Heróides (Clássicos) -

    Ovídio

    Cotovia
    2016
    200 páginas
    6h 40m
    ISBN-13: 9789727953707
    Português

    Um poeta de amor. Homem. Dezoito personagens lendárias. Mulheres. E mais dezoito, igualmente mitos. Homens. Cartas. Todos estes elementos se cruzam aqui, neste estranho livro. O poeta é Ovídio, o poeta de amor de Roma. Do amor físico, do amor-prazer, que outro não concebe ele. As mulheres são a voz que fala nestas cartas de amor, que são também cantos de ausência e separação, ciúme e traição, queixume e apelo, lamento e indignação. Os homens são o outro lado do correio epistolar. Escritas na primeira fase da vida de Ovídio e contemporâneas da demais poesia de amor ovidiana – Amores, Arte de amar e Remédios contra o amor – as Heróides talvez sejam a primeira colectânea poética assumidamente de autoria masculina e de voz feminina na história da literatura ocidental. E isso é bem ao arrepio da hierarquia social do seu tempo, se tempo tiveram, e do tempo do poeta que assim as faz reviver. A presente edição dos Livros Cotovia é uma tradução do latim de Carlos Ascenso André.

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    Régis Maz13/10/2023Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Ampliando o universo mitológico feminino

    As cartas das heroínas de Ovídio foram escritas provavelmente entre 20 e 16 a.C., o livro é uma seleção de 15 poemas epistolares que o autor traz como se fossem escritas pelas heroínas da mitologia grega e da mitologia romana. Elas são a contraparte das histórias dos heróis; as heroínas que foram largadas a própria sorte, desonradas e postas de lado restando a elas como único recurso escrever para seus amantes. E ainda possui uma segunda parte com 6 poemas adicionais, compostos por trocas de cartas entre célebres casais. Exemplo de algumas cartas: •Penélope fala para Ulisses de sua sorte, cercada por pretendentes gananciosos e tendo que recorrer a artimanhas para evitar ser desposada novamente. •A carta de Fílis para Demofoonte é comovente e revoltante; ela, assim como Dido fez com Enéias, acolheu como hóspede um viajante que a desposou e partiu, deixando-a sozinha e arruinada a ponto de se entregar à morte. E é dessa carta que vem a frase que erradamente é atribuída a Nicolau Maquiavel... em uma passagem Fílis pergunta para seu marido Demofoonte: “Os fins justificam os meios? Quero que fracasse aquele que pensar desse jeito”. •Na carta de Briseis para Aquiles, ela cita a cólera desenfreada e o ressentimento do guerreiro que o impedem de perdoar Agamêmnon e recebê-la novamente em seus braços. Esses são apenas alguns exemplos do desabafo das mulheres que foram deixadas à espera do retorno de seus amantes, e que relatam os sofrimentos e provações pelos quais tiveram de passar durante a ausência insensata daqueles a quem haviam entregue seus corações. São cartas imaginadas por Ovídio com uma profundidade de sentimentos impressionante; revelando a revolta, o amor, a saudade e a devoção incondicional das heroínas da mitologia. O autor consegue comover ao mostrar os dramas da sensibilidade feminina, acrescentando partes da história dessas mulheres que não são encontradas em outras literaturas. Aqui ele recria e amplia o universo mitológico feminino de forma inovadora, mostrando a tragédia de personagens que só conhecemos das narrativas superficiais inseridas nos mitos. A tradução dessa edição é maravilhosa e possui uma linguagem atual e acessível que deixa a leitura mais prazerosa e imersiva! Eu gostei muito da carga emocional contida em cada carta e me emocionei muito com algumas. Esse livro é um grande clássico que merece ser lido por todos... Recomendo.

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