Livro de contos em escrita fluida de frases contundentes. A autora faz um passeio descompromissado aos domínios de Nietzsche, Freud, Schopenhauer, Lacan, Camões e outros. Os textos trazem o fluxo de pensamento de personagens realistas, enfrentando conflitos internos universais, mas com uma voz peculiar, inquieta e inquietante.
Onde os pombos dormem -
Paula Mandel
Um lugar escuro e sujo chamado inconsciente
A técnica literária na qual se procura transcrever o complexo processo do pensamento de um dado personagem chama-se fluxo de consciência. Desta forma, surge um texto ficcional onde o raciocínio lógico é entremeado por impressões momentâneas e processos de associação de ideias. Misturam-se os parâmetros de consciente e inconsciente numa escritura que, via de regra, rompe com a sintaxe e a pontuação. Busca-se dessa forma aproximar ao máximo, o ritmo textual ao fluxo do pensamento humano. O foco narrativo deixa de estar situado num fato externo colhido pela intermediação do escritor, para ser experiência pessoal, na qual narrador e tema se confundem. A verdade é que em textos dessa natureza, não importa (tanto) a lógica do acontecimento relatado, e, sim a ‘veracidade’ interior, subjetiva. Ou seja, cria-se uma verdade artística esculpida pela personalidade enfocada que tanto se deixa influenciar por fatores externos quanto alterna a interpretação da realidade. Complicado? Não. Há inúmeros exemplos de obras catalogadas entre os clássicos da literatura universal que se utilizaram dessa técnica...Mas falemos de um pequeno volume de contos. “Onde os pombos dormem” de Paula Mandel. Editora Benfazeja, São Paulo, 2016, 64p. Em 19 textos curtos a autora se utiliza largamente do chamado fluxo de consciência, onde se revela uma ficcionista de paisagens íntimas com preferências pelos tons sombrios e notas pessimistas. Mas não se vá bombardear a autora com censuras de pouca generosidade ou niilismo desvairado. Há espaço também para reflexões profícuas e fino humor. A técnica é a da abordagem direta e franca, sem rebuços, de uma realidade que por vezes desce a detalhes do grotesco de uma personalidade doentia, em verdadeiro entorpecimento moral, como acontece no conto-título: Onde os pombos dormem. Se tal foco narrativo pode induzir a um estreitamento da visão de mundo, tendo em vista que a narrativa se realiza a partir das impressões dos personagens, há de se perceber também a riqueza psicológica que disto aflora, graças à impressões, lembranças, livres associações e outras atividades mentais que a narrativa proporciona. Como ocorre, por exemplo, no conto “A cama de Nietzsche” que nos pareceu ser exemplo bem acabado daquela espécie de delírio que por vezes nos acomete, entre o sono e a vigília. Há neste texto inclusive uma frase que bem denota o contexto da ficção de Paula Mandel: “a consciência é só o topo do bolo, o que tem debaixo é o que interessa”. Cumpre acrescentar finalmente, que da pequena coletânea um texto merece destaque: “As fábulas das mandíbulas”. Destaco e aplaudo porque encontrou em meio a um vivo andamento estilístico, o entrosamento entre documentário social da situação atual desse país e o estado psicológico que se abateu sobre a população de uns tempos a esta parte. Determinado sujeito afirma no inicio do texto: “Hoje fui decapitado”. Tal personagem é chamado à sala do patrão; este, por sua vez, é caracterizado como: “filhinho do papai. O pai dele e antes dele o avô e antes o bisavô e antes o tataravô, todos intimamente ligados à política nacional. Alimentaram umas três ditaduras”. Vamos em frente. Na sala do empregador: “Mordida guilhotina do chefe, mordida de poucas palavras, econômica. Economia rolou ladeira abaixo, governo tísico de esquerda. Corte de despesas. Crise. Cortou minha cabeça. Típico. Sem conversa só mordida. Seca cirúrgica. Quando exigi motivação, sorriu predador.” E, de descida em descida na escala da qualidade de vida, o sujeito acaba numa ‘manifestação de rua’. E “na passeata pão e circo”. “Camisa vermelha irritando touro na arena. Verde-amarelos incomodados cercando camisa vermelha”. Até que finalmente se vê, o pobre diabo, em meio à maior pancadaria de rua: “O vermelho e o verde-amarelo em guerra na arena da passeata... multidão de oitenta dentes se fechando em mim. Dentes vermelhos dentes verde-amarelados da mesma mandíbula do mesmo jacaré de oitenta dentes”. Vale a pena conferir no livro a conclusão a que chega este atormentado personagem. Grande metáfora desses dias de cinismo grotesco em que o Brasil está mergulhado. Muito bem. Aguardamos com vivo interesse, outras obras de maior envergadura e variantes ficcionais de Paula Mandel, que revela extraordinária vocação para o exame da alma humana.
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