A obra revela o olhar de uma escritora que se colocou na vanguarda de seu tempo e marcou definitivamente a moderna poesia brasileira. Textos curtos, poemas fragmentados, cartas, páginas de diário criam um jogo com o qual a poeta brinca e celebra a vida. Ana Cristina Cesar quebra regras, ousa além da frase, mistura sombra e luz, não hesita em se apropriar da fragmentação do mundo para, em seguida, recriar a seu modo imagens que sensibilizam o leitor.
A teus pés (Série Cantadas Literárias #8) -
Ana Cristina César
Para além da poesia marginal; aqui não há urgências.
"Por aquelas escadas subiu feito uma diva. Nervosa, irônica, crispada, inteligentíssima. Atenta demais, quem sabe?" [Descrição por Caio Fernando Abreu sobre Ana C.Cesar] Ana Cristina César nasceu em 2 de junho de 1952, Rio de Janeiro. Tradutora, fez letras e também escreveu para revistas e jornais alternativos. Lançou seus primeiros livros em edições caseiras e independentes: "Cena de abril" (publicado em 1979) junto com "Correspondência completa". Este foi o meu primeiro contato com a escrita de Ana Cristina César e esse primeiro contato, foi significativo, desconcertante, nem sempre compreensível em alguns momentos, admito. Então, a forma estética desse livro é totalmente fora da curva, não há diferença entre prosa e poesia; misturam-se. Aqui temos uma escrita diferente, quebradiça, profunda, autobiográfica e nada convencional. Não é atoa que este seja um livro muito importante para a literatura brasileira assim como a ilustre poetisa Ana Cristina César. Alguns críticos quanto autores, comentam e assemelham a Ana C.C. como uma figura de peso na classificação literatura/poesia "marginal", ou seja, aquilo que tá "a margem" do que esteja estabelecido em um âmbito social-literário. Um breve exemplo e grande nome desse movimento é o próprio Paulo Leminski. (*)A Poesia Marginal, ou Geração Mimeógrafo, foi um movimento poético brasileiro dos anos 1970, surgido na ditadura militar, caracterizado pela produção e distribuição independente (mimeógrafos, panfletos) fora das editoras tradicionais, usando linguagem coloquial, urbana, humor e coloquialidade.* Em síntese, há uma certa urgência na poesia marginal em relação a produção e o foco total em um conteúdo objetivo, oral e espontâneo. A famosa distribuição e panfletagem. Em " A Teus Pés " não existe urgências, a escrita da autora é de uma certa forma requintada, diversas vezes guardadas no fundo da gaveta, revisitadas incansavelmente, trabalhadas e editadas. A própria Ana C.C. comentou que há referências e até fragmentos espelhados de outros poetas em sua obra: " fico pensando se não roubei demais ", diz a autora no final. Temas que aborda o cotidiano urbano com o foco em cenas externas, esquinas, cidades e cômodos vazios; uma sucessão de imagens, cenas embaladas de um expressão intimista e imersa em uma potência poética por vezes, melancólica. " O salto da poesia para a morte." Ano de 1983, aos 31 anos, Ana Cristina Cesar cometera suicídio atirando-se do sétimo andar do apartamento dos pais, em Copacabana; Rio de Janeiro. Um anos após a publicação do livro, precipita-se o voo impulsivo e encontro eterno sobre "A Teus Pés". Seu último livro publicado, hoje em dia, consagrado, onde a prosa poética e cartas póstumas a tua morte drástica, fazem jus a sua inteligência e criatividade aguda. Ana Cristina Cesar, Poética – Sábado de aleluia [fragmento] "Escuta, Judas. Antes que você parta pro teu baile. A morte nos absorve inteiramente. Tudo é aconchego árido. Cheiro eterno de Proderm. Mesa posta, e as garras da vontade. A gana de procurar um por um e pronunciar o escândalo. Falar sem ser ouvida. Desfraldar pendengas: te desejo. Indiferença fanática ao ainda não. Desde que voltei tenho sobressaltos ao ouvir tua voz ao telefone. Incertas. Às vezes me despeço com brutalidade." É uma leitura muito intensa e íntima, como se tivéssemos lendo um diário, fragmentos de memórias e impressões recortadas e diversas. Amo poesia mas esse livro foi um desafio. Recomendo fortemente a leitura.
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