O auge do entusiasmo pelo ciberespaço ocorreu, provavelmente, em 1999 ou 2000, em algum momento entre a estréia de Matrix e o estouro da bolha da Nasdaq. Enterrado o sonho da “nova economia”, a Internet, trivializada pela sua onipresença no dia-a-dia dos bate-papos, do consumo e do trabalho até do mais banal dos auxiliares de escritório, perdeu muito do velho charme e mistério.
Mas não nos enganemos: não foi só uma moda passageira. Seres humanos civilizados continuam ávidos por cair de joelhos ante suas próprias criações ideais ou materiais e transformá-las em novos ídolos à primeira oportunidade. Coisa que não faltará, pois para o bem e para o mal a tecnologia continua a avançar a passos de robô gigante, daqueles que nos desenhos japoneses tanto podem salvar vidas quanto esmagar as pessoas em seu caminho.
Em "A Religião das Máquinas" – uma coletânea de ensaios densos e eruditos, mas também curtos e claros – o jornalista Erick Felinto, professor de Comunicação Social na UERJ, oferece uma contribuição muito útil a quem quiser compreender como os entusiastas do ciberespaço e os meios de comunicação de massas transformaram as mais novas tecnologias em poderosos fetiches, ancorados em concepções gnósticas, se não nas formas mais arcaicas de pensamento mágico.
Para Felinto, o imaginário das novas tecnologias é gnóstico em sua estrutura. Não no sentido de mimetizas com exatidão o pensamento do gnosticismo histórico, o do início da era cristã, mas no de retomar seus dois impulsos centrais.
Primeiro, a autodivinização: a presença no self de uma fagulha do divino capaz de alcançar o absoluto. O mesmo impulso que constitui “a religião americana”, segundo o crítico literário Harold Bloom em livro do mesmo nome e exalta a independência do indivíduo solitário, só com Deus ante a sociedade opressora. Segundo, a oposição radical entre espírito puro e divino e matéria imperfeita e corrompida, a ser superada pela liberação da consciência das amarras da matéria.
Na atualizada versão cibernética e trans-humanista do mito, trata-se de transcender a condição humana e as misérias do corpo e atingir a imortalidade por meio de um upload da consciência que permitiria a vida eterna em algum mundo virtual, ou de alguma fusão da carne com o silício em um ciborgue de ficção científica. É voltar a uma “fase mágica” da cultura na qual sujeito e objeto encontram-se integrados em perfeita harmonia e o mundo responde imediatamente aos anseios do homem – o sonho da volta à condição de feto no útero da mãe, pode-se acrescentar.
Não é só nos EUA que pensadores se sentem arrastados por esses impulsos e nem sempre estão lá os que os levam mais a sério. Pode-se debitar à licença artística a excitação da artista estadunidense da computação gráfica Nicole Stenger com a perspectiva de, como Javé no jardim do Éden, “experimentar a vida de todas as criaturas e permitir-lhes que venham uma a uma e sejam nomeadas por você”, mas é mais difícil ser condescendente com o sociólogo e filósofo francês Pierre Lévy quando compara o ciberespaço ao mundo angélico da teologia medieval e vê nele um meio de “atingir a liberdade divina”.
Não se pode fazer real justiça ao potencial das novas tecnologias sem desencantar essa metafísica da tecnologia e essas fantasias banais e regressivas, desinflacionar esse discurso afirmativo e triunfalista, fazer a crítica do universo infotecnológico e virtual vigente e abrir os olhos para os conflitos reais e as necessidades urgentes da humanidade, inclusive no campo da comunicação e informação. Segundo o crítico cultural Erik Davis, citado por Felinto, “contemplar tais possibilidades utópicas e metafísicas à luz da política de informação contemporânea é como ouvir o Sanctus da 'Missa em Ré Menor' de Bach em um estéreo barato”.