Aurelio Rodrigues de Vasconcelos picture
    Marco Aurelio Rodrigues de Vasconcelos14/01/2016Resenhou um livro
    3 (Bom)

    As Duas Faces da Glória - nem tanto...

    Apesar de já ter lido o livro há cerca de 10 meses e ter um esboço de resenha sobre o livro, decidi não publicá-la pela constante dor de cabeça que os debates sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial causam. No entanto, após assistir alguns documentários e incrementar meu conhecimento com alguns livros abrangentes, decidi publicar minha resenha com alguns adendo, já avisando de antemão que apesar de não considerar isso como spoiler, pretendo utilizar dados do livro a fim de fundar minha resenha de forma crítica. As Duas Faces da Glória causou grande repercussão na época em que foi lançado (1985), gerada principalmente pelas críticas negativas feitas por ex-combatentes e militares contra toda argumentação proposta pelo jornalista William Waack. O autor - ao decorrer de 344 páginas - pretende desmitificar alguns mitos criados por "chauvinistas" sobre a (paradoxalmente esquecida) FEB e sua atuação no front italiano no combate contra tropas alemãs nos anos de 1944 e 1945, mediante a exposição do ponto de vista de tropas aliadas (norte-americanas) e inimigas de nossos pracinhas (os alemães). Para isso, o jornalista William Waack conta com um repertório de documentos nunca antes analisados sobre esse período negligenciado em nossos livros de história. Entre esses documentos, os relatórios norte-americanos sobre o desempenho das tropas brasileiras desde o treinamento até a eficácia em combate são disponibilizados. Infelizmente documentos alemães sobre os embates entre as duas forças não se encontram em abundância, tendo-se em vista que diversos deles foram perdidos durante um bombardeio a cidade de Berlim (conforme diz o autor). Para compensar a carência de fontes então, William Waack acaba mostrando o motivo de ser considerado excelente profissional na função que exerce ao ter o trabalho meritório de localizar diversos veteranos de unidades alemãs que enfrentaram os brasileiros, transcrevendo seus relatos e experiências para a obra. Infelizmente, o livro peca em uma falta de aprofundamento histórico gerando então diversas contradições e comentários leigos capazes de trincar os dentes dos aficionados por história, o que acabou por atribuir ao autor a fama de estar abusando de más intenções para com a participação brasileira na maior guerra que a humanidade presenciou. De fato, as críticas feitas sobre o caráter histórico do livro não carecem de fundamento, visto que obras sobre a guerra mais complexas envolvem trabalhos de dezenas de anos por diversos historiadores, enquanto Waack admite ter demorado um ano em seu trabalho. Logo de início o leitor irá se deparar com a informação de que as unidades alemãs enfrentadas pelas tropas brasileiras eram extremamente desqualificadas para o combate pela falta de equipamentos, mobilidade, cadeia de suprimentos e empreendimento logístico, assim como a mescla de combatentes de juventude inexperiente e homens com idade já avançada. São essas unidades: 2ª Ligeira, 29ª Motorizada, 84ª de Infantaria, 90ª Motorizada,114ª Ligeira, 148ª de Infantaria a 232ª de Infantaria ,305ª de Infantaria e a 334ª de Infantaria, se destacando entre essas duas a 232ª, responsável por pesadas baixas brasileiras em Monte Castelo) e a 148ª, que de acordo com o autor, era considerada a unidade menos confiável do exército alemão no front italiano, entrando para a história ao se render em massa diretamente para FEB. Para William Waack os "números altos’ da maior parte dessas divisões" - em consulta a um especialista - indicam que a unidade se formou já no final da guerra, às pressas, com recursos reduzidos e deficiência de tropas aptas. Qualquer um que tenha o MÍNIMO de conhecimento sobre história militar, sabe que a elevada numeração das unidades da Wermarcht NADA tem a ver com sua mortalidade em combate.Realmente há de se ressaltar o equipamento escasso e a mobilidade arcaica dessas unidades (tração com animais), entretanto esse problemas - ao contrário da crença popular - SEMPRE assolaram o exército alemão, que estava longe ser uma força 100% mecanizada e ainda contou com problemas graves aqui descritos,em todas as campanhas de 1944 e 1945. Caso contrário, o revez sofrido