“Tentar ser um menino é muito difícil.”
“George” é um livro infanto-juvenil diferente de qualquer outro e é muito necessário no mundo em constante mudança e transição de hoje. É a simples e bela história de uma menina de dez anos chamada Melissa que deseja profundamente interpretar a personagem Charlotte na peça de sua escola. O problema? Melissa é George e é assim que todos ao seu redor a veem.
Melissa se sente presa em um corpo que não lhe corresponde, tem medo de olhar seu estranho órgão sexual, de tomar banho, odeia aula de ginástica e seus ‘amados’ colegas de classe. No entanto, apesar de sua situação sombria, quando ela está triste, por exemplo, e olha escondida dos familiares revistas voltadas para o público feminino, a garotinha está cheia de esperança ansiando por dias melhores.
Nunca tive a oportunidade de ler uma protagonista transgênero tão jovem, e foi uma experiência curiosa. Ao longo do livro, vemos o crescimento da protagonista e como ela está aprendendo no dia a dia a se aceitar, ficando cada vez mais à vontade para ser quem realmente é.
Também gostei muito dos personagens secundários, eles contribuíram com o que era necessário e particularmente virei fã do Scott, o irmão mais velho da nossa heroína. E Kelly, a melhor amiga de Melissa também foi uma grata surpresa. Quem dera toda criança transgênero tivesse uma amiga que nem a Kelly, seu mundo sombrio seria um tanto mais leve e aprazível.
Em contrapartida, a mãe de Melissa me pareceu um tanto ‘datada’. Atualmente, mães e pais de crianças transgêneros têm se mostrado mais aberto a entender sobre o tema, a dialogar mais sobre o assunto e vislumbramos um esforço maior da geração anos 80/90 do século passado de compreender quem é a criança diante deles.
A mãe cometeu alguns deslizes que, sinceramente, senti que o autor queria vilanizá-la. Erros irão acontecer advindos de genitores com filhos trans? Certamente que sim. Mas são erros de tato, de ignorância, e obviamente, do medo que os acomete de ver seus filhos sofrerem represálias de uma sociedade extremamente transfóbica. Sinto que faltou elaborar melhor o desenvolvimento da mãe.
Eu li o e-book desse romance do Alex Gino com o título ‘George’. Para mim foi um erro gravíssimo. O título mais apropriado para o livro seria “Melissa”, porque, a meu ver, é a história de uma criança que se identifica como menina trans. No mais, em alguns trechos durante a narrativa dessa história sentir levemente a perpetuação de estereótipos sobre papéis de gêneros.
O estilo de escrita de Alex Gino é muito simples, objetiva e direta. Não tem uma linguagem rebuscada, e acho que é muito coerente com o público a que se destina: infanto-juvenil. Ver que temas tão importantes são tratados nesse tipo de literatura me parece maravilhoso. Sim, é importante.
Continue pensando nas pessoas e saiba que existem crianças que estão vivendo situações parecidas com a da nossa heroína e que podem ficar chateadas ao ver que muitas pessoas não se abrem para aceitar a diversidade. É um passo importantíssimo abre o debate sobre diversidade na literatura infanto-juvenil. Bookstan, já estamos no ano de 2023 do século XXI e o tempo urge por mudanças favoráveis em favor da defesa da vida dos transgêneros 🏳️⚧️ ⚧
Na minha perspectiva, o autor fez um ótimo trabalho para criar uma história que vai direto ao ponto. Suavizou a complexidade que é inerente ao tema e que abre a possibilidade de refletir e tomar consciência de que qualquer um pode estar passando por isso, é preciso deixar de lado seus preconceitos e estar disposto a aceitar a todos igualmente.
Leitura recomendadíssima para o público infanto-juvenil.