Em poucas páginas, Scott Hahn comenta e explica as principais questões que envolvem as titularidades e devoção a Maria. Ele menciona figuras importantes, usa citações dos Pais da Igreja, do catecismo da igreja católica, chega até a usar alguns trechos da Bíblia. Inclusive convida aos leitores a lerem seu livro com a Bíblia ao lado para consultar e comparar com seu escrito. Mesmo com tanto esforço, o resultado não foi bom.
O livro todo praticamente se sustenta em 3 pilares: Interpretação de Gênesis e Apocalipse equivocadas, excesso de alegórias e um senso de família peculiar.
Por exemplo, para justificar e tornar necessário a figura de Maria como mãe e atuante no meio cristão de hoje, Scott reafirma e comenta várias vezes sobre a importância do papel de uma mãe para seus filhos e para sua família. Embora ele mencione que o papel do Pai (Deus) e do filho (Jesus) sejam importantes, esses seriam incompletos se não tivesse uma mãe para "acolher e cuidar". E como "Deus é a favor da família, deu a todos os cristãos uma mãe também". Veja que é o tipo do argumento bem apelativo e sentimental, e que não possui nenhum fundamento bíblico pois as escrituras nunca ensinaram esse tipo de coisa, ainda mais destacando o papel feminino e a autoridade de Maria para os cristãos de hoje.
Outro texto que ele usou foi:
"Jesus, sendo o Filho primogênito na família de Deus, é o Sumo Sacerdote mediador entre o Pai e seus filhos, enquanto Maria é mediadora na condição de rainha-mãe e advogada (cf. 1 Rs 2, 19)." - pág 92
Detalhe olha a referência bíblica que o autor relacionou: 1 Reis 2.19. Olha o que realmente texto biblico diz: " Quando Bate-Seba foi falar ao rei em favor de Adonias, Salomão levantou-se para recebê-la e inclinou-se diante dela. Depois assentou-se no seu trono, mandou que trouxessem um trono para a sua mãe, e ela se assentou à sua direita."
Scott simplesmente pega qualquer texto e coloca a sua ideia no versículo, simples assim. Pelo amor de Deus, não tem como relacionar uma coisa com a outra! A narrativa é bem clara, o contexto era entre Salomão e sua mãe. Não tem nada que indique Cristo, muito menos Maria.
O autor ainda afirma que um cristão só terá pleno entendimento do Evangelho se aceitar os atributos de Maria:
"Isto não é um opcional para os cristãos. Não é algo decorativo nos Evangelhos. Maria é — num sentido real, duradouro e espiritual — nossa mãe. Se desejamos conhecer a fraternidade de Jesus Cristo, devemos conhecer a mãe que queremos compartilhar com Jesus Cristo. Sem ela, nosso entendimento do Evangelho será, no mínimo, parcial. Sem ela, nosso entendimento da salvação nunca terá relação com a família e ficará preso na Antiga Aliança, onde a paternidade de Deus era considerada metafórica e a filiação do homem, uma servidão." - pág 68
Isso é um erro gravíssimo porque não possui base bíblica nenhuma. Ora, se o fiel é incentivado a crer na Bíblia e na Tradição como autoridade, já de não ter nada nas escrituras que comprovasse tal afirmação, já mostra que se tem um problema. Mas, o livro não vai te incentivar a pensar sobre isso e sim a aceitar tudo o que o autor escreveu, por mais absurdo e incoerente que seja.
Como Scott escreveu em 1999 o livro o Banquete do Cordeiro, livro em que ele relaciona a missa com o livro de Apocalipse, algumas interpretações foram recicladas para esse livro ( que foi lançado originalmente em 2001). Desse modo, os argumentos que relacionam uma tipologia de Maria em Gênesis e em Apocalipse são reaproveitados e repetidos na maior parte do livro. O autor tentou justificar isso alegando que se trata de uma tipologia bíblica, mas o que se vê na prática e na teoria é uma interpretação capenga e forçada de textos bíblicos. Por exemplo:
"Maria é uma figura central no Apocalipse porque, assunta aos Céus, onde reina, é agora o cumprimento da realidade da qual a própria Igreja é simplesmente um tipo. Ela é Virgem e Mãe, a Noiva de Cristo, a Jerusalém Celeste, a grande cidade que é a Cidade de Deus. Ela é o arquétipo celestial." - pág 103
"Quando lemos as Escrituras de maneira tipológica, não estamos tentando decifrar um código ou resolver um enigma, tampouco impor nossas visões excêntricas à palavra inspirada. Estamos tentando encontrar uma Pessoa. Queremos conhecer a Deus, seus caminhos, seus planos, seu povo escolhido... e sua mãe. - pág 67
" Sendo assim, quero evitar um perigo que chamo de atomismo: concentrar-se em tipos bíblicos isoladamente, como se fossem metáforas desconexas ou espécimes singulares numa placa de laboratório. Também não estamos falando de um sistema oculto de símbolos quando consideramos a tipologia de Eva, a Arca da Aliança e a rainha-mãe. Estamos, antes, olhando para criaturas ordenadas pela Providência a fim de se cumprirem numa pessoa histórica, real. Assim como Isaac, Moisés e Davi foram pessoas reais que prefiguravam o Messias divino — Jesus —, também Eva, a arca e a rainha-mãe nos fazem vislumbrar a grande realidade que é Maria. (...) Paulo sentiu-se comovido com a maneira como Jesus estava prefigurado em Adão, mas Paulo estava apaixonado por Jesus Cristo. Da mesma maneira, devemos conhecer e amar Maria por si só quando estiver iluminada por seus tipos bíblicos." - pág 67
Assim, com excessos de associações e alegórias, Scott tenta justificar sua teologia. Não basta colocar versos e textos bíblicos para um livro cristão ser considerado como "bom, correto e bíblico", é preciso ter coerência e não inventar interpretações e informações que o texto bíblico não ensina...