pelos alemãs às portas de Moscou poderia ter sido evitado devido a neve e o lamaçal precedente a batalha. Ademais, Waack ainda cai em séria contradição ao afirmar que o comandante da 232ª Divisão, Eccart Von Gablenz, já havia comandado uma divisão (a 384ª Divisão) anteriormente na batalha de Stalingrado em 1942. Logo, não precisa ser um gênio para perceber que a sua divisão comandada em Stalingrado (a batalha mais sangrenta da guerra) possui uma numeração superior à todas as unidade enfrentadas pela FEB, sendo colocada efetivamente em combate dois anos antes das lutas no norte da Itália. Outras argumentações refutáveis se dão ao nos depararmos com as outras debilidades da 232ª já apresentadas anteriormente: a mescla de juventude e idade avançada dos componentes de suas fileiras, dando um ar de inofensividade a sua combatividade e amadorismo aos pracinhas brasileiros por conquistarem seu objetivo em Monte Castelo sob o custo de pesadas baixas. Tragicômico é perceber que o próprio autor explica a formação da 232ª em junho de 1944, com o recrutamento de veteranos respeitado Afrika Korps, e de experientes combatentes do temido front russo (front para onde Hitler destinou a elite de suas forças). Sem necessitar de mais reflexões, fica fácil para o leitor assimilar que os inexperientes e despreparados soldados brasileiros estavam enfrentando veteranos calejados com o pior que a guerra tem a oferecer. Ainda com relação a idade mesclada da unidade, deve-se acrescentar que a juventude do oponente não é um argumento digno de relevância com relação a sua tentativa de depreciar os adversários dos pracinhas. Em 1945, o 12º Exército Alemão foi criado as pressas e colocado sob o comando do jovem general Walther Wenck, no intuito de deter o avanço norte-americano sobre o Reno enquanto os russos estavam às portas de Berlim. Impressionante foi o fato de que um exército composto em grande maioria por jovens inexperientes, conseguiu infernizar a vida do exército norte-americano, muitas vezes detendo seu avanço quase inexorável (Fonte: A Última Batalha - Cornelius Ryan). Nas esteira de uma suposta depreciação da participação da FEB e seguindo o ponto forte jornalístico da obra, William Waack nos surpreende ao escrever que a grande maioria dos veteranos alemães por ele entrevistados, não faziam a mínima ideia de que haviam enfrentado soldados brasileiros. A impressão passada é que nossas forças pareciam insignificantes até mesmo para as debilitadas forças teutônicas. O que - seguindo a lógica da argumentação utilizada - parece inverossímil, UMA VEZ QUE O PRÓPRIO AUTOR ESCREVE sobre a preferência das tropas alemãs se renderem perante os brasileiros, considerando-os mais afáveis de que os soldados norte-americanos e britânicos. O caso torna-se ainda mais gritante com a preferência de rendição de uma divisão inteira em março de 1945 (a 148ª) para a FEB. Já no que diz respeito aos documentos aliados sobre o desempenho da FEB nos treinos e nos combates, nos deparamos com provas irrefutáveis mas que podem sim ser colocadas sobre contextos objetivos históricos, sem abusar de relativismo. O início dos treinamentos aplicados aos soldados brasileiros são descritos como tortuosos pelos oficiais norte-americanos, assim como o desempenho em combate das unidades são duramente criticados no início da experiência. Aqui podemos encontrar situações tipicamente (e hilariantemente) brasileiras. Soldados fumando perto do depósito de munições de artilharia, patrulhas mal-feitas, péssimo desempenho em disparos de armas portáteis durante o combate, malandragem na sala de operações ao evitar atendimento de telefones, etc. São fatos verdadeiros que devem ser considerados, mas não tomados como prova cabal de uma infantilização da participação da FEB, como se a guerra por esses soldados lutada fosse algo como brincadeira. É bom relembrar quando o inexperiente exército norte-americano entrou em combate contra o temido Afrika Korps em 1943 (sofrendo mais de 6.500 baixas em Kasserine), os britânicos fizeram duras críticas em relatórios extremamente semelhantes. Mediante o exposto, a campanha da FEB não pode ser desqualificada por estes argumentos. Devido à época em que foi lançado (perto da redemocratização do Brasil após 20 anos de Ditadura Militar), muitos consideram o livro mal intencionado a fim de denegrir