Célebre por romances monumentais como Anna Kariênina e Guerra e paz, o conde russo Lev Nikoláievitch Tolstói era também um mestre da narrativa curta, como fica evidente em A morte de Ivan Ilitch, que Paulo Rónai considerava a mais perfeita e a mais vigorosa de todas as novelas. Tolstói utiliza a agonia de um jurista bem-sucedido para refletir sobre questões filosóficas como o sentido da vida e a inevitabilidade da morte, e sua opção por uma linguagem simples e direta não deve ser confundida com falta de elaboração literária. Na opinião de Vladímir Nabókov, ninguém na década de 1880 escrevia assim na Rússia, e a novela pode ser vista como precursora do modernismo russo, mesclando toques de fábula, uma entonação terna e poética e um tenso monólogo mental, no qual Tolstói aplica a técnica de fluxo de consciência. Despojamento vocabular e sofisticação estilística se unem em uma narrativa profunda e poderosa. Irineu Franco Perpetuo Jornalista e tradutor
A morte de Ivan Ilitch (Coleção Folha Grandes Nomes da Literatura #04) -
Lev Tolstói
Resenha de A Morte de Ivan Ilitch
Haverá sempre algo iminente na morte, uma contemplação singular. Quando pensamos sobre esse tema há quase como se um arrebatamento para uma questão existencial a respeito de nossos propósitos, amores e atitudes. E em A Morte de Ivan Ilitch somos apresentados a algumas dessas sensações enquanto conhecemos a miséria de um homem que descobriu em seu falecer nunca antes ter vivido. Escrito por Liev Tolstói, um dos gigantes da literatura mundial e autor do clássico memorável Guerra e Paz, a obra publicada em 1886 conta a triste história de um empregado público o qual encontra-se com um misterioso problema de saúde e a partir disso passa a ver sua vida por lentes melancólicas. Com menos de 100 páginas, a novela é iniciada já com a confirmação da morte do protagonista. No primeiro capítulo somos expostos à narrativa em terceira pessoa com um foco em Piotr Ivanovich, grande amigo do falecido oficial o qual apesar da relação com o finado, tem a menor das intenções de ficar na cerimônia e sequer demonstra algum sentimento sincero. Após uma introdução constrangedora a qual mostra o desinteresse das pessoas pelo personagem principal, acompanhamos então, da infância até o trágico dia de sua partida, a vida de Ivan. “Agora era ele quem tinha de morrer. Comigo vai ser diferente- eu estou vivo”. Há aqui um duro relato, Liev faz questão de apontar muito mais a fundo não apenas os movimentos de cada sujeito, mas suas reais intenções e sentimentos. Notamos uma situação mascarada e fria, sem empatia, com uma fuga da realidade a qual está apenas em busca de rápidos entretenimentos e status, para dessa forma, fugir de uma verdade perturbadora. Essa característica traz um novo modo de ver o ambiente, passamos a obra nos perguntando o porquê de todos serem tão sarcasticamente distantes e se isso realmente acontece em nossa sociedade. Nesse contexto, temos outro bom atributo o qual auxilia nessa estrutura, estamos falando da escrita do autor. É realmente encantadora. A descrição de ocorridos e a sutileza pela qual vai moldando a história dão à obra uma naturalidade a qual dificilmente vai se tornar enjoativa ou passar a sensação de conto forçado para o leitor. Isso cria uma boa fluidez e gentileza de modo a termos a liberdade para durante a leitura voltarmos algumas páginas de vez em quando e reanalisar de maneira mais profunda aquilo acontecido. Como consequência desses fatores, há um certo distanciamento do leitor para com os personagens, pois ele aproxima-se muito mais do narrador e isso pode gerar uma falta de empatia com os indivíduos e prejudicar o processo de imersão literária. Apesar disso, esse elemento traz à tona um novo tom. A narrativa toma, nesse sentido, uma abordagem de análise contemplativa, muito mais que acompanhar, nós “estudamos” as atitudes de cada indivíduo. É difícil conseguir resumir as conclusões de A Morte de Ivan Ilitch em poucas palavras, mas se pudesse descrever com uma sensação, seria de constrangimento. De certa forma é humilhante ver alguém transformando o milagre da vida em uma maldição de máscaras para impressionar a sociedade e é mais humilhante ainda percebermos que se não nos cuidarmos para não cair em tais erros, a narrativa dessa obra pode no fim ser sobre nós. Um clássico o qual auto explica o sucesso no transcorrer de suas páginas, crítica atemporal ao comportamento humano. Para mais resenhas, acesse: aprendilendo.com.br
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