Esta não é uma resenha convencional. Talvez nem seja uma resenha. Uma Autobiografia, de Agatha Christie, não foi apenas uma leitura para mim — foi um encontro. E encontros, especialmente aqueles com quem nos formou, raramente são neutros ou fáceis de organizar em palavras. Agatha Christie é a minha escritora preferida, e dizer isso logo de início é necessário, quase um aviso ao leitor: não escrevo a partir da distância crítica, mas do afeto. Leio estas páginas como quem se aproxima de alguém que esteve presente por anos da minha vida, mesmo sem nunca ter me conhecido.
Conheci Agatha Christie por meio de E Não Sobrou Nenhum, livro que chegou até mim pelas mãos de uma amiga que, com o entusiasmo de quem acredita que certas leituras são obrigatórias, me perguntou se eu a conhecia e, diante da minha negativa, me emprestou o livro. Ainda me lembro da sensação exata daquela leitura: não foi apenas gostar da história, mas perceber, quase com surpresa, que algo em mim tinha sido alcançado. Havia ali uma forma de contar histórias que me atravessava com naturalidade, como se dialogasse com algo que eu nunca tinha sabido nomear. Sempre gostei de tentar desvendar mistérios — estivesse eu acompanhando episódios de Scooby-Doo, mergulhada em Death Note, meu anime favorito, ou em qualquer narrativa que me convidasse a observar, desconfiar e juntar pistas. Com Agatha, essa inclinação finalmente encontrou forma. Ler um romance policial pela primeira vez foi como dá nome a uma sensação antiga, compreender que aquele fascínio recorrente tinha, afinal, um lugar específico. Foi como descobrir, de repente, que existia um tipo de livro que conversava diretamente comigo, mesmo antes de eu saber que estava procurando por isso. Houve identificação imediata, a sensação rara de ter encontrado um espaço de pertencimento nos livros dela — e, a partir desse encontro, ler deixou de ser apenas um hábito intermitente para se tornar um lugar ao qual eu sempre conseguia voltar. (Bel, se estiver vendo isso, obrigada.).
Logo nas primeiras páginas, Agatha Christie deixa claro que não pretende narrar sua vida em ordem cronológica. Seu intuito, como ela mesma escreve, é “enfiar a mão em uma caixa surpresa e emergir com um punhado de memórias variadas” — e é exatamente isso que faz ao longo do livro. Uma Autobiografia começou a ser escrita em 1960 e só foi concluída em 1975, período em que Agatha foi e voltou diversas vezes à própria história, retomando lembranças, deixando outras em suspenso, avançando e recuando conforme a memória permitia. Ler esse livro é como estar na companhia de alguém que revisita o passado em lapsos, contando sua vida não como um relato organizado, mas como ela se apresenta: fragmentada, seletiva, imperfeita. Ainda assim, no início, há uma tentativa de linha, especialmente quando Agatha retorna à infância, como se ali estivesse um ponto de apoio antes de se perder novamente entre lembranças.
O que mais me causou estranheza ao longo da leitura foi o tom quase completamente desvinculado do drama que Agatha escolhe para narrar a própria vida. Confesso que, em alguns momentos, senti certo desgosto — talvez fruto da expectativa de uma leitora que, por admiração, esperava encontrar na autobiografia a mesma Agatha que construiu suas histórias de mistério. A mulher que escreve sobre si, no entanto, é outra: contida, econômica nas emoções, capaz de relatar até os acontecimentos mais difíceis sem se deter na dor. Houve instantes em que essa escolha me soou fria, como se algo estivesse sendo deliberadamente mantido à distância. Não sei se essa sensação também foi intensificada pela forma como li o livro, devorando-o em cerca de dez dias, sem o intervalo necessário para que esse silêncio emocional pudesse ser assimilado com mais calma. Talvez o que mais tenha me desconcertado não tenha sido a ausência de emoção explícita, mas a impossibilidade de alcançá-la por completo. Como leitora, eu queria me aproximar, tocar essa Agatha que sempre me foi tão íntima nos livros e, no entanto, ela parecia sempre um passo à frente, narrando sua própria história sem nunca se deixar capturar inteiramente.
Aos poucos, fui aceitando que Agatha era assim mesmo. Nunca foi uma mulher dos holofotes: dizia-se tímida, afirmava não ter talento algum para discursos e passou a vida inteira evitando a imprensa e os repórteres. Pensar nisso me fez perceber que o incômodo inicial vinha menos dela e mais de uma expectativa que eu havia criado. Quando olhei por outro ângulo, compreendi que, ao narrar sua história dessa forma, Agatha foi profundamente fiel a si mesma. Todos nós carregamos uma vida que não pode ser comparada à ficção e a dela, contada à sua maneira, não precisava corresponder à imagem que construímos de sua obra. Talvez aceitar isso também faça parte do gesto de admiração: reconhecer a autora não como personagem, mas como alguém que escolheu existir e se narrar nos próprios termos.
Como qualquer leitora que admira profundamente uma autora, também senti falta de saber mais. Houve momentos em que desejei que Agatha tivesse se permitido avançar um pouco além do que escolheu contar — especialmente em relação a episódios que sempre despertaram curiosidade, como o seu misterioso desaparecimento, tratado de forma breve e indireta, restrito ao rompimento do primeiro casamento. Muito se especulou ao longo dos anos sobre o que teria acontecido naquele período, mas Agatha nunca se dispôs a explicar, e sua autobiografia mantém essa mesma reserva. Ainda assim, é curioso perceber que, enquanto certos acontecimentos permanecem envoltos em silêncio, outros surgem com leveza e até surpresa: descobrir que ela surfava, que sua cor preferida era o roxo, ou que sua primeira história de detetive nasceu quase como um desafio lançado pela irmã — a mesma que lhe contava histórias de Sherlock Holmes na infância — aproxima o leitor de uma Agatha íntima, cotidiana. Também foi interessante acompanhá-la em suas viagens ao Oriente Médio e no desenvolvimento de sua paixão pela arqueologia ao lado do segundo marido, ainda que essa parte se alongue um pouco no final do livro. Agatha amava viajar, e termino a leitura imaginando quantas histórias ela viveu e escolheu não escrever. Talvez essas ausências digam tanto sobre ela quanto tudo aquilo que decidiu compartilhar.
Uma Autobiografia talvez não seja o livro em que Agatha Christie mais se revela, mas é, paradoxalmente, aquele em que mais se faz presente. Ao final da leitura, compreendi que esse encontro não se deu pela exposição de sentimentos ou pela entrega de respostas, mas pela convivência silenciosa com alguém que escolheu contar sua vida do mesmo modo como a viveu: com discrição, autonomia e fidelidade a si mesma. Agatha não ocupa um espaço pequeno na minha vida — ela faz parte da minha formação como leitora e da vontade quase irresistível de fazer com outros o que um dia alguém fez por mim: apresentar, indicar, insistir, espalhar esse amor. Foi Agatha quem me conduziu ao romance policial, quem me ensinou a reconhecer aquilo que realmente me atravessa como leitora e, de maneira inesperada, foi também ela quem me levou a conhecer o amor da minha vida. Enquanto eu puder, seguirei fazendo isso: lendo, recomendando, compartilhando. Serei, com alegria, testemunha de Agatha Christie — da autora que me formou, me resgatou e me ensinou a chamar esse vínculo de pertencimento. Obrigada, Agatha Mary Clarissa Miller, por ter sido quem foi — e por ter escrito como escreveu.