nossa participação à beira da insignificância na Segunda Guerra Mundial. Eu prefiro acreditar que William Waack errou de forma grotesca em alguns momentos, mas não de forma intencional. Fazendo um trabalho de alta qualidade no âmbito jornalístico, o autor falha no campo histórico, carecendo de sérias reflexões sobre os eventos ocorridos. Outrossim, Waack não carece de motivos a fim de tentar nos passar um panorama mais realista sobre a FEB e sua guerra, levando-se em conta o esquecimento que os livros de história nos amargam pelo mundo inteiro (até mesmo na Itália, Alemanha, EUA e Inglaterra). Lendo algumas obras nos últimos anos, a única citação que encontrei a nossa participação se deu no livro "Inferno" de Max Hastings. O autor britânico, para os que não sabem, é um dos historiadores militares mais famoso da atualidade, sendo diversas criticado por descrever de forma concisa e realista a própria participação inglesa no ano de 1914 na 1ª Guerra e por atacar ferozmente o que ele chamou do "patético desempenho britânico" nos campos de batalha da 2ª Guerra. Com relação a participação de países sul-americanos, ele diz: "A América do Sul foi o continente menos afetado pela luta, apesar de o Brasil ter aderido à causa aliada em agosto de 1942 e enviado 25 mil soldados para participar - embora de uma forma quase invisível - da campanha da Itália". - Max Hastings, Inferno, Pág 418. Ao que parece, há de fato uma superestimação no âmbito estratégico sobre a luta da FEB. Lutando em um front já secundário (após a invasão da França pelos Aliados, a Itália não era mais prioridade), no 5º Exército Americano (uma mistura de poloneses, africanos, negros norte-americanos, tchecos, indianos, new-zelandeses), no fim do conflito, em missões TAMBÉM secundárias oferecidas pelos norte-americanos mais como um ato para saciamento de vontades políticas, do que puramente uma necessidade de urgência de contingente. Podemos concluir que a FEB não foi essencial para a vitória Aliada e nem foi fundamental no próprio front italiano como alguns pensam. Está longe de ser absurdo admitir que os objetivos feitos pela FEB poderiam ter sido concluídos por outras forças norte-americanas (a própria 10ª Divisão) ainda com um número menor de baixas do que as sofridas pelos brasileiros. O que de fato não podemos subestimar é que apesar de não fundamental para o contexto estratégico da vitória aliada, a FEB lutou sim de forma corajosa em uma guerra de verdade contra divisões calejadas e experientes em combates duríssimos, tendo nossos conterrâneos enfrentado horrores e situações inimagináveis, tornando-os heróis sobre qualquer marco referencial soldadesco de qualquer combatente deste planeta, ao contrário do que muitos preferem acreditar. Grande exemplo disso é a completa descrença, troça e desqualificação de nossas tropas no documentário Rádio Auviverde. Por todos esse motivos - mesmo com suas falhas - "As Duas Faces da Glória" é recomendado. Sua leitura é rápida e a linguagem é simples, ainda contando com um bom acervo fotográfico. Complementando a leitura com demais livros sobre o assunto, o leitor ao terminar esta obra, pode encontrar um meio termo, uma realidade de fato entre a mitificação/superestimação e a desqualificação/subestimação da campanha da FEB na 2ª Guerra. Afinal, o estudo de história não exige apenas uma breve e simples leitura com o adquirível conhecimento de FATOS, mas exige também - acima de tudo - uma reflexão sobre divergências contextuais encontradas em diversas obras de diversos autores a fim de que possamos ligar uma linha de raciocínio na outra, formando o próprio caminho lógico a tirar conclusões.

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    William Waack

    É um jornalista e professor brasileiro. Formado em jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP) e em ciência política, sociologia e comunicação na Universidade de Mainz, na Alemanha. Fez mestrado em Relações Internacionais. Também foi atleta membro da Seleção Brasileira de Handebol. venceu duas vezes o Prêmio Esso de Jornalismo: pela cobertura da Guerra do Golfo (1991) e ao revelar informações sobre a Intentona Comunista de 1935 até então mantidas sob sigilo nos arquivos da antiga KGB em Moscou (1993).

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    São Paulo, Brasil

    William Waack