Existem frases que iniciam um determinado livro que se tornaram tão ou até mais famosas do que as obras que as contêm. Quem leu Anna Karenina, com certeza, não se esqueceu da famosa “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira” ( pag. 11 -, Volume I - Abril Cultural 1982) . E o que dizer da impactante “Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem” ( O Estrangeiro/ Albert Camus, pag. 7 – Record -1999) . Mas por quê me lembrei dessas frases? O que elas têm a ver com o romance do Mia Couto Sombras da água? Foi porque Mia Couto inicia o romance com uma frase que muito me intrigou: “ Tudo começa sempre com um adeus”. Pois não é que dias antes de me aventurar no romance eu assistira ao filme “Palavras e Imagens”, e o professor – um dos protagonistas –, um apaixonado pelas palavras, faz uma referência a palavra ADEUS e explica que ela é uma abreviação da expressão “ A Deus vos recomendo” ( A- Deus) . Fiquei impressionada com a coincidência e pelo peso que Mia deu a essa frase: Imani se despedira do seu passado, da sua adolescência sem, contudo, deixar de profetizar que no seu futuro iria se deparar com antigas amarguras e , sendo eu sabedora, por meio da leitura de “ Mulheres de Cinza” ( I livro da trilogia), do romance existente entre a jovem nativa e o sargento português Germano Melo, não foi difícil deduzir que seria ele uma das causas das amarguras que assolariam a jovem. E é retratando o romance de Imani e Germano Melo, pelo entrelaçamento dos acontecimentos vivenciados pela jovem com as cartas do Germano Melo (cartas sentidas, doloridas) , que vamos conhecendo o sucedido nos últimos dias do antigo Estado de Gaza que tinha como imperador Gungunhana, não somente pela visão dos vencedores, mas também pela visão dos vencidos – se é que se pode dizer que em uma guerra há vencedores e vencidos.
Apesar de,neste II volume prevalecer o romance, senti uma escassez da poesia inerente à prosa do Mia ( escassez e não isenção) escassez que é compensada pela humanidade a que fui acometida. “Ninguém é uma pessoa se não for toda humanidade” – citação contida às pags.67 -( um Dito de Nkokolani , local onde discorre parte da ação) , e essa foi a minha grande lição: A Humanidade , de forma que, o lado histórico do romance não passou de mero coadjuvante. Seria esse o propósito do Mia, além de recriar uma fato histórico: provocar uma reflexão sobre o modo que nos relacionamos com pessoas de diferentes etnias? A leitura que fiz indica que sim.
Apesar de Mia Couto nos presentear, mais uma vez, com uma leitura arrebatadora ( me agradou muito mais que Mulheres de Cinza- o I volume da trilogia) , demorei muito para concluir a leitura, pois assim como Imani eu fui assolada pela amargura. Como ela, perdi um ente querido. Meu pai – o “ velho” Tino - às vésperas de completar 92 anos, nos deixou , e, quando me depararei com a última frase do romance, não pude deixar de dedicar a leitura que fiz deste livro a ele: A- DEUS, “velho” Tino . A Ele vos recomendo. Como uma palavra pode nos atingir de forma tão avassaladora... Sim, Mia Couto tem razão: Tudo começa com um Adeus, até o eterno silêncio.