Este é, com certeza, o mais importante romance de Machado de Assis e uma das mais belas histórias de amor da literatura brasileira. Nele o escritor reúne, no dizer de Renard Perez, “todas as surpreendentes aquisições de sua última fase – o seu triste e velado humorismo, os seus finos dons de observador e de analista, as suas delicadas sondagens psicológicas, o requinte da expressão... É seu romance mais sofrido, mais humano”. O tema – uma preocupação que transparece em toda a obra machadiana – é o adultério, e a persistente dúvida sobre a confiança traída ao longo de uma vida é a vertente de dor e de sofrimento que ele apresenta. Por trás da história arrebatadora de Capitu, a dos “olhos de ressaca”, estão os costumes do Segundo Império, a vida da pequena burguesia do Rio de Janeiro da época, que surgem para o leitor através da observação penetrante e do humor fino de Machado de Assis.
Dom Casmurro (Biblioteca Martins Fontes) -
Machado de Assis
Não é Capitu que trai. É Bentinho!!! Só mesmo um escritor com toda a genialidade de Machado de Assis poderia ter criado esse que é um dos maiores enigmas da nossa literatura. Por traz do narrador casmurro ele manipula o leitor. O que Bentinho conta? A história de Capitu? É o que ele quer dar a parecer: a história de Capitu e sua traição. Mas o livro se chama "Dom Casmurro", referindo-se a ele próprio como sendo o desprezado e excluído da boa convivência, quando, na verdade, ele é que despreza as pessoas e delas se isola. Aí o perfeito jogo: ele, o fidalgo (Dom), é que se afasta das pessoas; que se dá a conhecer apenas superficialmente, pois não se aprofunda nas relações; o que se desliga de tudo; o que quer se fazer de coitado para ganhar a piedade dos leitor. Aí a traição de Bentinho. Ele trai o leitor. Mas essa traição - como todas, é lógico - é escamoteada por seu jogo retórico: o reprimido, o recalcado Bentinho dá-nos a ver suas "desconfianças" (aparência) - que nem precisam de provas - acerca do comportamento de Capitu. Ora, o romântico e imaturo personagem, de índole sonhadora que é hábil em encobrir seus próprios sentimentos até mesmo da própria figura respeitada da mãe, inventa ardilosamente... E só lendo nas entrelinhas para descobrir os ardis do narrador (a essência). Assim é Bentinho: um personagem romântico que contempla as estrelas (cap. CVI); um narrador "realista" que nos engana mostrando-nos uma Capitu habilidosa, sutil e prática, que calcula os objetivos a atingir, mas esconde essas características - que tb são as dele - ao traçar o próprio perfil. E mais: ele enfatiza a veracidade e objetividade do que está narrando. Mentira dele! Ele não pode ser imparcial, visto situar-se como protagonista do que conta, sendo subjetivo, claro; e parcial, evidente! Assim é que Bento (a ironia do nome!) trai o leitor desavisado, aquele que se fia nele, que fica no raso (ah! os leitores do Coelho!) através do perfeito jogo retórico em que o engendra. Mas há um outro leitor - aquele que o desmascara. Desse o narrador não obtém a solidariedade e ele fica cada vez mais solitário, mais casmurro, mais desprezado! Esse o enigma maior! Penso que, armando-o, para implantar a dúvida no leitor, Machado, com toda a sua habilidade narrativa, mostra-nos que o mundo das aparências é uma máscara que encobre o da essência: o ser humano é frágil e contraditório. É esse o drama da condição humana: as verdades (?) são frágeis; a natureza humana, também. .
Estatísticas
Avaliações
4.2 / 120779- 5 estrelas43%
- 4 estrelas33%
- 3 estrelas18%
- 2 estrelas4%
- 1 estrelas1%











