Neste livro vemos o autor fazer desde as reflexões mais simples sobre a vida a críticas muito importantes sobre a sociedade e a política da época.
Mário relutava em nomear sua arte lírica de poesia, preferia chamá-la de anotações líricas de momentos vividos, achava que a poesia tinha que ir além do que se conhecia, mas não se atrevia adiantar-se. Gostava de usar palavras e trechos que não se ligavam aproveitando a sonoridade de nossas palavras para criar suas poesias sem rima e, apesar das linhas melancólicas de suas obras, quis destacar em muitos momentos que a melancolia não representava seu estado de espírito, pois era muito feliz.
Tornou-se poeta em uma época que o Brasil se encontrava diante de diversas mudanças políticas, econômicas e sociais, sendo que o autor foi um dos precursores da arte moderna em nosso país.
“Minhas reivindicações? Liberdade. Uso dela;
Não abuso.”
Em homenagem a cidade de São Paulo, a editora Martin Claret resolveu lançar essa edição que contém diversas obras em verso do autor que dedicou sua vida a retratar a São Paulo que habitava em seu coração. Reúnem-se entre elas “Pauliceia desvairada” sua primeira obra a fazer sucesso e cujo prefácio interessantíssimo é visto como um manifesto poético, “Losango Cáqui”, “Clã do Jabuti” onde o autor tira o foco da cidade de São Paulo e usa do seu lirismo singular para perambular com seus versos por outras regiões do Brasil, “Remate de males”, “O carro da miséria”, “A costela do grã cão”, “Livro azul”, “Café” e “Lira paulistana” em que o rio Tietê é sua principal inspiração poética.
Poesias foram feitas para serem apreciadas aos poucos e com muita serenidade, os versos lidos com urgência perdem o encanto e a beleza, por isso, durante todo o mês de março e comecinho de abril, muito tranquilamente, me permiti caminhar pelas ruas da São Paulo dos anos vinte, senti a garoa fina que cobria a cidade em meu rosto e me vi as bordas do Tietê quando ele ainda podia ser chamado de rio. Senti amor por essa cidade sem nunca sequer a ter visitado além das páginas e versos de Mário de Andrade e fiquei ainda mais impressionada com suas fortes opiniões políticas e admirada em como ele conseguiu passar cada sentimento de revolta através de sua arte.
“Mas porém é brasileiro,
Brasileiro que nem eu...
Fomos nós dois que botamos
Pra fora Pedro II...
Somos nós que devemos
Até os olhos da cara
Pra esses banqueiros de Londres...
Trabalhar nós trabalhamos
Porem para comprar as pérolas
Do pescocinho da moça
Do deputado Fulano.
Companheiro, dorme!”
Em capa dura, a edição de luxo é para deixar qualquer amante da poesia deslumbrado. A cada nova obra compilada nessa edição temos sua respectiva capa separando-as e as identificando, minha preferida com certeza foi Lira Paulistana, me vi emocionada em muitos trechos em que o autor expressou seu mais profundo amor por São Paulo.
Para os amantes de poesia essa é uma edição imperdível que nos permite compreender melhor a concepção dos modernistas brasileiros e para quem não está habituado pode ser uma introdução ao gênero. Eu sempre li poesias, mas pela primeira vez li uma compilação de livros de uma vez e recomendo que leiam com calma e sem pressa, os versos de Mário de Andrade assim como os de qualquer outro poeta são melhor apreciados quando lidas aos poucos, dito isso, leitura recomendada.
“Vou fazer do meu fim minha esperança,
Ôh sono, vem!... Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.”