Memorial do Convento é uma alegoria para a História de Portugal.
Saramago entremeia duas construções - a do Convento que nomeia o livro e a uma "máquina voadora" - em que ambas, a instituição e a quimera são formações comuns na literatura portuguesa, onde encontramos isso em clássicos como A Ilustre Casa de Ramires e o tão nosso conhecido Os Lusíadas. Pois, é disso que a história trata, a construção do Estado e senso de aventura lusitano.
Saramago utiliza personagens básicos para a narração, mas esses não devem ser confundidos com simples. Sete-Luas e Sete-Sóis representam o estereótipo de seu povo que não fica tão distante assim ao do povo brasileiro: o interesse pelo novo, o misticismo exagerado, o respeito distraído, a desobediência justificada, são todas peculiaridades que permeiam a caracterização de obras latinas.
A forma que a história é descrita também lembra um pouco do realismo fantástico que foi tão bem escrito por Garcia Marques, ainda capitaneado por Vargas Llosa - e que tem seus próprios representantes brazucas, como Adriano Suassuna.
O estilo do autor pode ser um pouco intimidante para leitores novatos a primeira vista. Não há parágrafos, capítulos ou travessões. Ao invés de tornar a experiência cansativa, ela promove o inverso, sua leitura se torna fluída, dinâmica.
Recomendo.