O segundo livro do bimestre dedicado às obras de Ken Follett foi este novelão ambientado a bordo de um hidroavião, numa longa viagem sobre o Atlântico Norte, ligando a Inglaterra aos Estados Unidos.
Chamo de novelão no bom sentido, porque Follett, aqui, trabalha no clássico esquema das novelas. Vários núcloes de personagens e tramas paralelas se entrelaçam ao longo da história e, de alguma forma, estão conectadas à trama principal.
Um trabalho hercúleo, há de se dizer. E que o autor executa com grande destreza. Vamos conhecer a trama.
A trama - Em setembro de 1939, após a invasão da Polônia pela Alemanha, a Inglaterra declara guerra ao terceiro Reich. Temendo o pior, muita gente tenta deixar as ilhas britânicas enquanto há tempo.
O destino principal é a América do Norte, em especial os Estados Unidos. A grande procura gera superlotação nos navios e no único hidroavião a fazer a travessia do Atlântico pelo ar: o Boeing 314 Clipper, operado pela Pan American.
O primeiro voo do Clipper de volta a Nova York após o início da guerra carregará uma série de passageiros ansiosos para se afastar da Europa por diferentes motivos. Entre eles, um voará com uma missão secreta: impedir que outro passageiro coloque os pés em território norte-americano.
Personagens centrais - Acho que de todos os livros de Ken Follett que eu já li, este é o que tem mais personagens. Ok, a Trilogia do Sécuto é bastante prolífica também nesse aspecto. Mas lá, pelo menos, as tramas paralelas não estão tão interligadas como aqui. Esse é o grande desafio do autor: construir histórias paralelas e interligadas que caminhem para um desfecho comum que faça sentido e sem grandes truques forçados.
Uma inovação que surge a partir do excesso de personagens é a falta de um único herói. A luta do bem contra o mal ocorre no campo da coletividade, com várias personagens boas e más atuando em paralelo, ou em conjunto.
Desde o princípio, porém, sabemos que um dos vilões é Tom Luther. Industrial norte-americano, anticomunista, antisemita, ele é adepto de medidas heterodoxas para intimidar os trabalhadores de suas empresas. Contrata mafiosos da gangue de Ray Patriarca para promover espancamentos e sequestros de líderes trabalhistas, incêndios nas casas dos trabalhadores mais contestadores, etc. É um simpatizante nazista e logo no início do livro recebe a missão de impedir que um outro passageiro do Clipper chegue aos Estados Unidos.
Não saberemos com certeza, até o final do livro, quem é o passageiro que Luther deve impedir de chegar a Nova York. Mas sabemos logo em seguida como ele pretende fazer isso: coagindo o engenheiro de voo Eddie Deakin, o responsável pela manutenção do Clipper. Às vésperas do voo, Deakin recebe um telefonema dos Estados Unidos. A esposa dele foi sequestrada por criminosos. Eles ameaçam estuprá-la matá-la se ele não fizer o que Tom Luther mandar a bordo do voo.
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Personagens secundárias - Além desses dois, cujos papéis são fundamentais para a manutenção da trama central, o livro tem uma extensa lista de personagens paralelas, a saber:
Margaret Oxenford é uma jovem aristocrata britânica com ideias socialistas que quer se alistar no Serviço Territorial Auxiliar para ajudar no esforço de guerra. Seu pai, porém, o Marquês de Oxenford, é o fundador da União Fascista Britânica. Ameaçado de prisão em seu país, lorde Oxenford decide fugir com toda a família para os Estados Unidos, o que inclui o filho Percy, um jovem adolescente que enfrenta o pai o tempo todo, e a esposa, Lady Oxenford.
O charmoso e sedutor Harry Marks tem pinta e sotaque de aristocrata, mas é um charlatão que usa seu encanto para seduzir senhoritas ricas e feias da nobreza inglesa. Ele explora a carência afetiva delas para frequentar o círculo de amizades endinheiradas e praticar pequenos furtos de jóias e de dinheiro em espécie. Preso no início do livro por um desses furtos, ele consegue se safar e usa um passaporte falso para embarcar no Clipper e fugir para a América.
Mark Alder é um jovem roteirista norte-americano que escreve textos de humor para o rádio. Solteiro, bem sucedido, ele estava em férias na Inglaterra quando conheceu e se apaixonou por Diana Lovesey. Ela é linda, elegante, uma mulher fogosa aos 35 anos. O problema dela é ser casada. Como estava infeliz no casamento, Mark a convence a recomeçar a vida com ele na Califórnia, onde mora, e os dois compram passagens no voo que vai sair de Southampton para Nova York.
O marido de Diana é Mervey Lovesey, um engenheiro também muito bem sucedido, dono de uma fábrica de rotores que vai se tornar ainda mais rico produzindo motores para os aviões de guerra da RAF. Não é a primeira vez que Mervey é abandonado. A primeira esposa, com quem teve dois filhos, também o trocou por outro homem. Ele não está disposto a perder a segunda esposa da mesma forma. Apaixonado por aviação, ele sabe pilotar e tem um avião próprio, que mobiliza para voar em direção a Foynes, na Irlanda, a tempo de interceptar a esposa na primeira escala do Clipper em direção à Nova York.
O voo de Mervey vai acabar servindo para salvar Nancy Lenehan de uma rasteira em seus negócios, uma fábrica de calçados nos Estados Unidos. O irmão dela, Peter Black, embarcou no Clipper sem avisá-la porque pretende promover uma reunião de acionistas para vender a fábrica de sapatos deles. Sem a presença dela, que voltaria para os Estados Unidos de navio, ele teria maioria para aprovar a operação. Ao descobrir a tramoia, Nancy pega carona com Mergey para chegar ao Clipper na escala de Foynes.
Personagens estruturais - Além de todas as personagens secundárias, Follett embarca no Clipper ainda mais cinco personagens que eu chamei de estruturais. Embora passem quase o tempo todo à margem da história, os papéis dessas personagens são estruturantes para a trama.
Carl Hartmann é um físico nuclear alemão de origem judaica em fuga para os Estados Unidos.
Ele viaja em companhia do barão Philippe Gabon, um banqueiro francês que usa sua fortuna e influência para ajudar a tirar judeus da Alemanha.
Ollis Field e Frank Gordon são dois passageiros misteriosos que viajam juntos e jamais abandonam a aeronave nas escalas técnicas. Adiante saberemos quem são eles, mas vou evitar o spoiller.
Clive Membury é outro passageiro silencioso, que entra mudo na história e praticamente sai calado. Só descobriremos a verdade a respeito dele bem no final do livro.
Finalmente, há mais algumas personagens decorativas, mas realmente marginais:
Peter Black, irmão de Nancy Lenehan, e Nat Ridgeway, o executivo da empresa que se aliou a Peter para dar o bote em Nancy.
Princesa Lavínia, uma nobre russa destronada e Lulu Bell, uma atriz de cinema. Nenhuma das duas tem sequer uma trama paralela.
Cenas quentes - Uma coisa que chama a atenção no livro é a frequência e o calor das cenas de sexo.
Follett sempre foi bastante interessado em descrições de relações sexuais entre suas personagens que beiram o erótico.
Neste livro, porém, ele atravessa várias linhas para ir aos detalhes mais picantes. É um tal de vuco-vuco pra cá, vuco-vuco pra lá... Tudo bem, o mundo estava entrando em guerra e ninguém saberia dizer o dia de amanhã, mas acho que o autor atravessou um pouco o samba nesse aspecto.
Recomendação de leitura - O livro é um novelão e vale a pena a leitura para admirar a técnica do autor em conduzir tanta