Tendo como pano de fundo os horrores da Segunda Guerra Mundial e a ditadura de Getúlio Vargas, o brasileiro Carlos Drummond de Andrade criou um livro único que captou a agonia e as dores de um mundo em colapso. Publicada em 1945, «A Rosa do Povo» reúne 55 poemas e é apontada como a obra de maior expressão do lirismo social e modernista do autor, bem como o espelho de uma época terrivelmente sombria e de perda de fé na Humanidade. edição fac-símile
A rosa do povo -
Carlos Drummond de Andrade
A poesia quer sair, o poeta quer gritar
Desde que conheci a poesia de Carlos Drummond de Andrade, não parei de me interessar pela obra do poeta. Talvez tenha contribuído para meu imaginário pessoal algumas fotos e matérias que li a respeito dele na época da escola. Para mim, Drummond será sempre aquele velhinho pacato, elegante, símbolo máximo do que é ser um funcionário público que, fora do holofote e da atenção alheia, fazia mágica com as palavras. No entanto, A rosa do povo quebra um pouco desse personagem idealizado que de alguma maneira construí ao longo dos anos. Esse é um livro diferente. Afinal, não poderia ser igual aos anteriores, ainda mais na época em que foi lançado. O mundo em que Drummond concebeu A rosa do povo era um caos - não que hoje o nosso seja menos caótico, é claro. Porém, era a época do final do Estado Novo de Vargas - regime em que Drummond era observador íntimo a partir de algum escritório do Ministério da Educação, comandado por seu amigo pessoal Gustavo Capanema, e, imagino eu, sem poder fazer muita coisa, se destroçava por dentro -, do terrível e final saldo da Segunda Guerra Mundial, da lenta e desigual industrialização do país do futuro e da ascensão de duas potências que dividiram - e ainda hoje dividem, mesmo que simbolicamente - o mundo. Um espaço-tempo turbulento, portanto, e é nessa turbulência que o poeta disseca a palavra, tira dela todo o brilho e deixa ela seca, seca como as inquietações de sua cabeça. E é aí que também aparece com força total a figura do poeta engajado, uma versão que meu imaginário desconhecia. O tempo presente, como muitos estudos afirmariam depois, foi a matéria-prima dos poemas de A rosa do povo. Livro de poemas extensos, A rosa do povo não é, na minha irrelevante opinião, o melhor livro para conhecer o poeta. Mas, como sou eu que escrevo, vou fazer uma indicação. Acho que é melhor conhecer Drummond, assim como foi meu caso, através de Alguma poesia, livro que deve ser considerado de vanguarda por muito tempo ainda. Entre os 55 poemas do livro, preciso destacar alguns neste singelo texto, como de praxe. Gosto particularmente da parte inicial, que contém a secura do tempo captada por Drummond em, por exemplo, Procura da poesia, A flor e a náusea, Carrego comigo e O medo. Gosto também da confusão proposta pelo eu lírico em Rola mundo e Assalto, da capacidade sintética e sensível de Áporo, do belíssimo Movimento da espada - inspiração para música homônima de Giovani Cidreira que apareceria no mundo apenas em 2017 -, do premonitório e de uma lucidez espantosa Caso do vestido, do antológico Morte do leiteiro, do provocativo Noite na repartição, que parece quase uma prosa, e por fim mas não menos importante, dos lindos versos de Consolo na praia. Drummond, poeta essencial, não é tempo desperdiçado, é tempo vivido. Leia se tiver a oportunidade.
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