Fruto da reunião de diversos ensaios do autor, “Teoria e Práxis” estabelece o desenvolvimento de uma teoria crítica da sociedade a partir de outras, revisando-as dentro de propósito prático. Conforme dize Rúrion Melo na apresentação à edição brasileira do livro, “essa necessidade de produzir uma teoria social crítica com propósito prático, isto é, uma teoria que procura conhecer a sociedade da perspectiva de uma práxis emancipatória, acabou constituindo uma abrangente e complexa tradição de pensamento rica em modelos críticos” – essa é a questão assumida como princípio por Habermas a fim de nortear sua própria teoria crítica, cujo autor pontua os trabalhos presentes na obra “possuem uma pretensão propedêutica”, considerando-os como “estudos históricos preparatórios para uma investigação sistemática da relação entre teoria e práxis nas ciências sociais”.
Após uma longa introdução onde Habermas apresenta “algumas dificuldades na tentativa de medir teoria e práxis”, passa-se a analisar a teoria política clássica (“A doutrina clássica da política em sua relação com a filosofia social”), quando o autor conclui que a filosofia social acabou por se enganar a partir de seus próprios critérios, “na medida em que, considerando as consequências práticas de sua própria doutrina, só poderia oferecer algumas garantias sem exigir a segurança teórica naquilo que é o mais importante: como então a “pretensão da vida humana” poderia ser efetivamente realizada na transposição da teoria à práxis”. A obra prossegue com várias investigações críticas do autor: “Direito natural e revolução” (onde o autor evidencia a existência de “uma íntima relação entre filosofia e a revolução burguesa”, quando o apelo ao direito natural clássico nada tinha de revolucionário, de modo que a revolução se deu com o apelo ao direito natural moderno, demonstrando de que modo a práxis é orientada segundo os critérios de um Estado Social), “A crítica de Hegel à Revolução Francesa” (onde é feita uma releitura crítica de Hegel sobre esse ponto), “Sobre os escritos políticos de Hegel” (apresentando o surgimento do escritos políticos do filósofo analisado e apontando para a relação entre teoria e práxis desses), “A passagem do idealismo dialético ao materialismo: a ideia de Schelling de uma contração de Deus e suas consequências para a filosofia da história” (onde Schelling, mesmo não sendo um pensador político, tem sua filosofia da natureza analisada por Habermas numa releitura), “Entre filosofia e ciência: marxismo como crítica” (onde a teoria crítica e suas principais características são “revisadas” pelo autor, concatenando e explanando as ideias do marxismo), “Tarefas críticas e conservadoras da sociologia” (onde Habermas evidencia que “enquanto uma ciência da experiência que em sua construção lógica e nos procedimentos metodológicos se detém nas regras dos sistemas empíricos-teóricos [...], a sociologia permanece neutra diante das possíveis consequências políticas de seus resultados transpostos para a práxis”), “Dogmatismo, razão e decisão: sobre teoria e práxis na civilização cientificizada” (em sendo a práxis racional “interpretada na qualidade de libertação de uma coerção que se impõe externamente do mesmo modo que o esclarecimento foi concebido enquanto aquela teoria que pode se orientar pelo interesse nessa libertação”, a controvérsia existente entre dogmatismo e crítica acaba por demonstrar que a razão obtém vitória a cada nova etapa do processo emancipatório, tomando assim a razão partido nesse conflito – é diante disso que aqui Habermas demonstra a dificuldade de se distinguir poder técnico de poder prático), “Consequências práticas do progresso técnico-científico” (onde é proposta a distinção entre meios técnicos e regras técnicas, de modo que tecnologias seriam “as regras de ação instrumental” e estratégias as “regras da escolha racional”), “Sobre a transformação social da formação acadêmica” (contendo uma espécie de síntese da discussão sobre a reforma universitária), “Democratização da universidade – politização da ciência?” (onde Habermas defende que “a “politização” no sentido da autorreflexão da ciência não é apenas legítima, ela é condição de uma autonomia da ciência que hoje não pode mais ser preservada de maneira apolítica”, uma vez que todos os grupos existentes no âmbito da universidade “devem exercer influência sobre a organização de um ensino [...] que satisfaça as pretensões legítimas dos estudantes a uma escolha entre processos de estudo flexíveis ligados à preparação profissional e à autorreflexão da ciência”) e o adendo “Recensão bibliográfica sobre a discussão filosófico em torno de Marx e do marxismo” (uma recondução para a análise e discussão sobre Marx, o marxismo e suas bases).
“Teoria e Práxis” é um livro denso e complexo. Difícil de se ler em várias passagens – em que pesem as exposições do autor soarem compreensíveis quando de uma leitura atenta. Daí a necessidade de paciência para acompanhar as investigações filosóficas de Habermas – e isso vale a pena, pois o resultado é salutar, uma vez que, mesmo diante das dificuldades e eventuais incompreensões, é possível fazer uma análise retrospectiva com o autor em sua pretensão: “desenvolver uma teoria da sociedade projetada com um propósito prático e delimitar seu status diante de teorias de outra proveniência”.
Uma obra crítica, analítica e reflexiva. Vale a leitura!