Ser vendedor em uma livraria quando se é apaixonado por literatura tem suas incontáveis vantagens. Você conhece leitores, autores e livros incríveis, tem acesso aos lançamentos antes de quase todo mundo e descontos para comprá-los, participa de eventos literários e treinamentos. Mas, como todas as profissões que lidam com o público, não bastasse as crianças deixarem a área infantil o próprio covil do inferno, sempre tem aquela pessoa que entra na loja para acabar com o seu dia, matando clientes, fazendo reféns e ameaçando explodir a todos. Nessas horas, nenhum treinamento ou livro com técnicas de vendas ensina você a lidar com um psicopata armado. O Vira Lata foi essa pessoa, e este foi o meu dia.
Como Vender Livros a um Psicopata Armado
Tiago Morini
Cachorros satisfeitos não aprendem truques novos
Como vender livros a um psicopata armado, (Autor Catarinense, 2015, 244 paginas) do atual gerente de uma livraria em Curitiba mas advogado formado e completamente apaixonado por literatura, Tiago Morini, nos presenteia em seu segundo livro com humor ácido que alfineta algumas questões mundanas. A aventura começa quando nosso livreiro e o "Vira-lata" se conhecem em uma livraria. Depois de ter seu relacionamento rompido por aplicativo de mensagem nosso livreiro acorda para mais um dia de trabalho acreditando que vai morrer graças a uma superstição. O que ele não imaginava era que ia dar de cara com o Vira lata, um psicopata que acabara de fugir de um assalto mal sucedido. Os dois tem o que eu posso chamar de encontro marcante, tanto físico quanto psicológico. Mantido como refém junto com os clientes e os outros funcionários da loja, nosso aspirante a herói resolve tentar acalmar a situação se metendo nas mais absurdas encrencas para tentar acabar com essa confusão. Logo de cara me deparei com sentimento de espanto com a ironia usada pelo autor, que mesmo jogando na sua cara o que normalmente ninguém admitiria, te faz continuar a ser um ‘cachorro insatisfeito’, perdão pelo uso das palavras, mas é assim mesmo que o livro começa com a frase destacada no título, sendo assim você se vê sensibilizado pela vida tão triste desse animal dependente de um afago, de um petisco de um carinho, e ao virar o capitulo você percebe que você não é tão diferente. Em muitos momentos os sentimentos se completam, se confundem e até mesmo se contradizem, me peguei com raiva, com nojo, com sentimento de solidariedade, pena, dó, tensão e é uma mescla tão confusa quanto o próprio assalto. Com vários tipos fáceis de esbarrar nas esquinas e lojas da vida como, uma garota sem noção que apesar de ter uma arma apontada pra ela prefere correr o risco de tomar uma bala no meio da cara a ter que parar de registar o que esta acontecendo. Um metido a herói que está mais para um exemplo do que não se fazer em momentos de crise, e claro que não pode faltar uma paixonetazinha no meio desse caos. Impossível não se sentir dentro da livraria, sentindo todo o mundo desabar a sua volta. O fato é que eu não consegui parar de ler ate descobrir tudo que aconteceu e principalmente demorei dias para conseguir digerir o final hollywoodiano da história. O melhor de tudo é poder receber dicas de leituras vindas dos lugares mais improváveis, e nisso eu estou falando muito serio. Para quem gosta de suspense, drama e comédia com alfinetadas generosas essa é uma ótima dica.
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