Salambô (Coleção Excelsior #vol 18) - A história da antiga Carthago

    Gustave Flaubert

    Itatiaia
    2005
    240 páginas
    8h 0m
    ISBN-10: 8531907209
    Português Brasileiro

    Escritor francês Gustave Flaubert nasceu em Rouen em 21 de dezembro de 1821 e morreu em Croisset em 8 de maio de 1880. Abandonou cedo os estudos de direito em Paris e para superar as desilusões de 1848 e as de um ano infeliz fez uma viagem a África do norte e ao Oriente próximo. Retirou-se depois para seu sitio em Croisset decepcionado pela vida que mal conhecera dedicando os restantes trinta anos de vida ao trabalho literário em solidão quase total. Flaubert foi um grande estudioso da estupidez humana. Para ele o lugar onde a estupidez mais abundava era a província. E é a província o pano de fundo de seu romance mais famoso "Madame Bovary". No ano em que o livro "Madame Bovary" foi publicado na França houve um grande interesse pelo romance. A obra foi considerada imoral pelo governo francês que decidiu mover um processo contra o autor e o editor do livro. Foram porém absolvidos pelos juízes que como se fossem personagens de "Madame Bovary" atestaram ao autor "fins morais e instrutivos". Em 1869 publicou o romance "A Educação Sentimental" um grande documento humano. Depois dessas obras Flaubert não parecia poder dizer mais nada sobre suas experiências e sua época. Abandonou os temas do Realismo. Dedicou-se ao estudo do passado histórico. Em "Salambô" panorama fascinante e horripilante da queda de uma civilização da antiga Cartago Flaubert o mestre do estilo em prosa encontra-se com seus contemporâneos de estilo algo semelhante em versos os parnasianos. Como eles interessa-se pelo oriente por nações bárbaras e pelas ilusões que lhe ofereciam as religiões.

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    Carla Silva29/01/2009Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A Cartago de Flaubert

    Por volta de 1857, Gustave Flaubert começou a planejar o romance Cartago. Viajou até a África, visitando as ruínas da cidade, leu em torno de 100 volumes para embeber-se no tema - obras de História, Arte Militar, Patologia, Religião e outras. Em suas cartas, registrou o sofrimento que era dedicar-se à realização desse livro. "Que tema miserável! Eu passo alternadamente da ênfase mais extravagante à convenção mais acadêmica" escreveu ele ao escritor Ernest Feydeau em fins de 1857. Em 29-30 de novembro de 1859, ao mesmo amigo escrevia: "É preciso ser absolutamente louco para empreender livros semelhantes! A cada linha, a cada palavra, supero dificuldades de que ninguém terá idéia, e está certo talvez que delas não se faça idéia. Pois se meu sistema é falso, a obra estará fracassada." Salambô, como acabou por intitular-se o romance histórico sobre Cartago, é uma obra impressionante: páginas e páginas de descrições de ambientes, vestimentas, objetos, costumes, páginas descrevendo batalhas com vividez e crueza. O efeito da leitura é monumental, o que é curioso porque o livro em si é pequeno (168 páginas em letra miúda, margens apertadas, enfim, uma edição econômica; a edição mais volumosa que encontrei possui 216 páginas). Contudo, enquanto vamos lendo, Cartago ressurge - ainda que seja decerto a Cartago de Flaubert, não se trata de um feito desprezível - aos nossos olhos, majestosa, poderosa, soberba, despótica: sua riqueza entra-nos pelos olhos, apela a nossos outros sentidos (o tato: como se tocássemos seus tecidos finíssimos; o paladar: como se provássemos suas iguarias). Desde o primeiro capítulo, com o banquete dos mercenários durante o qual fica subentendido que não receberão seu soldo após a guerra, a leitura nos prende. À medida que o romance avança, acompanhamos a revolta dos mercenários, o encontro entre o soldado Matô e a filha de Amílcar, Salambô, o roubo da túnica do deus fenício Tanit, as batalhas entre os mercenários e os cartagineses, o cerco de Cartago, a fome e a sede, a captura e o destino horrendo dos prisioneiros de ambos os lados, tudo isso perpassado da mesma monumentalidade, da mesma impressão do grandioso. Flaubert era um grande escritor. A crítica considera Madame Bovary sua obra-prima. Pessoalmente, é no Flaubert experimental e satírico de Bouvard Pécuchet, no Flaubert escritor dedicado ao sacerdócio da Literatura nas Cartas, e agora nesse Flaubert meticuloso, fascinante e recriador de um mundo desaparecido em Salambô que encontro o gênio tantas vezes incensado; no escritor dessas últimas obras, encontro um escritor de minha predileção. Vale ainda observar: quantos, dentre os nossos pretensos teóricos e críticos literários, terão lido Salambô? Relembro os comentários de Boris Schnaiderman, impressionado com a brutalidade dos relatos de fome e loucura em Narrativa de Kolyma de Chalamov. É verdade: Chalamov descreve fatos, não ficção. Ainda assim, é difícil não crer nas descrições que Flaubert faz do cerco e dos esforços dos mercenários para tomar Cartago - a brutalidade dos combates, a chegada da fome que leva ao canibalismo, o desespero que leva à superstição: o sacrifício de crianças ao deus Moloque. Crueza. Horror. Recriação de um tempo e de uma cultura. Numa obra-prima de 1862.

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