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    Aqui, no coração do inferno -

    Micheliny Verunschk

    Patuá
    2015
    150 páginas
    5h 0m
    ISBN-13: 9788582972984
    Português Brasileiro
    4.1
    34 avaliações
    Leram44Lendo4Querem68Relendo0Abandonos0Resenhas3
    Favoritos3Desejados68Avaliaram34

    Leia a orelha do livro Aqui, no coração do inferno, texto de Maria Valéria Rezende: Os grandes poetas e ficcionistas têm uma antena pronta a captar o que há de ser então narrado pois precisará ser lido mais adiante, quando só a imaginação for capaz de interpretar os fatos, ou seus disfarces, e desvelar a verdade escondida. Micheliny Verunschk tem essa antena muito sensível! Este romance começou a ser escrito (e reescrito) há anos, para estar pronto e vir à luz exatamente quando se tornou indispensável para nos ajudar, sobretudo aos mais jovens, ao difícil exercício de reconhecer e compreender as sombras de nosso passado, não muito remoto, projetadas sobre nosso presente caótico e incerto, porque “bandidos e heróis podem trocar de papel de um jeito que, às vezes, a gente pode não saber mais quem é quem”. Começa -se por ouvir a voz da adolescente, curiosa, inteligente e observadora, tentando articular o que vê e ouve, aberta ou clandestinamente, no povoado onde vive, dentro de casa, nas gavetas do pai (estranho delegado de polícia, cheio de segredos), nas perguntas e explosões de rebeldia da irmã mais velha, em sua própria intimidade, com fragmentos de informação retidos da escola para entender e interpretar a seu modo a história que quer contar. O desafio para ela e para todos nós, sempre, é ser capazes de “costurar uma história na outra”, sabendo porém que “nem tudo precisa ser explicado numa história. Se precisasse, não faria sentido existir a imaginação.” Uma voz que ao longo do livro-tempo amadurece, à medida em que descobre aquilo que conta. História à qual os que insistem em pegar etiquetas aos livros poderiam aplicar apressadamente o carimbo de "regionalismo", de "realismo mágico "... mas aqui se trata não apenas de uma história contada com maestria, mas de um aprendizado, de um campo onde se podem colher códigos e pistas para ler melhor, investigar como a narradora, ficar atentos ao estranho que é o mundo hoje, ontem, agora, aqui e alhures, e defender-se de suas armadilhas. Arme-se o leitor, portanto, de imaginação e coragem para empreender esse árduo caminho em busca da verdade, o caminho que nos resta.

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    Resenhas (3)Ver mais
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    Berttoni Licarião29/04/2019Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Algo me dizia para ler todos os livros da ‘Trilogia infernal’ antes de me aventurar a escrever resenha para qualquer um dos volumes. Houvesse contrariado meus instintos e teríamos, agora, um comentário completamente diferente: cheio de lacunas, suposições, erros de trajeto e julgamentos antecipados. Aqui, a ditadura brasileira — que é o grande tema da trilogia — aparece como sombra de uma violência assombrosa, ainda embrionária e fragmentada pela visão de uma adolescente que narra sua história a partir do dia em que seu pai, delegado de uma cidade do interior, decide manter prisioneiro em casa um jovem acusado de “comer gente”, como forma de evitar que o rapaz fosse linchado pelos moradores da ficcional Santana do Mato Verde, “lugarzinho violento do caralho” no interior do Brasil. . Neste primeiro capítulo, o tom jovial e desbocado da narradora adolescente provoca logo cedo uma cesura entre a violência privada (vista como interdita, incompleta, nunca elaborada) e a violência pública, cotidiana e impessoal, prato cheio aos olhares famintos das bocas do povo. . “Especialista em abrir gavetas”, Laura vai aos poucos se dando conta que o passado de sua família e a história do rapaz canibal preso a um mastro na cozinha são igualmente perpassadas por uma violência estrutural, um modo de ser e resolver disputas que fazem do espaço do romance um microcosmo do país. Como diz a narradora a certa altura, “o Brasil é aqui, no coração do inferno”: preso a um passado fadado a se repetir, com um cemitério à entrada e outro à saída, o país do futuro se nutre das carcaças de sua própria indiferença. . Contra a atrofia da memória, “costurando uma história na outra”, a narrativa de Laura busca a verdade sobre sua mãe, algo que a resgate da anomia dos desaparecidos políticos da ditadura. Aqui, como em todo lugar, "o passado continua existindo, mas a gente não percebe, porque a gente tá muito envolvido em tentar entender o quebra-cabeça, que é apenas uma distração". É preciso, como manda a canção, estar atento e forte.

    3 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.1 / 34
    • 5 estrelas35%
    • 4 estrelas38%
    • 3 estrelas24%
    • 2 estrelas3%
    • 1 estrelas0%
    Micheliny Verunschk  profile picture

    Micheliny Verunschk

    Possui graduação em História (AESA-PE), Mestrado em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP) e Doutorado em Comunicação e Semiótica (PUC -SP). É pesquisadora dos grupos de pesquisa "Comunicação e cultura: barroco e mestiçagem", e do Centro de Estudos da oralidade, ambos do Programa de Comunicação e Semiótica da PUC SP. Atuou na área de Comunicação do Instituto Itaú Cultural e nas áreas de programação cultural da Casa das Rosas e Biblioteca São Paulo. É escritora com onze livros de prosa e poesia publicados e tem experiência em jornalismo cultural, produção cultural e na coordenação editorial de materiais de apoio ao professor e catálogos de artes. Ganhadora dos Prêmio Jabuti e Oceanos de Literatura na Categoria Romance do ano de 2022. É palestrante convidada para eventos referentes à cultura e literatura brasileira contemporânea. Atua principalmente nas áreas de comunicação, história, literatura brasileira e portuguesa, poesia, prosa e cultura.

    23 Livros
    65 Seguidores
    Pernambuco, Brasil

    Micheliny Verunschk