Parte I:
Hegel foi o primeiro a expor corretamente a relação entre liberdade e necessidade. Para ele, liberdade é ter noção da necessidade. Cega a necessidade só é enquanto não é conceituada. A liberdade não reside na tão sonhada independência em relação às leis da natureza, mas no conhecimento dessas leis e na possibilidade proporcionada por ele de fazer com que elas atuem, conforme um plano, em função de determinados fins. Isso vale com referência tanto às leis da natureza externa como àquelas que regulam a existência corporal e espiritual do próprio ser humano duas classes de leis que podemos separar uma da outra, quando muito, em termos de concepção, mas não na realidade. Em consequência, liberdade da vontade nada mais é que a capacidade de decidir com conhecimento de causa. Portanto, quanto mais livre o juízo de um ser humano em relação a uma determinada questão, maior será a necessidade de que esse juízo seja determinado, ao passo que a incerteza baseada no desconhecimento, que aparentemente escolhe de modo arbitrário entre muitas possibilidades diferentes e contraditórias de decisão, comprova, justamente por isso, sua falta de liberdade, seu ser dominado exatamente pelos objetos que ela deveria dominar. A liberdade consiste, portanto, no domínio sobre nós mesmos e sobre a natureza exterior baseado no conhecimento das necessidades naturais; desse modo, é necessariamente um produto do desenvolvimento histórico. Os primeiros seres humanos a se separarem do reino animal foram, em todos os aspectos essenciais, tão carentes de liberdade quanto os próprios animais; porém, todo progresso cultural foi um passo rumo à liberdade. No limiar da história da humanidade, está a descoberta da transformação do movimento mecânico em calor: a produção do fogo por fricção; no final do desenvolvimento até aqui está a descoberta da transformação de calor em movimento mecânico: a máquina a vapor. E, apesar da gigantesca revolução libertadora que a máquina a vapor efetua no mundo social (ainda falta mais da metade por realizar), é indubitável que o fogo resultante da fricção a supera em termos de efeito libertador em relação ao mundo. Porque o fogo resultante da fricção deu ao ser humano, pela primeira vez, o domínio sobre uma força da natureza e, desse modo, separou-o definitivamente do reino animal. A máquina a vapor jamais provocará um salto tão tremendo no desenvolvimento da humanidade, por mais que seja encarada como representante de todas as forças produtivas nela apoiadas, cujo auxílio é indispensável para possibilitar um estado de sociedade em que não haja mais diferenças de classes, preocupação com os meios individuais de existência e na qual, pela primeira vez, será possível falar de liberdade humana real, de uma existência em harmonia com as leis da natureza conhecidas. Toda a história humana, porém, ainda é muito recente e seria ridículo querer atribuir às nossas atuais concepções qualquer validade absoluta, o que decorre do simples fato de que toda a história até aqui pode ser caracterizada como a história do período que vai da descoberta prática da transformação do movimento mecânico em calor até a descoberta prática da transformação de calor em movimento mecânico.
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Parte II:
Todo o desenvolvimento da sociedade humana para além do estágio da selvageria animal começou no dia em que o trabalho da família gerou mais produtos do que eram necessários para seu sustento, no dia em que uma parte do trabalho pôde ser empregada na produção não mais de simples meios de vida, mas de meios de produção. Um excedente do produto do trabalho além dos custos de manutenção desse trabalho, bem como a composição e a multiplicação de um fundo social de produção e de reserva a partir desse excedente, foi e é o fundamento de todo progresso social, político e intelectual. Na história até agora, esse fundo era possessão de uma classe privilegiada, à qual cabia, junto com essa possessão, o domínio político e a condução intelectual. A revolução social iminente só transformará esse fundo social de produção e reserva isto é, a massa total das matérias-primas, dos instrumentos de produção e dos meios de vida num fundo realmente social quando o subtrair da disposição da dita classe privilegiada e o transferir para toda a sociedade como bem comum.
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Parte III:
Marx diz:
O capital não inventou o mais-trabalho. Onde quer que uma parte da sociedade detenha o monopólio dos meios de produção, o trabalhador, livre ou não, tem de adicionar ao tempo de trabalho necessário a sua autoconservação um tempo de trabalho excedente, a fim de produzir os meios de subsistência para o possuidor dos meios de produção.
Mais-trabalho, trabalho além do tempo necessário para o autossustento do trabalhador e apropriação do produto desse mais-trabalho por outros (ou seja, a exploração do trabalho) é comum a todas as formas de sociedade até agora existentes, na medida em que se moveram em antagonismos de classes. Porém, segundo Marx, o meio de produção assume o caráter específico de capital só quando o produto desse mais-trabalho assume a forma de mais-valor, quando o possuidor dos meios de produção se defronta com o trabalhador livre livre de amarras sociais e livre de posse própria enquanto objeto de espoliação e o explora visando à produção de mercadorias. E isso passou a acontecer em grande escala só a partir do final do século XV e do início do século XVI.
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Parte IV:
A concepção materialista da história parte da tese de que a produção, e junto com ela também a troca dos seus produtos, é o fundamento de toda ordem social; de que, na sociedade historicamente atuante, a distribuição dos produtos, e junto com ela a subdivisão em classes ou estamentos, orienta-se por aquilo que é produzido, pelo modo como é produzido e pela maneira como o produto é trocado. De acordo com isso, as causas últimas de todas as mudanças sociais e revoluções políticas não devem ser buscadas na mente dos seres humanos, em sua noção crescente da verdade e da justiça eternas, mas nas mudanças que ocorrem no modo de produção e de troca; elas não devem ser buscadas na filosofia, mas na economia do respectivo período. O despertar da noção de que as instituições sociais existentes são irracionais e injustas, de que razão é contrassenso, o bem se torna injúria[58] é apenas um indício de que, nos métodos de produção e nas formas de troca, ocorreram mudanças totalmente silentes, com as quais a ordem social moldada para as condições econômicas anteriores não combina mais. Desse modo, foi dito simultaneamente que os meios para a eliminação das mazelas descobertas também devem estar disponíveis nas condições modificadas de produção mais ou menos desenvolvidas. Portanto, não se pode, por exemplo, inventar esses meios a partir da própria cabeça, mas, usando a cabeça, descobri-los nos fatos materiais já existentes da produção.
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